Champagne não é só para comemorar: por que ele merece mais espaço à mesa

De uma hamburgueria em Reims à combinação com coxinha em São Paulo, meu vinho favorito mostra que tem muito a oferecer além dos brindes especiais

 


Champagne não precisa ficar restrito às grandes celebrações. Na foto, o Lallier Brut Rosé, exemplo de um vinho que também pode acompanhar diferentes experiências gastronômicas | foto: Rodrigo Zorzi/Divulgação Lallier
Champagne não precisa ficar restrito às grandes celebrações. Na foto, o Lallier Brut Rosé, exemplo de um vinho que também pode acompanhar diferentes experiências gastronômicas | foto: Rodrigo Zorzi/Divulgação Lallier

 

Tenho uma paixão declarada por Champagne, apesar de também admitir que entendo muito menos do que gostaria sobre o assunto. É meu vinho favorito e, se depender de mim, não precisa de aniversário, casamento ou Réveillon para aparecer à mesa.

Pelo contrário. Acho que reservar uma bebida tão interessante apenas para as grandes comemorações é deixar de aproveitar boa parte do que ela tem a oferecer.

Na última sexta-feira, 23 de outubro, foi celebrado o Dia Mundial do Champagne. A data me fez lembrar da viagem que fiz à região francesa no ano passado, quando pude conhecer mais de perto o lugar onde nasce um vinho de que tanto gosto.

Uma das experiências mais interessantes da viagem aconteceu em Reims, uma das principais cidades da região. Foi no Sacré Burger, uma hamburgueria que mostra como é possível beber um excelente Champagne sem nenhuma cerimônia.


Raphael Malago, da Uva Vinhos, destaca o crescente interesse pelos Champagnes de pequenos produtores, que oferecem diferentes estilos e novas possibilidades de harmonização | foto: agência ASTT
Raphael Malago, da Uva Vinhos, destaca o crescente interesse pelos Champagnes de pequenos produtores, que oferecem diferentes estilos e novas possibilidades de harmonização | foto: agência ASTT

O lugar é descomplicado, com hambúrgueres, batatas fritas e uma carta que impressiona pela quantidade de Champagnes disponíveis, especialmente de pequenos produtores. Gosto dessa proposta: trocar toda a formalidade que costuma acompanhar o Champagne por um bom hambúrguer com fritas, sem abrir mão de uma ótima garrafa.

E a combinação faz todo o sentido. A acidez do vinho ajuda a equilibrar a gordura da carne e das frituras, enquanto as borbulhas renovam o paladar a cada gole. É uma maneira simples e deliciosa de perceber como o Champagne pode acompanhar uma refeição.

Aliás, Champagne não é apenas uma maneira mais sofisticada de chamar um espumante. É um vinho que só pode receber esse nome quando produzido naquela região da França, seguindo regras específicas. Isso não diminui os excelentes espumantes elaborados em outros lugares, inclusive no Brasil, mas ajuda a entender a identidade de um dos vinhos mais famosos do mundo.

Moët & Chandon, Ruinart, Krug e Dom Pérignon estão entre os nomes mais conhecidos desse universo. São referências que ajudaram a construir a reputação mundial do Champagne, mas há muito mais para descobrir além dessas garrafas.

Nos últimos anos, os chamados grower Champagnes vêm despertando cada vez mais interesse. São vinhos elaborados por produtores que cultivam suas próprias uvas e que frequentemente procuram destacar as características de seus vinhedos, das safras e das variedades utilizadas.

Para Raphael Malago, da importadora Uva Vinhos, esse movimento acompanha uma mudança internacional nos hábitos de consumo. O Champagne vem deixando de ser associado exclusivamente às celebrações para ganhar espaço também durante as refeições.

As propostas das grandes maisons e dos pequenos produtores são diferentes, mas não se trata de uma disputa de qualidade. Muitas casas tradicionais procuram preservar uma identidade reconhecível em seus rótulos, trabalho que exige conhecimento, rigor e cuidado.

"As grandes casas sempre buscam uniformidade", explica Malago, referindo-se à consistência que o consumidor espera encontrar ao abrir uma garrafa de sua marca favorita.

Já os pequenos produtores muitas vezes exploram mais diretamente as particularidades de seus vinhedos, das safras e das variedades de uva. Malago destaca a diversidade de estilos e o caráter mais vínico de alguns desses Champagnes, que considera "muito mais vinosos" e especialmente interessantes para harmonizações. Segundo ele, foi justamente o movimento dos grower Champagnes que ajudou a ampliar as possibilidades de consumo da bebida, que passou a ganhar espaço durante toda a refeição, "da entrada, prato principal, sobremesa".


No Sacré Burger, em Reims, na França, hambúrgueres e batatas fritas dividem a mesa com uma extensa seleção de Champagnes, muitos deles de pequenos produtores | fotos: Fred Sabbag
No Sacré Burger, em Reims, na França, hambúrgueres e batatas fritas dividem a mesa com uma extensa seleção de Champagnes, muitos deles de pequenos produtores | fotos: Fred Sabbag

A Uva Vinhos importa nomes como Bonnet-Ponson, Benoît Déhu e David Léclapart. Entre os rótulos mais curiosos está o Petit Mélange, da Bonnet-Ponson, elaborado com sete variedades de uva, incluindo algumas pouco conhecidas, como a Petit Meslier. Outro destaque é o L'Aphrodisiaque, de David Léclapart, a meu ver um dos Champagnes mais especiais do catálogo da importadora.

Não é preciso escolher entre grandes casas e pequenos produtores. Há excelentes Champagnes nos dois grupos, e conhecer essas diferenças é uma das partes mais interessantes desse universo.

Mas, independentemente da garrafa, uma das coisas que mais me agradam no Champagne é justamente sua versatilidade gastronômica.

Ostras, caviar e frutos do mar são combinações clássicas, mas algumas das harmonizações mais interessantes estão longe do óbvio. Champagne com coxinha, por exemplo, é uma mistura que funciona muito bem. A acidez e as borbulhas ajudam a equilibrar a gordura da fritura, enquanto o vinho acompanha os sabores do recheio sem perder seu protagonismo.

Em São Paulo, a combinação me faz lembrar do Palácio Tangará, onde uma coxinha com caviar chamou a atenção da cidade, há anos, dividindo a mesa com uma boa taça de Champagne. Uma demonstração de que até ingredientes e preparações bastante familiares podem render experiências especiais.

E as possibilidades não param por aí. Pastéis, batatas fritas, frango frito e diferentes pratos da culinária japonesa também podem proporcionar ótimas harmonizações.

"A diversidade da gastronomia brasileira é um convite permanente à experimentação", observa Victoria Sarro, Brand Manager da Maison Lallier.


Victoria Sarro, Brand Manager da Lallier, aposta na diversidade da gastronomia brasileira para ampliar as possibilidades de consumo de Champagne à mesa | foto: Divulgação
Victoria Sarro, Brand Manager da Lallier, aposta na diversidade da gastronomia brasileira para ampliar as possibilidades de consumo de Champagne à mesa | foto: Divulgação

Fundada em 1906, em Aÿ, um dos vilarejos classificados como Grand Cru na região de Champagne, a Lallier integra atualmente o Grupo Campari. A casa chegou ao mercado brasileiro com dois rótulos, o Réflexion Brut R20 e o Brut Rosé, e tem procurado aproximar seus vinhos da gastronomia.

 

Em São Paulo, por exemplo, a marca já promoveu um brunch com o wine bar Gnomo, no qual Champagne foi servido até com broa. E essa aproximação com a gastronomia continua. Na próxima terça-feira, 27 de outubro, a maison realiza, na Pinacoteca de São Paulo, a primeira edição paulistana do Dîner Réflexion, um jantar que coloca o Champagne no centro da experiência.

Para Victoria, "o Champagne pode ir muito além das grandes celebrações e fazer parte de experiências à mesa". Esse movimento também acompanha uma transformação no interesse dos consumidores. "O consumidor está mais curioso, interessado em conhecer novas Maisons, descobrir diferentes estilos e ampliar seu repertório", afirma.

O preço, evidentemente, continua sendo um obstáculo. Champagne não é barato, especialmente no Brasil, e é compreensível que muita gente reserve suas garrafas para ocasiões especiais. Mas há uma diferença entre reconhecer que se trata de uma bebida de custo elevado e acreditar que ela só faz sentido quando existe algo extraordinário para comemorar.

Minha viagem à região francesa reforçou o carinho que já tinha por esse vinho. E uma das lembranças mais interessantes que trouxe de lá não envolve um jantar sofisticado ou uma degustação cheia de formalidades, mas justamente um hambúrguer acompanhado de Champagne.

Talvez seja esse o melhor exemplo de como gosto de apreciá-lo. Com uma boa comida, sem grandes cerimônias e, de preferência, em ótima companhia.

Se houver algo importante para comemorar, melhor ainda. Mas não vejo motivo para esperar uma grande ocasião. Às vezes, tudo o que quero é um bom Champagne acompanhando um almoço de domingo.



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