‘Gastrofashion’: entenda porque moda e gastronomia são mais conectadas do que você imagina

Bolsa em formato de aspargos, estampa de banana, maisons de moda abrindo cafeterias, estilistas de dolmãs. A moda e a gastronomia parecem estar uma na vida da outra. Será que a “collab” é tendência atual ou será que sempre existiu? A resposta é ‘sempre’ e hoje Paladar explica como se dá essa relação já batizada de ‘gastrofashion’.

Doces diversos feitos pela confeiteira Juliana Penteado que assina produções para importantes marcas
Doces diversos feitos pela confeiteira Juliana Penteado que assina produções para importantes marcas

Se olhar para os menus e para os desfiles já temos evidências bem explícitas da parceria íntima entre os dois universos. Exemplo? O restaurante D.O.M., do chef Alex Atala, criou recentemente um novo menu de 10 etapas com o conceito que nasce da reflexão “quando à mesa, é hora de a onça beber água”. Os pratos passeiam por biomas brasileiros por onde o animal passa, Amazônia, Pantanal, Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica.

Uma narrativa bem parecida com a recente do D.O.M apareceu na passarela do último Rio Fashion Week. A marca paraense Normando, dos estilistas Marco Normando e Emídio Contente, apresentou 36 peças da coleção “Natureza Morta”. A proposta reflete sobre a passagem do tempo através de estampas de “Banana Podre”, “Bronze Oxidado”, “Amazônia Oxidada” e outras.

Os materiais também fazem parte dessa história: látex da Amazônia, poliamida biodegradável, fibra de malva, tecido 100% viscose certificada e rastreável.

Atala e Normando usam elementos brasileiros para contar histórias em seus pratos e em suas roupas. Um escolhe biomas e ingredientes, o outro escolhe matéria-prima e estampas, mas ambos transformam seu olhar em ‘gstro’ e também em ‘fashion’.

Novo Menu D.O.M inspirado em biomas brasileiros Na foto: Jacaré com bacuri
Novo Menu D.O.M inspirado em biomas brasileiros Na foto: Jacaré com bacuri

Para Emídio Contente, da Normando, a conexão entre moda e gastronomia é natural. “Ambos partem de um processo da mão humana sobre a natureza. São lugares de transformação.”

Marco e Emídio, naturais de Belém no Pará, complementam ainda que a ancestralidade e os sabores de suas origens não ficam de fora do processo criativo na moda. “Esse saber gastronômico que passa pela nossa cultura desde que nascemos é um fator importante para olharmos para matérias-primas de maneira plural. Assim como misturamos na culinária a ancestralidade com referências europeias, como o pato no tucupi”, diz.

Normando 

Rio Fashion Week 2026

Foto: Ze Takahashi/ @agfotosite
Normando Rio Fashion Week 2026 Foto: Ze Takahashi/ @agfotosite

Juntas, moda e gastronomia traduzem o “espírito do tempo”

Nathalia Fialho, especialista em psicologia do consumo, estilista e pesquisadora de tendências, explica que essa relação moda/comida não é coincidência. “Quando a gente olha para a indústria alimentícia e para a da moda, a gente vê duas engrenagens que conseguem traduzir o nosso espírito do tempo, muito rapidamente.”

Essa velocidade é justamente o que une os dois setores. “A moda traduz muito rápido o espírito do tempo e a gastronomia massifica. Então elas precisam andar juntas porque uma coisa depende da outra”, explica Nathalia.

Ela observa que hoje vemos gastronomia na moda, nos editoriais, no mercado de beleza. Roupas e pratos cheios de texturas, camadas. “No final do dia, tendência de moda e mercado de consumo de comida estão respondendo a uma dor, uma tensão que a gente tem.”

Chefs desenham cardápios como estilistas desenham coleções

A observação de Nathalia sobre o ‘gastrofashion’ ficou bem evidente nas conversas de Paladar com cozinheiros durante o Guia Michelin, realizado no Rio de Janeiro, em abril. A chef Janaína Torres, do Bar da Dona Onça, por exemplo citou que moda e gastronomia apresentam um processo criativo bem similar.

“No Evvai (restaurante que no Michelin foi agraciado pelo título máximo com 3 estrelas), o chef Luiz Filipe faz os desenhos dos pratos do cardápio à mão. É uma forma de descrever o que vai ser apresentado, assim como fazem os estilistas”, contou.

A chef Manu Buffara, que tem o restaurante internacionalmente conhecido em Curitiba, o Manu, e foi eleita a melhor Chef Mulher da América Latina (2022) também desenha seus menus à mão, tal qual croquis.

Manu Buffara, chef do restaurante Manu, desenha seus cardápios à mão, tal qual estilistas fazem com croquis
Manu Buffara, chef do restaurante Manu, desenha seus cardápios à mão, tal qual estilistas fazem com croquis

Já o chef Alberto Landgraf, que comanda o Oteque - estrelado do Rio de Janeiro, convocou para o seu primeiro livro o fotógrafo Robert Astley-Sparke - habitué dos editoriais de moda - para pela primeira vez em sua carreira fotografar seus pratos, como se fossem modelos.

A chef Helena Rizzo, do restaurante Maní, começou sua carreira como modelo e para ela, “todas as formas de arte e de expressão podem sim ter relação”, disse ao Paladar. Bianca Mirabili, chef confeiteira do Evvai e eleita a melhor da América Latina pelo Latin America’s 50 Best Restaurants em 2025, endossa:

“Gastronomia e moda têm tudo a ver. Cada um se expressa de uma maneira. Assim como um chef se expressa em um prato ou criando um novo menu dentro do seu restaurante, aquilo que você veste passa uma energia, passa uma mensagem para as pessoas que estão te vendo. Acho que é o link perfeito.”

Bianca Mirabili, chef de confeitaria do Evvai, eleita melhor chef confeiteira da américa latina, diz que gastronomia e moda têm tudo a ver
Bianca Mirabili, chef de confeitaria do Evvai, eleita melhor chef confeiteira da américa latina, diz que gastronomia e moda têm tudo a ver

Gastronomia como lifestyle, a origem do ‘gastrofashion’

Essa busca pelo sensorial através da comida aparece literalmente nas passarelas. A Loewe, marca espanhola de luxo, fez das frutas e vegetais quase uma assinatura nas últimas coleções. Aspargos, tomates, morangos ganham outro significado ao poderem ser usados como bolsas e acessórios.

A comida se tornou não só objeto de inspiração para estilistas, mas parte da construção de identidade. Principalmente na era das redes sociais, onde através de fotos e vídeos e recortes da vida, criam-se a imagem de quem somos através dos lugares que frequentamos, dos restaurantes que escolhemos e da roupa que vestimos.

Bolsa aspargos Loewe
Bolsa aspargos Loewe

Esse fenômeno tem até nome, que deu título à reportagem.

Em 2019, Adam Geczy e Vicki Karaminas criaram o conceito de gastrofashion, no livro Fashion and Art, que destaca como designers e grupos de luxo exibem ativamente suas marcas em cafés, restaurantes e em todo o setor de hotelaria, transformando o consumo em um ritual tanto de apetite quanto de identidade.

O chef Thiago Bañares, do Tan Tan, que tem como assinatura de estilo o lenço amarrado no pescoço, confirma essa relação. “Para mim, gastronomia sempre foi lifestyle. Eu vou aos restaurantes que fazem parte do meu estilo de vida, está tudo amarrado.”

Estilistas de dolmãs

Pedro Drudi, chef e professor de gastronomia na Universidade Anhembi Morumbi e gestor de desenvolvimento acadêmico no Le Cordon Bleu São Paulo, explica que a profissionalização da gastronomia aconteceu na França, no mesmo período em que a alta-costura se estabelecia.

“A gastronomia saiu da Itália com Catarina de Médici, mas foi na França que você tem a profissionalização do cozinheiro, em períodos semelhantes e que se cruzaram.”

E a semelhança não para no tempo e lugar. “Hoje você tem chefs que assinam dolmãs (roupas características de chefs) como se fossem estilistas. André Razuk é um exemplo d estilista de dolmãs. Hoje é super comum você ter chefs com dolmãs pretas, vermelhas, rosa, jeans. A moda faz parte porque é uma forma de expressão dentro da gastronomia”, explica Drudi.

O paralelo vai além do uniforme. “Quantos restaurantes no Brasil têm cardápios assinados por um determinado chef. Só que o chef pisa lá uma vez ou duas, assim como estilistas que definem um conceito para um tipo de roupa que vai ser vendida em lojas que ele sequer vai entrar”, diz Drudi para então resumir: “o chef chegou em um ponto em que ele é um estilista de cardápio.”

Uma confeiteira da moda

Não é só nos desfiles que essa conversa acontece. Juliana Penteado é confeiteira há sete anos em Lisboa e no portfólio dela estão eventos da Dior, da Nike e da Chanel. Ela também está no Guia Louis Vuitton desde o primeiro ano que sua loja nasceu.

O briefing que ela recebe das marcas de luxo diz muito sobre como gastronomia e moda operam na mesma frequência. “Lançamento de perfume da Chanel: mandam paleta de cor e flor. É isso que tenho de briefing.”

A partir daí, Juliana traduz cores e texturas com base em sua criatividade e seu conhecimento, além do profundo comprometimento com sabores naturais. Nessa, roxo e lilás viram alfazema, cassis, amora.

Tal como um estilista, a identidade visual dos doces produzidos por Juliana é tão consistente que virou assinatura. “Meus amigos reconhecem meu doce sem ler quem fez”, comparando com uma das maisons mais reconhecidas, a Chanel. “Sabe quando você bate o olho e reconhece aquele corte, aquele tecido? É bem parecido.”

Juliana Penteado finalizando Banoffee com cardamomo ( torta de banana, caramelo e cardamomo)
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Juliana Penteado finalizando Banoffee com cardamomo ( torta de banana, caramelo e cardamomo) jpg

Dois universos com uma mesma missão

vivências como a de Juliana expressam que gastronomia e moda compartilham história, símbolos e muitas vezes o mesmo público. Público este que conta com os dois universos para contar suas próprias trajetória, marcadas no tempo pelas roupas que usaram e os sabores que experimentaram. No fim, conexão e identidade são missões em comum da gastrofaashion.

Assista ao vídeo da chef Bianca Mirabilli



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