Hospitalidade, antes que a palavra se desgaste
Hospitalidade corre o risco de se tornar uma palavra gasta. Está no discurso de hotéis, restaurantes, destinos turísticos, eventos – e, claro, na origem dos hospitais. Ambos os termos remontam ao latim hospes, que designava tanto quem recebia quanto quem era recebido. É bonito pensar que, antes de qualquer distinção, havia uma relação.
De tanto ser empregada para falar de serviço, acolhimento, atenção e propósito, a palavra começa a significar quase tudo. E o que vale para tudo corre o risco de não dizer mais nada. Há nela, contudo, algo de que não se deve abrir mão: oferecer sem esperar nada em troca. Partilhar uma coisa boa pelo prazer de partilhar, sem expectativa de reciprocidade.
Pensei nisso durante o Host Douro, encontro realizado neste mês de outubro, em Portugal, que reuniu profissionais da gastronomia, do vinho e representantes de diferentes ofícios e iniciativas locais. Entre conversas sobre alimentação e preservação de tradições, uma pergunta se impunha: de que adianta falar tanto em receber bem se estamos perdendo a capacidade de olhar para o outro?

No Douro, a discussão ganha contornos particulares. O vinho do Porto há muito concentra os holofotes. Em torno dele, quintas desenvolveram hotéis, restaurantes, visitas e até cruzeiros. Não sei se há certo ciúme dessa hegemonia, mas existe uma vontade de mostrar que a região também se descobre nas amêndoas de Torre de Moncorvo, nos vinhos tranquilos e espumantes, nas tabernas e no trabalho de agricultores ausentes dos roteiros turísticos.
O chef português João Rodrigues segue essa trilha com o projeto Matéria. Há dez anos, percorre o país aproximando cozinheiros, artesãos, pescadores e pequenos produtores. Já foram mais de 100 mil quilômetros e 200 profissionais visitados, movidos pela vontade de conhecer, documentar e divulgar o que encontram.

Portugal, que caberia quase cem vezes no Brasil, guarda uma riqueza alimentar que não cabe nos cartões-postais. Há conhecimentos preservados por uma população que envelhece sem ter a quem transmiti-los, ofícios ameaçados e aldeias que se esvaziam. Ao dar visibilidade a essas histórias, João ajuda a evitar que desapareçam.
A preocupação com o que está ameaçado também norteia o trabalho dos irmãos León. No Host Douro, Carlos, diretor do Aponiente e irmão do chef Ángel, conduziu a plateia numa viagem imaginária pelas marismas de Cádiz, no sul da Espanha, onde antigas salinas passaram a integrar um projeto de recuperação ambiental.
Instalado num moinho de maré em El Puerto de Santa María, o restaurante de três estrelas Michelin está envolvido na restauração desse ecossistema. Reabrir comportas e restabelecer a circulação da água são passos para favorecer o retorno da fauna e da flora. Uma tarefa sujeita aos caprichos da natureza, não aos horários de uma cozinha.
Carlos mostra que o ato de receber pode começar antes mesmo da chegada de um convidado. Há generosidade em abrir as portas de casa, mas também em cuidar do que existe do lado de fora, para benefício de outros.
De outro três estrelas Michelin, Katherina Cordás, do Tuju, trouxe uma inquietação: quem cuida de quem serve? “Temos muitos congressos dedicados à gastronomia, à cozinha, aos produtos e às técnicas, mas ainda são poucos os espaços que se propõem a pensar com profundidade sobre o ato de receber”, observou. Para ela, “a hospitalidade não é uma fórmula ou um conjunto de protocolos”; precisa acompanhar as transformações da sociedade.

Valorizar produtores, recuperar ecossistemas, zelar por uma equipe. Os exemplos apresentados no Douro mostram que a arte de receber vai além do tratamento dispensado ao hóspede. Exige atenção ao que sustenta esse encontro, inclusive longe dos olhos do cliente.
A técnica se ensina, se aperfeiçoa, se cobra. A generosidade, não. Talvez seja esse o sentido que merece ser preservado antes que hospitalidade se torne apenas mais uma palavra bonita a serviço dos negócios. Oferecer porque sim. Deixar que o outro leve consigo alguma coisa que não estava à venda.
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