Grande Hotel Senac de Campos do Jordão, onde a gastronomia também ensina

Hotel-escola histórico da serra paulista faz da gastronomia parte central da experiência

 


Inaugurado em 2 de setembro de 1944, o edifício teve seu auge como hotel-cassino | foto: Divulgação
Inaugurado em 2 de setembro de 1944, o edifício teve seu auge como hotel-cassino | foto: Divulgação

É um prazer.

No Grande Hotel Senac de Campos do Jordão, essa frase aparece o tempo todo. Você pede qualquer coisa, agradece um gesto, comenta algo à mesa, e a resposta vem quase sempre assim, com uma naturalidade que chama atenção justamente por não soar decorada.

Talvez porque, ali, ela não seja apenas uma fórmula de atendimento. Seja a tradução mais simples de um lugar em que servir bem faz parte de um projeto maior, o de ensinar hospitalidade na prática, todos os dias, já que o Grande Hotel é, antes de tudo, um hotel-escola e isso muda a forma como se recebe, se serve e se entende a experiência do hóspede.

Vou a Campos do Jordão desde criança. Felizmente, essa é uma viagem que se transformou também em hábito da minha família, dessas que se repetem sem esforço porque já entraram na memória afetiva da casa.

Por isso eu gosto tanto de lugares que não tentam apagar o tempo, mas conviver bem com ele. Muita gente pode estranhar, num primeiro olhar, o ar antigo do prédio do Grande Hotel, quase como uma pequena viagem no tempo, mas é justamente isso que ajuda a dar graça ao lugar.

Ao longo de sua trajetória, o endereço se consolidou como referência na formação de profissionais da hotelaria e da gastronomia brasileira. O complexo abriga também o Centro Universitário Senac Campos do Jordão, com cursos de graduação, pós-graduação, extensão, cursos livres e qualificação profissional em áreas como hotelaria, gastronomia, turismo, lazer, eventos e educação.


A Clareira é um dos locais mais agradáveis do hotel, onde ocorre a Experiência da Mantiqueira | foto: Divulgação
A Clareira é um dos locais mais agradáveis do hotel, onde ocorre a Experiência da Mantiqueira | foto: Divulgação

Esse ponto me parece central. O que se vê ali não é apenas um bom serviço de hotel, mas a expressão de uma cultura pedagógica em que técnica, atenção e prazer em servir caminham juntos.

Boa parte dos profissionais que depois vão abastecer o mercado de hospitalidade e gastronomia no Brasil passam pelo Grande Hotel. Por isso que essa vocação não fica escondida nos bastidores, ela chega ao hóspede o tempo todo, na atenção aos detalhes e, sobretudo, na mesa.

Claro que o cenário ajuda. Campos do Jordão há muito tempo transformou a boa mesa em parte central da viagem (mas, como toda cidade turística, infelizmente, a meu ver, a cidade está cheia de lugares de gosto duvidoso e com excessos desnecessários).

Mas ele não depende apenas do charme da serra. Inaugurado em 2 de setembro de 1944, o edifício teve seu auge como hotel-cassino, depois passou um longo período fechado e ganhou novo fôlego quando, em 1982, Senac São Paulo e Governo do Estado assinaram o convênio que abriu caminho para a criação do hotel-escola. A retomada começou em 1987, com uma reforma profunda que recuperou o prédio sem abrir mão das características da arquitetura original, e a reinauguração veio em 1998.

Essa história toda dá lastro ao hotel. Mas, no fim, é na mesa que ele me parece mais interessante.

Isso aparece já na estrutura. O hotel ocupa uma área de 400 mil metros quadrados, tem 95 apartamentos distribuídos em nove categorias e organiza sua oferta gastronômica em diferentes frentes, como Restaurante Grande Hotel, Bar da Lareira, Adega, Arte da Pizza, Espaço Grill, Clareira, Vinhedo, Mirante do Vinhedo e Bar do Vinhedo.

No Restaurante Grande Hotel, o buffet passeia pelas cozinhas brasileira e internacional, sem deixar de valorizar ingredientes típicos da Mantiqueira. E aos sábados ganha um dos programas mais atraentes da casa, a feijoada ao som de chorinho ao vivo.

É aí que o hotel acerta em cheio. Antes mesmo da feijoada, os petiscos, torresmo, pastéis e caldinho de feijão, são servidos na área externa, junto do trio que toca o chorinho. E isso muda tudo, porque tira a experiência de um registro formal de hotel e a leva para um lugar muito mais solto, quase como se você estivesse na casa de amigos num almoço comprido de fim de semana.

Gosto muito dessa cena porque ela coloca o Grande Hotel num registro mais brasileiro, mais informal e mais caloroso. Em vez de uma formalidade excessiva, a experiência aproxima, relaxa e lembra que gastronomia boa também é aquela que sabe criar ambiente.


A Arte da Pizza é uma das experiências mais conhecidas do hotel e atrai o público externo de Campos | foto: Divulgação
A Arte da Pizza é uma das experiências mais conhecidas do hotel e atrai o público externo de Campos | foto: Divulgação

Outro bom exemplo é a Arte da Pizza, uma das experiências mais conhecidas da casa. Em muitos hotéis, pizza seria apenas uma saída fácil para agradar a todos, mas ali ela ganha tratamento mais cuidadoso, com massa leve e crocante, proposta artesanal e sabores que ajudam a marcar a experiência.

Entre eles, a Napolitana, com mix de tomates, manjericão fresco, flor de sal, alho e parmesão, e a Arte, com molho de tomate, mozzarella, linguiça calabresa artesanal em lâminas e parmesão gratinado. O conjunto se completa com harmonizações de azeites e mais de 150 opções de vinhos.

Isso faz diferença porque transforma algo corriqueiro em experiência de viagem. A pizza deixa de ser um pedido confortável e vira memória do hotel, ainda mais num destino em que o frio favorece refeições mais longas, mais compartilhadas e mais aconchegantes.

A adega, integrada ao Bar da Lareira, reforça esse cuidado com a bebida. São cerca de 1.700 garrafas climatizadas a 14,5 graus e uma carta com mais de 200 rótulos, além da presença do sommelier em indicações e workshops para os hóspedes. Num hotel-escola, isso não parece detalhe, parece continuação natural da proposta.

Também vale falar da Clareira, que recebe a Experiência da Mantiqueira, em que o chef prepara quitutes como requeijão de corte e pão de queijo, acompanhados de café coado na hora, enquanto conta histórias e costumes da região.

Esse me parece um dos acertos mais interessantes do hotel. Em vez de oferecer uma gastronomia genérica de serra, ele tenta ligar a refeição ao território, ao produto, ao sotaque e à memória da Mantiqueira.

O vinhedo experimental vai na mesma direção. Com castas Cabernet Sauvignon, Pinot Noir, Sauvignon Blanc e Riesling, ele serve de cenário para os Wine Moments com o sommelier e ajuda a costurar paisagem e enogastronomia no mesmo gesto.

Também acho importante que a programação trate a gastronomia de forma participativa. Entram aí experiências como Hóspede Chef, Desafio Chef vs. Sommelier, Hot Dog em Família, workshops gastronômicos e de bebidas, chá da tarde e outras atividades que tiram a comida de um papel apenas contemplativo.

Esse tipo de iniciativa reforça a identidade do hotel, porque aproxima o hóspede do fazer gastronômico e traduz, de maneira leve, a própria vocação pedagógica da casa.


O Bar da Lareira abriga uma adega com cerca de 1.700 garrafas | foto: Divulgação
O Bar da Lareira abriga uma adega com cerca de 1.700 garrafas | foto: Divulgação

No fundo, é isso que destaca o Grande Hotel Senac de Campos do Jordão de tantos outros endereços de serra. Ele não vive só do frio, da arquitetura ou da ideia pronta de refúgio, vive também de um projeto consistente em que ensino, hospitalidade e gastronomia se alimentam mutuamente.

E essa questão da formação merece voltar no fim. Porque a boa mesa ali não é apenas resultado de uma operação bem desenhada, é também expressão de um ambiente que ajuda a preparar gente para o mercado, gente que depois vai levar essa mesma ideia de serviço, técnica e cuidado para outros restaurantes, hotéis e cozinhas do país.

No fim, volto à frase do começo. É um prazer.

No Grande Hotel Senac de Campos do Jordão, ela não parece slogan. Parece síntese de uma casa que entendeu, como poucas, que gastronomia boa não é só a que sai bem da cozinha, é também a que chega à mesa acompanhada de contexto, cuidado e vontade real de receber.

Serviço Grande Hotel Campos do Jordão

Av. Frei Orestes Girardi, 3549, Campos do Jordão, SP

Reservas: 0800 7700 790 | (12) 3668-6000

WhatsApp: (12) 3668-6267

Site: grandehotelsenac.com.br

Instagram: @grandehotelsenac



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