Tarasa: um brasileiro em Salta e um Torrontés que merece atenção
Primeiro lançamento de Fernando Firmino fez bonito à mesa em um excelente almoço no Bistrot Charlô

Foi num almoço recente no Bistrot Charlô que conheci o Unicus Torrontés 2025, primeiro lançamento da Tarasa, projeto do catarinense Fernando Firmino em Salta, no norte da Argentina. Um branco muito bom, que ganhou ainda mais interesse acompanhado da comida de Fábio Guimarães, o Pinda.
O endereço também merece atenção: o Charlô fica no lindo Pulso Hotel, em Pinheiros, pertinho da Faria Lima, com arquitetura e interiores assinados pelo Studio Arthur Casas. O restaurante segue o nível de beleza o hotel, com luz natural durante o dia e uma combinação de madeira, cerâmica e tons de verde que deixa o salão elegante e acolhedor, daqueles em que dá vontade de prolongar o almoço (o que pretendo fazer muito em breve).
Comecei pelo steak tartare com mix de verdes, excelente, com o tempero valorizando a carne sem tomar conta do prato. O Torrontés funcionou muito bem aqui: seu frescor aliviava a sensação mais untuosa do tartare, enquanto os aromas do vinho acompanhavam o tempero sem encobrir o sabor da entrada.
Depois veio o arroz caldoso de polvo com pancetta defumada, um prato que merece bastante elogio. A combinação do polvo com o sabor mais intenso da pancetta, reunidos naquele arroz cheio de caldo, estava deliciosa e daria um bom motivo para voltar ao restaurante.

Foi também onde a harmonização ficou mais interessante. O vinho tinha presença para acompanhar a intensidade do prato, e sua acidez ajudava a equilibrar a gordura da pancetta, deixando a boca fresca entre uma garfada e outra.
A mousse de chocolate fechou o almoço no mesmo nível, deliciosa e sem precisar de grandes apresentações. Depois de duas ótimas etapas, uma sobremesa assim confirma o acerto da cozinha e deixa vontade de explorar mais o cardápio de Pinda.
A história do vinho servido naquele almoço começou bem longe de uma vinícola: Fernando construiu sua carreira na indústria de acabamentos para a construção civil e começou a se interessar por vinho ainda na faculdade de Direito. Foi aprendendo em degustações e viagens, até que, em 2013, depois de visitar a Itália, decidiu que queria produzir seus próprios rótulos.
A primeira ideia era trabalhar na Serra Catarinense, mas um amigo argentino lhe apresentou um Torrontés de Salta e mudou o rumo dos planos. Anos depois, ao conhecer os Valles Calchaquíes, encontrou nas montanhas, no clima seco e na diferença de temperatura entre dias e noites o lugar onde queria desenvolver o projeto.
Entre essa escolha e a primeira garrafa, houve um longo período de estudos e aproximação com os produtores locais, numa região de famílias com gerações dedicadas ao vinho. A Tarasa tomou forma com a parceria do enólogo Álvaro Dávalos Rubio, que pertence à sétima geração de uma dessas famílias e trouxe ao projeto sua experiência e conhecimento da região.
O Unicus é o primeiro resultado a chegar ao mercado, abrindo caminho para outros rótulos, entre eles Malbec, Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc. A proposta é manter uma produção pequena, inferior a 20 mil garrafas por ano no conjunto da vinícola, com atenção individual a cada vinho.

O Torrontés ajuda a entender o entusiasmo de Fernando: tem perfume de flores, lembranças de lichia e notas cítricas, mas o que mais agrada é como tudo isso aparece ao beber. É seco, fresco e tem uma textura que preenche a boca, com sabor que continua depois do gole, sem ficar pesado.
Elaborado sem passagem por madeira, é um branco que merece ser provado com calma e, melhor ainda, acompanhado de comida. Naquele almoço, mostrou que consegue ir da delicadeza da carne crua a um arroz de sabor mais intenso sem desaparecer diante de nenhum dos dois.
O preço salgado, porém, traz um desafio: a R$ 595, o Unicus pede ao consumidor um investimento pouco habitual para um Torrontés no Brasil. A produção de apenas 3.998 garrafas numeradas e a escolha de trabalhar em Salta ajudam a contextualizar a proposta, mas conquistar espaço nessa faixa exige mostrar por que vale olhar para essa uva com outra expectativa.
Na taça, a estreia dá bons motivos para isso e merece a atenção de quem gosta de descobrir vinhos. Fernando está de parabéns por levar adiante seu projeto em Salta, e que os próximos lançamentos encontrem o mesmo acerto deste primeiro branco.
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