Giovanna Grossi fecha o Animus com “Carta a Alagoas”, seu menu mais pessoal

Não é por desilusão, é por amor: Giovanna Grossi fecha o Animus. A frase, que poderia soar como despedida amarga, é só sinal de novos caminhos. Aberto em 2019, o Animus revelou sua alma, por mais redundante que isso possa soar. Receitas de inspiração artística, ingredientes em seu ápice, rigor técnico e apresentação graciosa deram forma a um universo capaz de escutar as estações, sincronizar a cozinha ao clima e usufruir da tecnologia – dos fornos Josper e Rational à primeira hortinha indoor da cidade.

Giovanna (que ainda não era presidente do Bocuse d’Or no Brasil) já despontava como o principal nome do país nesse importante concurso mundial enquanto mirabolava seu restaurante no Baixo Pinheiros – e olha que ela ainda nem tinha 30 anos! Nesse emaranhado, aninhou-se em seu repertório íntimo: o espaço luminoso e arejado como os da infância em Maceió, a renda de filé gravada na parede e, no menu, a busca pelo zero desperdício e a valorização do reino vegetal.

Giovanna Grossi, chef e dona do Animus
Giovanna Grossi, chef e dona do Animus

No último movimento, Giovanna radicaliza uma homenagem à gastronomia, à história e ao imaginário do estado onde cresceu. Intitulado Carta a Alagoas, revela sete tempos (R$ 420) por meio de um percurso cultural, na cadência de um cordel. A experiência começa à beira-mar, em As Barras, com casquinha de siri e sururu de capote. Em A Pesca, a peixada com mandioca e gel de umbu, pede a focaccia caseira para absorver até a última gota do “caldinho”.

O trajeto segue para Os Quilombos, encontro sertanejo entre feijão-verde, maxixe, porco glaceado em melaço de cana e espuma de queijo coalho, um desses pratos que tem espírito de festa de família e exatidão de restaurante estrelado. O Sertão propriamente dito é uma massa recheada de carne seca e nata. Tem um peso que não se costuma ver na cozinha do Animus – talvez seja o da expectativa da saudade. Para alegria do comensal, o consomé de cebola tostada e erva-doce que o rodeia é estrela nesse menu.

"O Sertão": massa recheada de carne seca e nata

Ainda tem cordeiro com xerém de milho n’O Cangaço e queijo Macururé com seriguela na Bacia Leiteira. Então, O Guerreiro, sintetiza a proposta: coco queimado, ganaches de jabuticaba e cacau, sorbet de pitanga negra e crocante de cacau compõem uma sobremesa que é também paisagem e memória.

Ao lado de cada prato desse cardápio, uma obra de arte é trazida à mesa, criando um jogo entre o que se vê e o que se come. Sem ares escolares, a chef e sua equipe constroem um passeio sensorial que usa a comida como ponto de partida para a viagem. Em cartaz somente até 30 de abril, o Carta a Alagoas é desfecho natural de um percurso que se completou.

Cá entre nós, se cabe uma pitada de fofoca, tem também um chamado do coração: há pouco mais de um mês Giovanna casou-se numa festança em Maceió com um chef de Santa Catarina. Um pouco antes, a melhor amiga deu a luz a seu afilhado. Entre uma coisa e outra, as origens gritaram para que ela se demorasse ali. Não foi nostalgia, foi a sensação de que em Alagoas sua cozinha pode continuar a crescer, com a mesma independência de seu espírito sagitariano.

Animus

R. Vupabussu, 347, Pinheiros. Qua. a sex., 12h às 15h e 19h às 23h; sáb., 12h às 16h30 e 19h às 23h; dom., das 12h às 16h30. Tel.: (11) 98705-9388



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