Um consultor estrangeiro para o vinho brasileiro

O enólogo Michel Rolland (1947-2026) nem poderia imaginar que seu trabalho motivaria o empresário paulista Luiz Eduardo Batalha a contratar o também francês Pascal Marty para cuidar dos seus vinhos gaúchos, em seu novo projeto batizado de Gran Terroir 31. Batalha, pioneiro na criação de gado angus no Rio Grande de Sul, acompanhou de perto o trabalho de Rolland nos dez anos em que foi consultor da Miolo, entre 2003 e 2013. “Temos uma fazenda do lado da vinícola dos Miolos e percebia a melhora na qualidade do vinho, safra a safra, depois da chegada de Rolland”, lembra ele.

Pascal Marty e Luiz Eduardo Batalha
Pascal Marty e Luiz Eduardo Batalha

Agora que decidiu investir fortemente nos vinhos gaúchos, Batalha não pestanejou na necessidade de ter um consultor estrangeiro para o seu projeto. “O Galvão Bueno contratou o (Roberto) Cipresso quando começou com seus vinhos. A visão de um profissional com experiência em vários mercados faz diferença”, defende o empresário. A decisão por um consultor estrangeiro não diminui a importância do enólogo brasileiro, mas traz uma visão e um conhecimento externo que só contribui para a melhora do vinho nacional.

Miolo e Galvão Bueno não são os únicos a tomarem este caminho. Os vinhos da paulista Guaspari são elaborados pelo enólogo norte-americano Gustavo Gonzales, e a Casa Tés, também na Serra da Mantiqueira, tem o enólogo Pierre Lurton, dos franceses Cheval Blanc e Château D’Yquem, como mestre dos seus blends, por exemplo.

Com essa filosofia, Batalha delegou ao executivo Pedro Melo, seu sócio na vinícola Cerro de Pedra, a função de encontrar um enólogo capaz de trazer a experiência internacional e o conhecimento da viticultura para o novo projeto. Melo visitou vinícolas no Chile e na Argentina, na América do Sul, e Espanha, na Itália e na França, na Europa, até chegar ao nome de Marty e provar os vinhos que o enólogo elabora no Chile.

Experiência

O enólogo Pascal marty, em apresentação em São Paulo
O enólogo Pascal marty, em apresentação em São Paulo

Marty tem a experiência de ter implementado o projeto Opus One, nos Estados Unidos, e o Almaviva, no Chile, as duas vinícolas do grupo bordalês Baron Philippe de Rothschild. E será o responsável por implementar o Grand Terroir 31, desde o início, com o cargo de diretor de enologia. O projeto nasce com 15 hectares de vinhedos já implementados na Campanha Gaúcha, que atualmente dão origem aos rótulos das vinícolas Cerro de Pedra e Batalha. E terá mais 49 hectares de vinhedos em uma nova propriedade em Bagé, na fronteira com o Uruguai. Com uma área de 100 hectares, o projeto inclui vinhedos e olivais, com suas respectivas vinícola e lagar, além de um condomínio fechado, um hotel e um campo de golfe.

Os 49 hectares de vinhedos serão microlotes de 1 hectare, comercializados para interessados em investir em ter o seu próprio vinho (o valor de cada hectare não está definido, mas deve ficar ao redor de R$ 2,5 milhões). A definição da variedade e do plantio caberá a Marty. O proprietário poderá optar por ter o seu próprio vinho ou deixar as uvas para o projeto.

Os vinhos das vinícolas Batalha e Cerro de Pedra, que ganham a consultoria de Pascal Marty
Os vinhos das vinícolas Batalha e Cerro de Pedra, que ganham a consultoria de Pascal Marty

Em passagem por São Paulo, Marty conta quais foram os dois fatores principais para aceitar o projeto. Primeiro, uma atração pelo terroir do sul do Brasil, que ele já conhece – em meados dos anos 2010, o enólogo chegou a ser consultor da vinícola Peterlongo, em um projeto que não deu certo pelas brigas entre os dois sócios brasileiros. “O clima do sul do Brasil não é fácil, mas é um desafio que me interessa pelas mudanças climáticas”, afirma ele.

O segundo ponto foi o próprio Batalha. “Este personagem tem uma visão de longo prazo. Ele me lembra muito o Baron Philippe de Rothschild que nesta idade começou um projeto novo, o Opus One, sabendo que vinho não é um negócio de resultados imediatos”, afirma Marty.

Agora é esperar pelos vinhos. A meta, conta o enólogo francês, é focar em vinhos de alta gama. “Seremos criativos e vamos nos diferenciar no mercado”, conclui Marty.



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