Dia do Cerrado: descubra o que esse bioma põe à mesa

Segundo maior bioma brasileiro em extensão, atrás apenas da Amazônia, o Cerrado ocupa boa parte do Planalto Central e se espalha por estados como Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, chegando até ao interior de São Paulo, além de alcançar pequenas áreas de outros países sul-americanos. É uma paisagem de aparência muitas vezes árida, marcada por períodos de seca e fogo, mas que guarda uma das maiores diversidades de fauna e flora do planeta.

Essa riqueza também se apresenta à mesa. Pequi, baru e gueroba (ou guariroba) são alguns dos ingredientes mais conhecidos dessa cozinha, mas não para por aí. Baunilha-do-cerrado, pimenta-de-macaco, cagaita, murici, mangaba, buriti, jatobá e uma infinidade de frutos e plantas também são parte desse repertório.

Cerrado: a potência que vem da aridez

A castanha do baru é um dos ingredientes mais emblemáticos do bioma
A castanha do baru é um dos ingredientes mais emblemáticos do bioma

O Cerrado é marcado por sabores intensos, aromas pronunciados, acidez, notas terrosas, resinosas e amargor. Essas são características que pedem cuidado ao cozinheiro.

“Em geral, são ingredientes muito marcantes, mas eles não precisam necessariamente dominar o prato. Acho que estamos descobrindo novas maneiras de trabalhar esses produtos de forma mais leve, procurando suas nuances e fazendo com que componham o prato”, diz Gil Guimarães, chef da Baco, em Brasília, e um dos nomes que trabalham para valorizar a culinária da região.

Ele adiciona: “o interessante é pegar toda essa intensidade e trabalhar com mais sutileza”. O pequi, por exemplo, tem forte presença de umami e, “quando usado com temperança, permite construir sabores diferentes daqueles aos quais normalmente associamos a ele”. A pimenta-de-macaco, por sua vez, é bastante aromática. Já o baru traz uma nota tostada, próxima à de oleaginosas.

Do arroz com pequi às novas leituras

O arroz com pequi é um prato típico da região
O arroz com pequi é um prato típico da região

Falar de pratos do Cerrado é falar também da comida tradicional do interior. “É uma cozinha muito ligada ao porco, frango, milho, às farinhas e aos produtos locais”, explica Guimarães. É desse repertório que vêm preparações como a galinhada com pequi e as paçocas feitas com baru e farinha, mas os ingredientes não precisam ficar presos à tradição.

Eles podem ser reinventados de acordo com gosto popular e com base em referências externas, como é o caso da barutela, o creme de baru com chocolate considerado a “Nutella brasileira”, um exemplo claro de como como a multiplicidade do bioma pode ajudar a explorar diferentes funções para um mesmo produto.

É nisso que acredita Alberto Nascimento, ex-aluno do Gastronomia Periférica e hoje líder de cozinha do restaurante-escola Via Satélite. Na sua cozinha, o pequi aparece como emulsão, a mangaba compõe o vinagrete, o buriti tem molho e também é usado em uma sobremesa. Gueroba, abóbora e sementes também ocupam sua despensa.

“A proposta é que cada preparo revele uma faceta diferente do bioma: aromas, sabores, texturas e possibilidades de transformação”, defende.

Com o que combinar os ingredientes do Cerrado?

A gueroba (ou guariroba) é outro ingrediente emblemático do bioma
A gueroba (ou guariroba) é outro ingrediente emblemático do bioma

A intensidade é justamente o que torna esses produtos interessantes, mas também exige equilíbrio. Algumas combinações sugeridas por Alberto Nascimento são:

  • Pequi com gueroba e galinha caipira: a intensidade aromática e a característica bastante gordurosa do pequi encontram sabores mais suaves na gueroba e na galinha. Por isso, o chef prefere usá-lo em emulsão, em vez de deixá-lo dominar o prato.
  • Mangaba com abóbora e folhas: a acidez e o aroma frutado da mangaba equilibram a doçura e a textura cremosa da abóbora. Folhas e sementes acrescentam frescor e crocância.
  • Buriti com carne suína: as notas frutadas e adocicadas do buriti fazem contraponto à gordura e à intensidade do porco. No restaurante, a combinação aparece em um molho servido com pernil.
  • Buriti com coco: na sobremesa, o creme à base de coco oferece gordura e dulçor, enquanto o buriti acrescenta uma identidade frutada e regional, criando contraste e complexidade.
  • Pequi com mandioquinha e cogumelos: no arroz cremoso, a mandioquinha traz cremosidade e sabor mais neutro. O pequi entra como elemento aromático e de personalidade, enquanto os cogumelos reforçam seu umami, criando uma preparação vegetariana mais complexa.

Cerrado e Mata Atlântica: por que não?

“O Cerrado é justamente um bioma de encontro e de transição. Na cozinha, gosto muito dessa mistura entre territórios”, afirma Guimarães. Para Nascimento, os dois biomas oferecem características sensoriais diferentes, mas complementares.

De um lado, o Cerrado traz ingredientes marcantes, terrosos, ácidos e aromáticos, como pequi, baru, mangaba e buriti. De outro, a Mata Atlântica oferece frutas e plantas de acidez e frescor pronunciados, além de aromas florais e herbáceos, entre elas juçara, cambuci, pitanga, araçá, banana, palmito e diferentes folhas. É justamente nesse encontro que a cozinha contemporânea pode encontrar novas possibilidades.

Onde provar o Cerrado em São Paulo?

E os sabores do Cerrado não se encerram no próprio território. Guimarães conta que, cada vez mais, eles podem surgir em pratos contemporâneos sem que o resultado seja necessariamente identificado como “comida do Cerrado”.

“Hoje tenho visto produtos do Cerrado aparecendo em vários restaurantes de São Paulo. É interessante perceber como esses ingredientes estão entrando naturalmente no repertório dos cozinheiros.”

A seguir, alguns endereços para experimentar esses sabores na capital paulista.

Cerrado em Pé

Geleias com frutas típicas do Cerrado são produtos de destaque do Cerrado em Pé
Geleias com frutas típicas do Cerrado são produtos de destaque do Cerrado em Pé

Com entregas para todo o Brasil, a loja sul-mato-grossense especializada em produtos do Cerrado e do Pantanal é uma opção para quem quer explorar esses sabores em casa.

Entre os produtos estão geleias de mangaba, guavira, bocaiúva e pequi (R$ 25 cada), biscoitos (R$ 15), farinha de jatobá (R$ 45), cachaça (R$ 25), especiaria de guavira (R$ 12) - cujo papel na culinária lembra o de uma noz-moscada - e castanha de baru torrada (R$ 12).

Onde é: Envio para todo o Brasil, pelo site oficial | @cerrado.em.pe

Tordesilhas

Creme anglaise de pequi do Tordesilhas
Creme anglaise de pequi do Tordesilhas

Na cozinha de Mara Salles, Personalidade da Gastronomia pelo Prêmio Paladar 2026, o Cerrado aparece em três preparações.

Para compartilhar, o bolinho errado com aïoli de pequi (R$ 62) combina bolinho de mandioca empanado e frito, recheado com queijo artesanal, ao molho de pequi. No tortelli de carne-de-sol, a proteína vem de Pirenópolis (GO). Para terminar, o crème anglaise de pequi (R$ 43) chega com compota de maracujá e suspiros de jatobá — outra espécie nativa do Cerrado.

Onde é: Alameda Tietê, 489 - Jardins | @tordesilhas

Frutos de Goiás

Pequi e outros frutos do Cerrado dão sabor a sorvetes diversos
Pequi e outros frutos do Cerrado dão sabor a sorvetes diversos

Nascida em Goiás e dedicada aos sabores do Cerrado, a sorveteria transforma frutos tradicionais da região em picolés e sorvetes de massa. No cardápio, aparecem sabores como araticum, buriti, mangaba, murici, pequi, cagaita e cajuzinho-do-cerrado.

Onde é: R. Itapura, 1532 - Tatuapé, Av. do Café, 480 - Vila Guarani, R. Caraíbas, 94 - Perdizes e outros endereços | @frutosdegoias

SubAstor

Cerrado, do SubAstor, traz referências do bioma para o copo
Cerrado, do SubAstor, traz referências do bioma para o copo

No balcão do SubAstor, o Cerrado (R$ 62) é nome e essência de drinque. Amendoado, intenso e encorpado, o coquetel leva cold brew com Bourbon Rosa, tequila branca, mel de cacau, óleo de coco e bacuri - fruta abundante na região amazônica, mas também no Cerrado.

O chamado Pantanal (R$ 58) também traz referências que dialogam com o Cerrado, afinal, o bioma está circundado pelo Cerrado. O drinque que é leve, aromático e carregado em umami, contém pequi, água de tomate, champagne, awamori, saquê, camomila e pó de batata-doce.

Onde é: R. Delfina, 163 - Vila Madalena e Alameda Min. Rocha Azevedo, 72 - Bela Vista | @subastor



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