Um colecionador, 749 edições e a memória de ‘Paladar’ em mãos: conheça a história

Falta um dia para o Paladar voltar a reunir os nomes que ajudam a contar a história da gastronomia paulistana. Nesta segunda-feira, 31 de agosto, o Prêmio Paladar chega a mais uma edição, com a divulgação dos 30 vencedores de 2026 — dez melhores restaurantes, dez melhores bares e dez personalidades da cena gastronômica. É também um momento de olhar para aquilo que o caderno vem construindo ao longo de sua história e que Cesar Adames atua como uma espécie de guardião.
Há 21 anos, Adames pode ser chamado de um grande colecionador do caderno de gastronomia do Estadão. Desde a primeira edição do Paladar, ele guardou cada exemplar do caderno publicado até 2020. Agora, essa história muda de mãos - mas não deixa de ser contada. Conheça a história de Cesar Adames que embala a contagem regressiva para o Prêmio Paladar.

No dia 22 de setembro de 2005, uma quinta-feira, Cesar Adames estava em uma aula de seu mestrado em hospitalidade, na Anhembi Morumbi, quando a professora avisou aos estudantes que, naquela data, o jornal que ela assinava, O Estado de S. Paulo, estava lançando um caderno semanal dedicado ao mundo da gastronomia.
Ao final da aula, Adames correu para a primeira banca de jornal que encontrou e comprou o Estadão – começava ali sua relação com o caderno Paladar.
A primeira edição foi impactante. A matéria de capa, “Pimenta não Arde”, falava sobre o sucesso da pimenta-biquinho e já trazia todas as características que marcariam o Paladar.

Além do título esperto (muitas vezes bem-humorado), o texto da repórter Lucinéia Nunes era afiado (misturando escrita criativa com rigor na apuração), a diagramação era arejada e moderna, e a página ainda trazia serviço, receitas (escalope de foie gras com pimenta-biquinho, por exemplo) e uma divertida disputa para saber quem era mais resistente à ardência da pimenta: um baiano ou um mexicano.
Essa mesma primeira edição ainda trazia uma matéria com o Boni (José Bonifácio de Oliveira Sobrinho). A reportagem, intitulada “Boni: o caçador de restaurantes”, apresentava um dos maiores diretores da TV brasileira falando sobre comida e seus restaurantes preferidos. Na segunda edição, ele voltaria falando de vinhos.
Depois de devorar o primeiro número do Paladar, Adames jamais perderia uma edição do caderno. “Quando eu estava viajando, pedia para alguém comprar para mim ou reservava na banca de jornal”, disse.
Quando acumulou aproximadamente 200 edições do Paladar, Adames teve a ideia de encadernar os exemplares – o que facilitaria a consulta e a preservação do material. No total, são sete volumes encadernados, que guardam da primeira edição do Paladar até a edição de número 749, publicada no dia 22 de janeiro de 2020 (essa foi a última edição em que o Paladar foi publicado como um caderno independente – a versão impressa passaria a integrar o caderno Sextou e, posteriormente, o Caderno 2).
“O Paladar sempre foi uma referência para quem é interessado na área. Sempre usei como material de consulta e estudo. Conheci muitos chefs e pessoas que estão aí até hoje nas páginas do caderno”, conta Adames – que é formado em administração hoteleira, especialista em lifestyle, palestrante e professor.
Adames destaca algumas capas que considera marcantes na trajetória do Paladar. Além da já citada matéria sobre a pimenta-biquinho, ele também gosta muito de “Assim Assado”, capa sobre frango assado, e de uma ousada e histórica capa sobre chuchu:
Como transformar um vegetal insípido, sem personalidade, coadjuvante da canja e da salada (e que, além disso, ainda tem cor de comida de hospital) em 20 receitas tão saborosas e tão deliciosas, que nem parecem feitas com um ingrediente sem graça, pouco apetitoso e quase irrelevante (cujo nome não tivemos coragem de escrever na capa do caderno)
Caderno Paladar
Entre diversas pérolas, a coleção ainda tem o primeiro teste (ranking) de ovos de Páscoa – publicado em abril de 2006, com a capa “Ovos Mexidos”. Nela, Ilan Kow, um dos principais criadores e editores do caderno Paladar, experimentou 65 ovos de Páscoa.

Além de colecionador, Adames também é parte da história do Paladar. Como consultor de bebidas, ele chegou a participar como palestrante de algumas edições do evento ‘Paladar Cozinha do Brasil’ – com destaque para a 7ª edição, quando falou sobre os licores brasileiros.
Agora, aos 62 anos, e como uma das referências no setor de bebidas e hospitalidade, Adames decidiu que havia chegado a hora de “repassar sua coleção para alguém que fosse tratá-la com carinho e usá-la para consultas e pesquisas aprofundadas”.
A partir do próximo mês, os sete volumes com todas as edições do Paladar (do período em que era um caderno independente) vão estar sob os cuidados da jornalista, curadora gastronômica e pesquisadora da cozinha brasileira, Luiza Fecarotta.

“Sou leitora fiel do Paladar desde o lançamento do caderno e tenho muita admiração por muitos dos profissionais que já passaram pela redação. Acompanhava religiosamente as críticas de Luiz Américo Camargo e as reportagens de Janaina Fidalgo, Cintia Bertolino e, mais tarde, de José Orenstein.”
“Quando soube que o Cesar Adames tinha a coleção completa, resolvi obtê-la, pois estou montando um curso de fôlego sobre jornalismo gastronômico e é fundamental aportar a contribuição do Paladar nessa caminhada. Faltavam insumos do Paladar para complementar esse material didático no qual estou trabalhando”, completou.
A coleção de Cesar Adames é, de certa forma, a materialização da memória da gastronomia contada pelo Paladar que segue ativa, em multiformatos e novas propostas. Nos últimos seis anos, novos formatos chegaram e permaneceram: a implementação do Paladar Testou - ferramenta que convoca um júri especializado que testa às cegas produtos do mercado -; criação de séries especiais sobre as personalidades da gastronomia, viagens para conhecer culinárias que expandem o eixo gastronômico.
Agora, nesta segunda-feira, 31 de agosto, Paladar escreve mais um capítulo dessa história. Desde o ano passado, o Prêmio Paladar que celebra a gastronomia voltou a ocorrer, após uma pausa saudosa sem novas edições. Em 2026, ao anunciar os novos 30 vencedores (os dez melhores restaurantes, os dez melhores bares e as dez personalidades que se destacaram na cena gastronômica) uma nova marca será feita nessa linha do tempo. Importante para o registro de Adames, de Fecarotta e para todos que acompanham e gostam de falar, viver e saborear a comida.
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