Mercado da Lapa completa 72 anos fiel à origem de comércio popular
O Mercado da Lapa abriu as portas no mesmo ano em que São Paulo festejava o IV Centenário e exatamente no mesmo dia em que Getúlio Vargas morreu. Não houve fogos de artifício no dia 24 de agosto de 1954. Mas a data marca a estreia de um dos mercados municipais mais simbólicos da cidade. O formato triangular da fachada do prédio foi ideia do arquiteto José Vicente Vicari. Já nasceu como ícone arquitetônico. Um mercado moderníssimo para a época e que, graças ao tombamento pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, em 2009, não ficou com cara de shopping e nem foi derrubado para dar lugar a mais um prédio ordinário na cidade.

Mas é porta adentro que a magia acontece. O Mercado da Lapa é um lugar de pessoas. De negócios que atravessam gerações sem permanecerem aprisionados no tempo. É um lugar diverso. Vizinho de uma estação de trem e de um terminal de ônibus. Um mercado popular no melhor sentido. Sem frescura, com bons preços e atendimento amistoso. Um lugar para dar uma passadinha todo dia, ou uma vez na semana que seja.
Ninguém sai de lá carregado de compras. É um lugar de descobertas. De eleger produtos favoritos. Seja um peixe que você ainda não experimentou ou um maço de ervas para um banho feito sob medida para a demanda do dia. Quer fazer uma feijoada? O Seu Reinaldo, em frente à banca de temperos da Solange, é especialista no assunto. Precisa de ovos caipiras fresquinhos? Seu Raimundo pode resolver isso e ainda te ofertar um sorrisão de brinde.
Especialidades do Norte

O Mercado da Lapa é conhecido por concentrar, no mesmo lugar, um sortimento de respeito de produtos típicos do Norte e do Nordeste do nosso País. Requeijão de corte, camarão seco, flocão de milho, tapioca, bolachinha Maragogi (bem sequinha e oca por dentro, ótima pra fazer mingau), manteiga de garrafa, Guaraná Jesus, linguiça de bode, rapadura em bloco, doce de leite sertanejo, tucupi, jambu. Só para citar os mais procurados nas bancas especializadas.
É um bom lugar para fazer a “feira” da semana. As bancas de carnes e aves têm de tudo um pouco, a preços geralmente mais amistosos que os do supermercado. Há bancas especializadas em carne de porco; que oferecem, inclusive, partes do animal que não são tão fáceis de achar por aí.

O setor de peixes também reserva surpresas. Caranguejos vivos, “importados” de Cananéia, no litoral Sul de São Paulo, figuram entre as iguarias mais peculiares ofertadas à freguesia. Alexandre Sun, comerciante de peixes, começou a trabalhar na banca da família aos 14 anos. Ele conta, com a expertise de quem passou praticamente metade da vida atendendo pessoas e ouvindo histórias, que a relação com os clientes é a melhor parte do trabalho: “Gosto de conversar, de vender meu peixe, como o pessoal fala”. Entre os momentos inesquecíveis, destaca o dia em que um produtor de TV levou praticamente todos os peixes disponíveis para montar um balcão de peixaria no set de gravação de uma novela.
Para variar no cardápio

No extremo oposto de outros mercados municipais que viraram pontos turísticos na cidade, como o Mercado de Pinheiros e o Mercado Municipal de São Paulo, no Centro, o da Lapa resiste com um polo de compras raiz. Por ali não se vê selfie, nem cliente ludibriado pela lábia alheia. Pelo contrário, os comerciantes fazem questão de valorizar o serviço prestado ao freguês.

Idalina da Conceição Coelho, comerciante de bacalhau, com 35 anos de negócio estabelecido, confirma a preferência. “Aqui o cliente vira nosso amigo, sabe?”, conta. “Gosto de olhar no olho, porque não é simplesmente vender, é perceber o quanto a gente pode ajudar na compra”.
Duro é dar uma voltinha pelos corredores arejados, com saídas para as quatro ruas que formam o quarteirão ocupado pelo mercado, sem descobrir algo que você nem sabia que precisava.

Dá para escolher frutas, verduras e legumes frescos em umas das quatro bancas dedicadas ao produto. Tem queijo de tudo quanto é tipo. Seu Sidnei (Pacheco da Silva), trabalha há 30 anos no mercado e há quatro se dedica aos laticínios. Ao apontar para um bloco em formato retangular em um tom de amarelo vibrante, ele resume a variedade de produtos: “Esse queijo é feito de manteiga, mas ele tem três nomes diferentes: queijo do Norte, requeijão baiano e queijo manteiga; tem três nomes, mas é tudo uma coisa só”, diverte-se.

Percorrendo o circuito de 96 boxes, encontra-se de vassoura e galão de cinco litros de amaciante a velas coloridas para todos os santos, incenso e ingredientes para fazer a própria granola em casa. Doces cristalizados em todas as formas e sabores que você pode imaginar, também tem. Quer fazer um bolo de aniversário? Algumas bancas vendem de latas de leite condensado de um quilo a confeitos doces e babados de papel para enfeitar a bandeja. Sacão de um metro de altura com salgadinhos de tudo quanto é tipo e a banca que vende pé de moleque, maria-mole na casquinha de sorvete e balas a granel, sim, temos!

João Aurélio dá expediente há 12 anos no box de ervas Asé. Receita banhos de cheiro de acordo com a necessidade do freguês. Entrega, além do maço verde amarrado com capricho, palavras de incentivo. “A comunicação é o que faz do mercado um centro vivo de convivência”, conta. Ele explica que muito do conhecimento que tem é enriquecido pela clientela mais experiente. Senhores e senhorinhas que passam pela sua banca e transmitem lições ancestrais: “A gente recebe, repassa as informações e tudo flui”.

A comerciante Solange Batista Costa faz coro com o colega. Ela vende especiarias, todas que você imaginar, em uma das bancas mais disputadas do mercado. “Tem gente que vem passear, contar história, volta várias vezes durante a semana”, revela. “Aqui consigo avisar a cliente sobre um produto que ela gosta e que acabou de chegar ou tirar dúvidas sobre o preparo de um prato.
Um mundo de gente
Transitam pelo mercado cerca de 5 mil pessoas todos os dias, como informa a presidente da Associação dos Comerciantes do Mercado da Lapa, Daniele Malvassoura, que também administra um box de utensílios de cozinha com o marido Carlos Eduardo. Tirando o sábado, dia de maior movimento, é difícil encontrar algum tipo de aglomeração por ali. Durante a semana, dá para fazer compras com tranquilidade e ainda provar uma coxinha, tomar um café com bolo ou encarar um sanduíche de calabresa na hora do lanche.

A gourmetização passa longe. Alimento é tratado com requinte de antigamente: boa qualidade e preço honesto. Um bom exemplo é o cafe em grão vendido a granel em algumas bancas. Também pode ser moído na hora, como faziam há muitos e muitos anos as feiras livres e os supermercados de bairro. Um mercado que atende com a mesma gentileza o cliente em busca de meio quilo de sardinha quanto o que pede para embrulhar um salmão inteiro.

“O mercado, para mim, é uma escola de vida; vim do Nordeste, cheguei aqui e não tinha nem o que vestir ou o que comer, pulei do ônibus direto para o Mercado”, conta Raimundo Albuquerque Filho, comerciante de ovos, há 42 anos no Mercado da Lapa. “Estou aqui a vida toda, consegui criar meus filhos, me estabilizar, gosto do que faço, não tenho do que reclamar”.
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