Cepa chega ao 4º lugar do Prêmio Paladar com uma cozinha que pede menos etiqueta

Há sete anos, Lucas Dante e Gabrielli Fleming apostaram que um restaurante autoral podia prescindir do circuito gastronômico tradicional. A aposta, hoje, já não precisa de mais provas: o Cepa colecionou fila, prêmio e, agora, a 4ª posição no ranking do Prêmio Paladar 2026 para restaurantes.

Lucas Dante e Gabrielli Fleming estão à frente do Cepa
Lucas Dante e Gabrielli Fleming estão à frente do Cepa

No Cepa, o pão não anuncia o prato — chega junto com ele, como se os dois dividissem a mesma importância na mesa. É nesse detalhe aparentemente pequeno que mora boa parte do raciocínio que fez o restaurante subir três posições no ranking deste ano. Porque no Cepa a comida não pede talher — pede mão, molho, gesto. E é justamente esse convite ao contato, essa recusa discreta da etiqueta, que transforma o jantar numa experiência mais generosa do que costuma ser um restaurante autoral de alta técnica.

Lucas Dante é dessas figuras que carregam um pequeno paradoxo como quem carrega uma bandeira: cozinheiro jovem, formado numa cozinha que se apoia em processos antigos — fermentação, cura, salga, defumação —, ele constrói praticamente tudo o que serve dentro da própria casa. Pães de fermentação natural, picles, conservas, embutidos: nada chega pronto, tudo nasce ali, num ritual quase artesanal que contrasta com a informalidade do salão. Ao lado dele está Gabrielli Fleming, sommelière e sócia, responsável por uma carta de vinhos que dialoga com a mesma lógica autoral da cozinha.

A trajetória do casal ajuda a entender por que o Cepa parece cada vez mais seguro do que quer ser. Nasceu em 2019 no Tatuapé, num endereço deliberadamente afastado dos polos gastronômicos consagrados de São Paulo — um gesto quase teimoso de dois cozinheiros que preferiam construir público a se instalar onde o público já estava. Deu certo em prestígio, mas não em fôlego financeiro: a casa só enchia nos fins de semana, e sustentar a operação virou um exercício de resistência. A mudança para a Praça dos Omaguás, em Pinheiros, em agosto de 2024, resolveu esse impasse de uma vez: desde a reabertura, o Cepa vive de fila, numa das esquinas mais charmosas do bairro, cercado por obras de jovens artistas brasileiros que dão ao ambiente um clima descontraído — quase o oposto da tensão que normalmente se associa a restaurantes desse calibre técnico.

É esse contraste, aliás, que talvez explique o salto no ranking: o Cepa consegue ser rigoroso sem parecer solene. O menu, sazonal e enxuto, muda conforme a disponibilidade dos ingredientes e organiza-se num esquema pensado para o compartilhamento — entradinhas, entradas para dividir (mas que também funcionam como porção individual, para quem prefere não repartir) e os pratos principais, mais robustos. É uma arquitetura de cardápio que favorece a mesa cheia, o “experimenta esse aqui”, o prato que passa de mão em mão antes de esvaziar.

Cepa está entre os 10 melhores do Prêmio Paladar
Cepa está entre os 10 melhores do Prêmio Paladar

Entre as entradas, dois pratos concentram o que há de mais interessante na cozinha de Lucas Dante — e não por acaso, os dois vêm acompanhados de pão, numa sugestão silenciosa de que ali o talher é dispensável. A língua de wagyu curada ganhou, na fase mais recente do cardápio, um molho de foie gras que a torna ainda mais untuosa — um prato de despedida, já que a receita deve sair do menu no fim do ano por conta da proibição do foie gras no Brasil, o que dá à experiência atual um quê de urgência gastronômica. A kafta bovina, com fromage blanc feito na casa, salada de ervas e caldo de pato e cordeiro, é outro ponto alto: o tipo de prato em que a técnica se disfarça de simplicidade, e que só se revela por completo quando se molha o pão no fundo do caldo.

O restante do cardápio segue a mesma lógica de pouco molho, muita técnica e nenhuma pressa em ser reconfortante — ainda que reconforte, à sua maneira, quem se entrega a ele sem resistência. O peixe do dia cru com alcachofra na brasa e wasabi fresco, a lula na brasa com molho de manteiga e caviar, o cogumelo eryngui com creme de couve-flor assada e ovo de gema mole: são pratos que conversam entre si, todos com aquela textura de coisa feita à mão, sem atalho. E para quem chega disposto a esperar — o Denver Black Angus, preparado apenas no ponto da casa, com tempo de preparo de até uma hora, funciona quase como um ritual à parte, que precisa ser encomendado com antecedência e recompensa quem tem paciência.

O Cepa talvez não seja, e nunca tenha pretendido ser, um restaurante para todos os paladares. Mas para quem se permite atravessar o cardápio de mãos sujas de molho, a experiência costuma deixar saudade — e, ao que tudo indica, também deixou boa impressão nos jurados do Prêmio Paladar.

Serviço

Cepa

Onde: Praça dos Omaguás, 110 - Pinheiros

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