Dez anos de portas abertas: o que faz um restaurante sobreviver e permanecer uma década depois?

Uma década não é pouca coisa quando o assunto é a vida de um restaurante. Em São Paulo, há quem sobreviva 100 anos, há quem nem dure o primeiro. Só para pontuar os últimos 10 anos, a cena gastronômica enfrentou pandemia, crise do metanol e mudanças geracionais que impactaram o movimento, estilo e, claro, o jeito de fazer comida.

Conhecer de perto sete restaurantes que sobreviveram e chegam em 2026 ao décimo aniversário, portanto, é uma forma de Paladar tentar decifrar o que mantém uma casa em pé.

Uma certeza é que ‘cozinhar bem’ é apenas uma parte do negócio que mantém vivo um restaurante. Segundo estudo de 2024 da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), oito em cada dez casas fecham as portas com menos de dois anos de funcionamento. “A gastronomia envolve produtos, mas também hospitalidade, pessoas, processos, compras, equipamentos, legislação, segurança alimentar, atendimento, logística e, obviamente, resultado, lucro”, pontua Rodrigo Canto, coordenador acadêmico do Instituto Le Cordon Bleu-SP e professor do curso de Gastronomia da Universidade Anhembi Morumbi.

É justamente nisso que o gestor financeiro e consultor de restaurantes, Dany Simon, acredita estar uma das principais bases para a longevidade de um restaurante. Para ele, “comida boa é o básico”, mas atravessar uma década exige gestão financeira e planejamento.

Restaurantes longevos, segundo Simon, conseguem acompanhar números, analisar resultados, planejar e antecipar problemas, uma capacidade que é colocada à prova diante de desafios que surgem ao longo do caminho.

Ainda que importante, ‘adaptação’, para os dois especialistas, não significa abandonar aquilo que tornou uma casa reconhecível. “Uma casa longeva não é necessariamente aquela que faz a mesma coisa durante cinquenta anos. É aquela que consegue permanecer relevante durante cinquenta anos”, diz Canto. “A casa precisa saber o que não pode mudar, sua essência, sua identidade, aquilo que o cliente reconhece, e também o que precisa se transformar para continuar fazendo sentido.”

Ao achar o equilíbrio certo entre a mudança e a permanência, uma marca forte se constrói. Para Simon, “os restaurantes que chegam aos dez anos precisam se consolidar como marcas, com identidade clara e capacidade de não depender exclusivamente de tendências passageiras”.

Passam pela receita de longevidade do restaurante, ainda, o cuidado com a equipe, treinamento e respeito à comunidade e ao entorno. E, claro, se um menu bom, daqueles de salivar, não é o suficiente ele está longe de ser desnecessário na lista de sucesso. Além dos dois especialistas, Paladar ouviu os restaurantes que entraram para o grupo dos “10 anos ou mais”. A seguir, as receitas de sucesso das casas ouvidas.

Cozinha 212

Quando abriu as portas na Rua dos Pinheiros, em 2016, o Cozinha 212 apostava em uma combinação que ainda tinha pouco espaço na gastronomia paulistana: cozinha de produto, fogo e pratos para compartilhar. Peixes e frutos do mar iam para a brasa - até então, muito mais associada à carne vermelha - e a mesa era pensada para provar de tudo um pouco.

Stefan Weitbrecht e Victor Collor se conheceram na faculdade e, juntos, começaram a promover eventos gastronômicos em torno do fogo, experiência que ganhou forma em um pop-up em São Miguel dos Milagres. De volta a São Paulo, encontraram no ponto de Leonardo Ventre, que se tornou o terceiro sócio, o lugar para materializar a ideia em restaurante.

O polvo é um clássico desde o primeiro dia
O polvo é um clássico desde o primeiro dia

Dez anos depois, a essência permanece. O polvo segue como símbolo da casa e os peixes continuam revezando guarnições, mas a relação com o ingrediente mudou. Entre 2017 e 2018, Stefan recuperou o sítio do tio e criou ali uma horta, que virou o projeto Mato 212. “Nossa matemática mudou: não saio da cozinha com uma receita e vou atrás de ingredientes. Vejo o que tem disponível e produzimos algo em cima disso.”

A sazonalidade passou a determinar ainda mais os rumos da cozinha. Enquanto isso, o crescente interesse por uma alimentação de bases vegetais levou Stefan a ampliar esse protagonismo. O bolo de manjericão (R$ 38), com a folha na massa e no toffee e mascarpone no recheio, nasceu justamente desse movimento.

A partir da horta, uma das sobremesas mais icônicas da casa foi construída
A partir da horta, uma das sobremesas mais icônicas da casa foi construída

Na pandemia, a relação mais íntima com o insumo se estreitou. Com o restaurante fechado, a horta virou fonte de renda por meio de cestas de orgânicos, enquanto passou a fazer pão e a se relacionar com os clientes de uma forma diferente, por meio do ingrediente. Quando os restaurantes voltaram a funcionar, o comportamento do público havia mudado, assim como os horários de consumo.

O Cozinha 212, que sempre teve uma operação noturna e tardia, ainda fecha à uma da manhã, mas o giro de mesas das 23h, antes corriqueiro, deixou de ser tão frequente. Ao mesmo tempo, Pinheiros se transformou. O bairro ganhou prédios, novos negócios e visitantes, enquanto parte dos antigos moradores foi embora. O restaurante passou a atender uma mistura maior de públicos e a fazer parte de um bairro menos residencial e mais dinâmico.

A cozinha acompanha os gostos, mas sempre respeitando o tempo do ingrediente. A berinjela (R$ 36), disponível ao longo do ano, mantém-se em cada menu sazonal, sempre com uma carinha diferente - desta vez, vem com coalhada de ovelha e amêndoas. O magret de pato (R$ 124), incorporado depois da pandemia, virou pedida permanente. A torta de ossobuco (R$ 68), antes sazonal, agora é exigência constante da clientela, assim como a alface romana na grelha (R$ 48), com salsa de aliche e queijo Tulha.

O sazonal ossobuco, agora figura entre os pratos principais o ano todo
O sazonal ossobuco, agora figura entre os pratos principais o ano todo

Neste inverno, a canela de cordeiro voltou, inspirada na versão servida na abertura, mas agora com radicchio, grão-de-bico e seu próprio jus - uma maneira de colocar carne no menu sem se render às obviedades do churrasco tradicional. A demanda por porções menores é outra mudança observada por Stefan. Hoje, o cardápio inclui uma seção especial para “bocadas”, voltada para quem quer provar a essência do Cozinha sem necessariamente fazer uma refeição completa.

Porções menores foram demanda da clientela
Porções menores foram demanda da clientela

Para marcar os dez anos, até as louças antigas voltaram à mesa. “Eu achei muitas coisas, como cestas de palha que usamos lá no Nordeste, naquele evento que deu início a tudo isso. Decidimos pegar louças que usamos lá atrás para apresentar o menu dos dez anos”, conta.

Para o futuro, o chef deseja que as pessoas sigam acreditando no básico bem feito, no ingrediente de procedência e em uma comida confortável, sem excesso de técnica, mas também sem abrir mão dela.

Onde é: Rua dos Pinheiros, 174, Pinheiros. Terça a sexta das 19h às 01h; sábado das 13h às 16h e das 19h às 01h | @cozinha212

Esther Rooftop

No rooftop com vista para a Praça da República, tudo começou a partir de uma parceria entre grandes chefs: amigos em comum de Olivier Anquier e Mathurin elogiavam um para o outro, foi assim que entraram em contato, com Anquier no Brasil e Benoit ainda na França. Após anos conversando, Mathurin decidiu visitar São Paulo pela primeira vez. Foi a restaurantes paulistanos, encantou-se com o Ema, de Renata Vanzetto, e acabou encontrando no Brasil o lugar para construir sua casa. Ainda não falava português, mas mudou-se para a capital paulista e deu vida ao Esther Rooftop, em parceria com Olivier e Pierre Anquier.

Uma década depois, pouca coisa permanece exatamente como era. Pierre deixou a sociedade, Olivier seguiu outros caminhos e Mathurin passou a liderar o barco sozinho. Mas foram as transformações do Centro de São Paulo e, sobretudo, a pandemia, que mais obrigaram o restaurante a se reinventar.

O chef Benoit Mathurin mantém a casa de pé há dez anos com comida boa e mantendo o compasso com um Centro em constante movimento
O chef Benoit Mathurin mantém a casa de pé há dez anos com comida boa e mantendo o compasso com um Centro em constante movimento

“Não são dez anos clássicos, foram muitos desafios. Ver seu restaurante parando de um dia para o outro por causa da pandemia foi assustador”, resume Mathurin. Durante o lockdown, uma luta que o levou a transformar parte do estoque em um pequeno empório de vinhos, queijos e charcutaria, além de criar um delivery.

O vendaval passou, mas o problema virou outro: “o Esther havia perdido o efeito novidade há tempos, inserido em um Centro com dificuldades e ainda carregava a imagem de ser um restaurante francês, caro e pretensioso”. Era preciso mudar e, principalmente, ampliar o público.

Para tanto, colocou DJ de sábado à noite, um chorinho no almoço e manteve o jazz de quinta. A casa lotou. A maior aproximação com a cena cultural do Centro o levou a apresentar exposições de fotografia, pintura e escultura, além de trabalhar com artistas e grafiteiros. “Focamos tanto, na abertura, em agradar um público dos Jardins e do Itaim para que eles viessem ao Centro, que esquecemos das pessoas que já estavam aqui”, diz.

Agora, vê um Centro que não necessariamente voltou a como era antes, mas que abre mais portas do que fecha. “Melhorou bastante, temos novos nomes, como o Le Freak, uma Galeria Metrópole bombando, pessoas visitando pontos turísticos como o Farol Santander. No Esther, tudo isso se mistura. Nas mesas, tem turistas, empresários, idosos, jovens, etc.”

Quanto aos sabores do Esther, Mathurin aprendeu uma particularidade do público brasileiro: “os clientes querem comer um prato hoje e, dez anos depois, ter a mesma sensação. Isso não é comum na França”. Hoje, os pratos são os mesmos em essência, apenas reajustados e reinventados.

A bochecha (R$ 188) é um clássico da casa e nunca sai do cardápio. Atualmente, leva molho rôti de mel e alecrim, cuscuz e é acompanhada por cenouras caramelizadas
A bochecha (R$ 188) é um clássico da casa e nunca sai do cardápio. Atualmente, leva molho rôti de mel e alecrim, cuscuz e é acompanhada por cenouras caramelizadas

É o caso da antiga bruschetta de cogumelos, transformada em uma massa de croissant recheada com creme de cebola e cogumelos refogados em vinho branco e alho, banhada por molho rôti, pesto de salsinha e lascas de parmesão (R$ 78). O bombom de alcatra, que nunca deixou o menu, passou por diferentes versões e atualmente aparece com molho de vinho tinto, bacon, cogumelos, batatas ao murro e cebola caramelizada (R$ 125). O arroz de pato caldoso (R$ 129), com coração de pato grelhado, farofa crocante, gema curada e picles de cebola, virou um dos “clássicos do Esther”.

Até os vinhos contam essa história de transformação. Se no início a carta era fortemente europeia, o interesse crescente pelos rótulos brasileiros levou Mathurin a se voltar para pequenos produtores nacionais. Hoje, define sua seleção como uma espécie de “carta internacional brasileira”: uvas e estilos associados à Europa, mas produzidos no Brasil.

Arte, vinho, qualidade da cozinha e dinamicidade são pilares da casa no topo do Edifício Esther
Arte, vinho, qualidade da cozinha e dinamicidade são pilares da casa no topo do Edifício Esther

No Esther, a sobrevivência passou por entender que uma casa longeva não é necessariamente aquela que permanece igual, mas a que consegue preservar sua identidade ao encontrar novas razões para continuar relevante.

Onde é: R. Basílio da Gama, 29 - Conjunto 1101 - República | Segunda a quinta, das 12h às 15h e das 18h às 23h; sexta das 12h às 15h e das 18h às 00h; sábado das 12h às 00h; domingo das 12h às 17h | @estherrooftop

Guilhotina

O nome veio quando os sócios perceberam que as vigas que sustentam o telhado da casinha em Pinheiros pareciam uma guilhotina à la Maria Antonieta, mas ganhou outro sentido: “guilhotinar os seus problemas lá fora e viver um momento bacana aqui dentro”, diz Marcello Nazareth. Dez anos depois, acredita que essa identidade continua reconhecível. “Até hoje, quando as pessoas entram aqui, elas sabem exatamente onde estão, porque tem alma.”

Marcello Nazareth, um dos sócios da casa, afirma que foram dez anos de muitos desafios, mas também de muitas conquistas
Marcello Nazareth, um dos sócios da casa, afirma que foram dez anos de muitos desafios, mas também de muitas conquistas

E esse espírito se manteve, mesmo após uma década marcada por acontecimentos que fugiram completamente do roteiro. “Dez anos para um bar em SP não é pouca coisa, é muita história, não só interna. Tivemos pandemia, crise do metanol, foram algumas Copas do Mundo e eleições.” A pandemia foi um duro golpe. O Guilhotina acabara de entrar na lista dos 50 melhores bares do mundo e esperava colher os frutos do reconhecimento quando precisou fechar as portas. “A pandemia foi algo de outro mundo, com todo o reconhecimento na mão, não pudemos mais abrir. Daí, de repente podíamos, mas só até 17h, depois 21h e assim foi.”

Quando isso chegou ao fim, o bar voltou, mas encontrou um público em transformação. Para Nazareth, a pandemia alterou temporariamente os hábitos de consumo, que depois retomaram seu curso, mas mudanças geracionais e a crise do metanol trouxeram novas discussões sobre a maneira de beber. Para ele, os casos de intoxicação ligados a bebidas adulteradas em 2025 também colocaram o consumo responsável no centro da discussão, “foi sobre as pessoas beberem melhor”. Quanto à geração, acredita que ainda tem chão pela frente, afinal, enquanto alguns falam que os jovens bebem cada vez menos, já vem outra parcela que parece beber ainda mais.

O chá do Naza está presente desde o início do bar, mas agora ganha novos contornos em sua homenagem
O chá do Naza está presente desde o início do bar, mas agora ganha novos contornos em sua homenagem

A própria coquetelaria também amadureceu. “Nesses dez anos, acredito que o Guilhotina ajudou a desmistificar a alta coquetelaria, hoje as pessoas estão mais acostumadas a terem coquetéis mais diversificados.” Para Nazareth, caiu uma barreira importante: o medo de perguntar, experimentar e não conhecer. Agora, o movimento aponta para outras direções. Ele percebe uma busca maior por drinques com menos álcool, o chamado low-alcohol, além da presença crescente do uísque em coquetéis mais frescos. Também vê um público mais à vontade para reproduzir a coquetelaria em casa. Assim, “as pessoas vêm para o mundo da coquetelaria mais acostumadas do que antigamente”.

Na nova carta, é possível entender as muitas mudanças do meio. Criada pela bartender Estella Moraes, é uma espécie de narrativa dos dez anos do bar. O passado revisita receitas das primeiras cartas, com uma coquetelaria mais leve, tropical e brasileira. O Chá do Naza (R$ 58), por exemplo, mantém o mate do original, mas ganha uísque, xarope de manga e limão. O presente recupera criações dos últimos dois anos, como o House Spritz (R$ 72), com gim, lillet, jerez, soda de hibisco e morango, e o Kentucky Blossom (R$ 75), de uísque, xarope de morango, limão, Disaronno, bitter e espumante. Já o futuro parte de clássicos reestruturados à maneira do Guilhotina, como o Fogo Cruzado (R$ 78), com a base do Old Fashioned, mas incrementado com tequila e la-yu (óleo japonês de gergelim e pimenta), e o Entre Trópicos (R$ 78), releitura clarificada da Piña Colada.

O Fogo Cruzado brinca com um Old Fashioned, mas tem toques autorais
O Fogo Cruzado brinca com um Old Fashioned, mas tem toques autorais

Os drinques sem álcool também ganham espaço, acompanhando uma tendência de consumo mais consciente. O Café da Tarde (R$ 36), com água de coco, abacaxi, xarope de especiarias e cold brew de café especial, é um dos destaques. A mudança, porém, não significa abandonar o que sempre funcionou. “Batata frita com dry martini sempre é muito pedido. Outras coisas que não mudam são os clássicos, que flutuam em uma certa constante.” E, acima de tudo, permanece a razão pela qual o bar existe: “a bebida tem a ver com socialização - e a necessidade do encontro é algo que nunca mudou”.

Onde é: R. Costa Carvalho, 84 - Pinheiros | Terça a sábado das 18h às 01h | @guilhotinabar

JoJo Ramen

Quando o JoJo Ramen abriu as portas, o ramen ainda ocupava um espaço bastante restrito na gastronomia paulistana. Fora da Liberdade, eram poucos os endereços dedicados ao prato, e o público que chegou primeiro à casa tinha uma relação próxima com a comunidade japonesa. “Na época era uma coisa muito nichada”, lembra Simone Xirata, uma das proprietárias da casa. Aos poucos, porém, a presença desse público ajudou a dar credibilidade ao restaurante e atraiu novos clientes, ampliando o alcance de uma gastronomia que, ao longo da década, alcançou novos patamares.

No entanto, a história do JoJo começa muito antes de 2016. Depois de conhecer diferentes tipos de ramen no Japão, Simone voltou ao Brasil em busca de um sabor que encontrasse o mesmo nível de precisão que havia provado na viagem. Decidida a preparar um ramen verdadeiramente japonês em solo brasileiro, abriu o JoJo. Para isso, trouxe o ramen master japonês Takeshi Koitani, mas o cardápio não nasceu como uma simples reprodução da cozinha japonesa: foi construído a partir da técnica do chef-referência e dos ingredientes disponíveis no Brasil.

Ramen do restaurante JoJo Ramen
Ramen do restaurante JoJo Ramen

Foram buscas longas por ingredientes que, há dez anos, ainda eram difíceis de encontrar em solo brasileiro. Carnes com padronizações específicas e shoyu de fermentação natural, por exemplo, foram exigências feitas pelo mestre que levaram muito tempo para serem encontradas. “Ele me passou uma lista de ingredientes, toda uma especificação para mim. Aí eu fui começar a pesquisar aqui no Brasil e tive dificuldade de encontrar na época”, lembra Xirata. Apesar dos pesares, as exigências de Koitani fizeram com que o JoJo ganhasse cada vez mais reconhecimento, além da dificuldade de ter aberto portas para testar diferentes produtos.

Dentro da trajetória, um dos principais momentos foi a entrada de Yasmin Yonashiro para a equação. Inicialmente consultora e, depois, sócia, Yasmin trouxe para o restaurante um olhar a mais sobre o serviço e hospitalidade, e também uma nova relação do JoJo com o saquê, ampliando a experiência para além do ramen e ajudando a construir uma identidade que se comunica diretamente com o cliente.

Simone Xirata e Yasmin Yonashiro
Simone Xirata e Yasmin Yonashiro

Ao longo da década, o JoJo se expandiu e hoje tem quatro unidades. Enquanto a casa original mantinha no cardápio a maioria das referências gastronômicas em que nasceu, as outras exploram diferentes culinárias japonesas. A expansão também foi marcada pelo desafio da pandemia, mas contou com uma aposta criada um mês antes do lockdown: o sistema de delivery. Depois de uma década, Simone e Yasmin resumem a longevidade da casa em três pilares: comida de qualidade, hospitalidade e uma relação justa entre preço e experiência. Por trás deles, há ainda um propósito maior: “transmitir cultura através da comida, gastronomia e bebidas”.

Onde é: Rua Doutor Rafael de Barros, 262 - Paraíso | Segunda a quinta, das 11h30 às 14h30 e das 18h às 22h; sexta e sábado, das 11h30 às 15h e das 18h às 22h | @jojo_ramen

Komah

Antes de se tornar um dos endereços de culinária coreana mais conhecidos de São Paulo, o Komah começou de forma tímida na Barra Funda. Criado por Paulo Shin, que buscava retornar ao trabalho em cozinhas profissionais, e pelo sócio Alessandro Papi, o restaurante nasceu em frente à loja de sapatos de sua família e, nos primeiros anos, funcionava apenas à noite. Aos poucos, porém, a notícia de um restaurante coreano que fazia “um trabalho diferente” no bairro começou a se espalhar.

De lá para cá, muita coisa mudou. O Komah cresceu, passou pela pandemia, expandiu para outros formatos e voltou a concentrar sua operação na casa da Barra Funda. Mas, em meio a tantas transformações, uma característica permaneceu praticamente intacta: o cardápio. “A única coisa que não mudou desde que o Komah abriu”, diz Daniel Park, atual chef da casa que assumiu o posto em 2022. Para ele, manter os pratos que ajudaram o restaurante a crescer faz parte da essência do estabelecimento. “Depois de dez anos, talvez isso seja a nossa fortaleza também.”

Os principais pratos vendidos na casa são o banchan set, yukhoe, samgiopsal, kimchi e jangjorim
Os principais pratos vendidos na casa são o banchan set, yukhoe, samgiopsal, kimchi e jangjorim

Foi nesse equilíbrio entre preservar a identidade da casa e abrir espaço para novas ideias que Park ganhou um papel cada vez mais importante no Komah. Desde que entrou no restaurante, em 2018, o chef passou a propor novas ideias para o dia a dia da operação e, ao assumir de vez a cozinha, introduziu suas criações próprias, como o cardápio de sobremesas, que chegou até a ganhar endereço próprio na Vila Madalena, mas que retornou ao endereço original na Barra Funda este ano.

Para Daniel, entender a operação inteira do restaurante ao longo dos anos foi o principal ponto para conseguirem comemorar uma década. O amadurecimento, segundo o chef, foi uma das principais transformações do Komah como empresa, tanto internamente, com processos e uma visão mais clara da operação, quanto externamente, na relação construída com o público. “Depois de uma década, a direção que você quer tomar para a empresa - a forma que você define as coisas aqui dentro - são muito mais claras do que no começo ou no meio do caminho”, afirma. “Não só no cardápio, mas também no atendimento, na parte do bar, bebidas e hospitalidade”, finaliza.

Chef Daniel Park comanda o Komah desde 2022
Chef Daniel Park comanda o Komah desde 2022

Nesses dez anos, Daniel também ressalta como o público do Komah se expandiu. Pela popularização da cultura coreana - tanto pelos filmes, séries e grupos de música -, o consumidor muitas vezes chegava ao restaurante conhecendo tudo sobre um prato, entusiasmado pela etapa final: prová-lo.

Onde é: Rua Cônego Vicente Miguel Marino, 378 – Barra Funda | Segunda a quarta, das 12h às 15h e das 18h30 às 22h; quinta e sexta, das 12h às 15h e das 18h30 às 23h; sábado, das 12h às 16h e das 19h às 23h | @komahrestaurante

Modern Mamma Osteria

Dizer que o Modern Mamma Osteria é um dos principais restaurantes de comida italiana da cidade é redundância. Com quatro unidades espalhadas por São Paulo, a primeira foi aberta no Itaim Bibi, local no qual o chef e proprietário, Salvatore Loi, pode transcrever em pratos toda a sua história e invenções gastronômicas. Com uma cozinha italiana contemporânea, como diz em seu próprio nome, o MOMA - apelido carinhoso que ganhou ao longo dos anos - sempre teve como proposta a cozinha moderna.

No MoMa, o chef italiano Salvatore Loi prepara artesanalmente, do zero, as massas servidas no restaurante
No MoMa, o chef italiano Salvatore Loi prepara artesanalmente, do zero, as massas servidas no restaurante

Ao longo de uma década, muita coisa mudou dentro da cozinha, mas alguns pilares permanecem. Idealizador das receitas da casa, Loi tem no chef e sócio Paulo Barros na linha de frente da cozinha, responsável pela execução diária tanto dos pratos mais pedidos quanto das novas criações do restaurante. “Existem pratos que nunca vão sair do cardápio”, diz Salvatore. É o caso da lasanheta de vitelo (R$ 116), enquanto outras receitas surgem a partir da evolução do mercado e das mudanças no paladar do público.

Para Salvatore, nos últimos dez anos, a evolução da cozinha criou pratos mais diretos e simplificou algumas receitas, sem que isso signifique abrir mão da qualidade. “Estamos sempre tentando simplificar receitas, mas não por isso perdemos qualidade”, afirma. Dentro da casa, o desafio é encontrar esse equilíbrio entre o que já faz parte da história do restaurante e as novidades que o mantêm em constante movimento.

Lasanha de vitelo, grana padano e trufas servida no Modern Mamma Osteria
Lasanha de vitelo, grana padano e trufas servida no Modern Mamma Osteria

Essa preocupação com a qualidade, aliás, é uma das bases que Salvatore aponta para a longevidade da casa. Em meio às mudanças econômicas, pandemia e o aumento dos custos que marcaram os últimos dez anos, o chef afirma que manter o padrão dos ingredientes sempre foi uma prioridade. “Não adianta você querer aumentar o preço ou tudo, se você não dá qualidade. Tem que ter qualidade”, diz. Para ele, a relação construída com o cliente passa justamente por entregar uma experiência que justifique a volta, mesmo que seja uma década depois.

Onde é: R. Manuel Guedes, 160 - Itaim Bibi | Segunda a quinta, das 12h às 15h e das 18h30 às 23h; sexta, das 12h às 16h e das 18h30 às 23h; sábado, das 12h às 23h; domingo, das 12h às 22h | @modernmommaosteria

Tanit

O Tanit “é o meu xodó”, dispara Oscar Bosch. A primeira empreitada do chef catalão em São Paulo abriu há dez anos com uma cozinha de sotaque também mediterrâneo e encontrou público desde o início. Mesmo assim, um desafio já esperado precisou ser enfrentado: “a cozinha espanhola não é a mais procurada, como um italiano ou uma pizzaria. É difícil fazer o brasileiro gostar desse tipo de comida e o nosso desafio foi justamente manter o Tanit ainda vivo por todo esse tempo”, destaca.

Quanto às conquistas, para o chef, a maturidade é uma das principais, tanto dele próprio, quanto de processos e da sua equipe. “Hoje o Tanit tem muito padrão. É comum clientes comentarem que, não importa o dia ou o horário, os pratos saem do mesmo jeito.”

No meio do caminho, porém, a adaptação também foi peça-chave. Durante a pandemia, Bosch - que era contrário ao delivery por acreditar que sua comida era sim sobre sabor, mas também sobre apresentação - precisou rever o seu posicionamento. E ainda bem, pois o serviço teve boa aceitação e ajudou a manter o restaurante de pé durante o período mais crítico.

Recentemente, o Tanit passou por uma reforma espacial e de cardápio com a ideia de atualizar o restaurante sem romper com aquilo que estabeleceu vínculos com seus clientes. Entre eles estão o arroz negro com polvo (R$ 194), o leitão com purê de cenoura na brasa (R$ 167), as croquetas (a partir de R$ 54) e o crocante de arroz negro com camarões empanados, guacamole e molho picante (R$ 76), que apresentam bem a cozinha da casa. A renovação aparece em receitas como o ceviche de vieira com ajoblanco (R$ 86), combinação da sopa fria espanhola à base de pão com leche de tigre, unindo tradição e referência.

Depois de dez anos, o Tanit chega a uma espécie de equilíbrio entre permanência e mudança. A cozinha espanhola, que no início precisava conquistar familiaridade, agora tem uma identidade própria. O desafio passa a ser outro: continuar atualizando restaurante, cardápio e operação sem perder a regularidade e os pratos que fazem os clientes voltarem sempre.

Onde é: R. Oscar Freire, 145 - Cerqueira César | Terça a sexta das 12h às 16h e das 19h às 00h; sábado das 12h às 17h e das 19h às 00h; domingo das 12h às 17h | @restaurantetanit



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