Só uma chuchadinha: o gesto que virou prato nos restaurantes

Talvez não seja uma invenção brasileira, mas que há uma brasilidade inegável no termo chuchar, isso há! Chuchar é mergulhar o pão no molho, o bolo na calda, não só ao fim da refeição. Vale para biscoito no chá, no café e para um sem-fim de submersões.

Em outros cantos do planeta, um pão para limpar um restinho de caldo costuma basta – é o saucer na França, o fare la scarpetta na Itália. E, mesmo que franceses e italianos deem suas chuchadinhas, não têm um verbo tão customizado para isso.

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Fellipe Zanuto emprega o verbo com dignidade desde a abertura do Hospedaria, há quase dez anos, na Mooca. Na época, a lembrança do panelão de molho de tomate da nona, apurando por horas, do saquinho pardo da padaria e dele pequeno correndo para o quintal com um pãozinho deixando um rastro vermelho era tão nítida que virou entrada do restaurante.

Pizzaria Mooca: chuchar o pão virou prato
Pizzaria Mooca: chuchar o pão virou prato

O Pão com Molho, para chuchar à vontade (R$ 38), jamais saiu de cartaz. Ao contrário, influenciou outros cardápios. Ele mesmo, na Pizza da Mooca, criou o Creme Cacio & Pepe (R$ 52), uma fonduta borbulhante de grana padano e pimenta-do-reino para ser devidamente chuchada com o cornicione.

“Chuchar não é receita, é atitude: aquela de ir até a panela de molho que está sendo preparado para outra coisa e dar uma roubada. Na minha casa sempre foi assim, é um ritual de família”, define o chef. E completa: “Quando o prato chega à mesa, muita gente se reconhece: ‘nossa, eu fazia isso’”. Alain Poletto, do Bistrot de Paris, é francês – e não fazia isso.

Ainda que de um lado tivesse uma nona italianíssima, jamais ousou mergulhar uma baguete no seu ragu. Para ele, chuchar é rasgar o pão fresco de manhã e esperar o ovo cozido no ponto perfeito, com a gema ainda molinha.

Bistrot de Paris: ovo coccote
Bistrot de Paris: ovo coccote

A lembrança aparece refinada nos Jardins, no Ovo Cocotte ao Foie Gras, acompanhado por e pão de especiarias (R$ 112). Os bastões adocicados, tradicionalmente associados ao nobre fígado, continuam fazendo bonito ali.

Um adjetivo que também vale para a combinação da Osteria Zucco: flor de abóbora recheada com ricota, empanada, e potinho de molho de tomate ao manjericão (R$ 56) e para o catarinense Morro Azul, queijo premiado mundialmente, servido como um fonduezinho na Braz Trattoria para receber o pão da casa e mel (R$ 69).

No fim, entre o molho da vó, pãezinhos e frituras que hoje aparecem em menus, o chuchar se sustenta como prática – direta, reconhecível, deliciosa e, portanto, difícil de tirar da mesa.

  • Serviço: um roteiro para chuchar o pão

Hospedaria

R. Borges de Figueiredo, 82, Mooca.

Seg., das 12h às 15h; ter. a qui., das 12h às 15h e das 18h às 22h; sex. e sáb., das 12h às 22h30; dom., das 12h às 17h.

Tel.: (11) 2291-5629

A Pizza da Mooca

R. João Moura, 529, Pinheiros. Todos os dias das 18h às 23h.

Tel.: (11) 3064- 0060

Bistrot de Paris

R. Augusta, 2542, Jardim Paulista. Seg., das 12h às 15h30; ter. e qua., das 12h às 15h30 e das 19h às 23h; qui., das 12h às 23h30; sex. e sáb., das 12h às 0h; dom., das 12h às 22h.

Tel.: (11) 3063-1675

Osteria Zucco

R. Graúna, 65, Moema. Seg. a qui. das 12h às 15h30 e das 18h30 às 23h; sex das 12h às 15h30 e das 18h30 às 00h; sáb. das 12h às 00h; dom., das 12h às 22h.

Tel.: (11) 3897-0666

Bráz Trattoria

R. dos Pinheiros, 412, Pinheiros. Seg. a qui., das 12h às 15h e das 18h às 22h30; sex. e sáb., das 12h às 00h; dom., das 12h às 22h.

Tel.: (11) 3195-6373



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