Bacon vai além do hambúrguer e ganha espaço até na sobremesa

O bacon talvez seja um dos ingredientes mais fáceis de reconhecer e, justamente por isso, um dos mais difíceis de usar. Gorduroso, salgado e defumado, ele tem personalidade suficiente para dominar uma receita inteira se entrar na panela sem medida. Agora, chefs brasileiros estão tentando fazer o movimento contrário: em vez de deixar o bacon ser o sabor principal, usá-lo como ferramenta para acrescentar profundidade, crocância, untuosidade e umami a preparos que passam longe do hambúrguer e do café da manhã.

“Se empregado com equilíbrio, o bacon pode transformar o prato”, resume Bruno Barros, chef do Baleia Rooftop e do Assador. A frase sintetiza a nova relação com o ingrediente, que aparece em cozinhas profissionais em arroz, feijão, massas, molhos, ovos e até polvo. Mas é na sobremesa que ele encontra seu uso mais inesperado — e talvez aquele que melhor mostra a diferença entre simplesmente acrescentar bacon a uma receita e realmente incorporá-lo à construção do prato.

Bacon começa a ganhar novas oportunidades na gastronomia
Bacon começa a ganhar novas oportunidades na gastronomia

Doce também é lugar de bacon

No Fahrenheit, no Shopping JK Iguatemi, a chef Ana Cremonezi trabalha justamente nessa fronteira. Seu cheesecake de bourbon, fora de cardápio temporariamente, leva toffee, pipoca doce e bacon caramelizado. A ideia não é criar um doce com gosto evidente de bacon desde a primeira mordida, mas fazer com que a carne dialogue com os sabores tostados e caramelizados da sobremesa.

“Fazer um cheesecake comum e usar um bacon de finalização não faria sentido. Aí está a diferença entre usar bacon como truque e usá-lo como ingrediente”, diz a chef. Segundo ela, a primeira impressão deve ser a de uma sobremesa mais profunda, tostada e complexa. Só depois o comensal identifica a origem daquele sabor. “Nossa, tem bacon!”

A combinação funciona, explica Cremonezi, porque o ingrediente reúne características que podem conversar com outros elementos da confeitaria: sal, gordura, defumação, reação de Maillard e umami. Chocolate, caramelo, café e frutas podem ganhar novas camadas com essa combinação.

A chef já enxerga outros caminhos, como abacaxi assado na brasa com bacon e coco — combinação de gordura, fumaça, acidez e tropicalidade — e bacon com café e cacau. Milho também entra na lista: sua doçura e seus sabores tostados podem criar uma ponte com a carne curada.

Paula Labaki, chef consultora e responsável pelo cardápio da Fazenda Churrascada, chega a uma conclusão parecida pelo contraste. “A harmonização de bacon com doces e chocolates funciona pelo contraste equilibrado. O bacon acrescenta sal, gordura, crocância, defumação e umami; o doce traz açúcar, aromas e cremosidade. Um lado realça o outro”, afirma.

Na casa, a chef trabalha com cookie de chocolate com bacon e mousse de chocolate finalizada com bacon crocante triturado, quase transformado em pó. A gordura também pode ser aproveitada em doces, além de servir para pincelar carnes e dar sabor a outros preparos.

Mousse de chocolate finalizada com bacon crocante triturado da Fazenda Churrascada
Mousse de chocolate finalizada com bacon crocante triturado da Fazenda Churrascada

Há uma criação, porém, em que Labaki abandona deliberadamente a ideia de que o bacon deve ficar nos bastidores. É o Bacon Zé Rico, receita criada há mais de 15 anos a partir de referências trazidas das viagens da chef aos Estados Unidos. Tiras de bacon recebem açúcar mascavo, pimenta-do-reino, páprica e pimenta-caiena e vão ao forno até secarem e ficarem crocantes. “Eu acho que ele nunca é o protagonista. A não ser no Zé Rico da Churrascada, que ele é o grande protagonista. No resto, ele é sempre aquele coadjuvante que faz toda diferença na cena”, afirma.

O contraste não é exatamente uma invenção contemporânea. No Rancho Português, o bacon chega ao Pudim do Abade, que combina laranja, canela e gema de ovo. A receita se aproxima de uma tradição ibérica antiga de misturar toucinho e preparos doces. “Dá um toque de sabor maravilhoso”, diz o chef Valdeci Castro.

Mais do que crocância

A mesma lógica aparece nos pratos salgados. No Assador, Bruno Barros usa bacon no arroz da casa, com cebola e batata palha. A ideia é aproveitar a gordura e a defumação para dar profundidade sem fazer do ingrediente o centro da receita.

Preparações com ovos estão entre os territórios mais naturais para o bacon. A gordura e as notas defumadas encontram a cremosidade da gema, criando contraste sem exigir que o ingrediente seja usado em grandes quantidades.

Mas o uso pode ir muito além: no Rancho Português, Castro coloca bacon em saladas, feijão, cozidos e massas e, em uma combinação menos previsível, no Polvo à Provençal, ao lado de alho laminado frito, azeite, suco de limão e salsinha. “O bacon dá personalidade e um sabor absurdo para as receitas. O toque defumado é incomparável”, afirma.

No Fahrenheit, a própria gordura que o bacon libera durante o preparo ganha uma segunda função. Cremonezi a utiliza como base para refogados, arrozes, molhos e emulsões. Um exemplo é o aioli feito com gordura de bacon, pimentão defumado e cebola roxa caramelizada, servido com a croqueta de jamón.

Arroz do Assador leva bacon no preparo
Arroz do Assador leva bacon no preparo

A lógica é próxima da adotada pela chef Andrea Ribeira, do Mistura de Itapuã, em Salvador. Como usa pouco bacon na cozinha, ela procura primeiro extrair o máximo da gordura e reserva a carne para acrescentar textura crocante. É uma forma de fazer com que o ingrediente renda mais sem deixar que seu peso e sua intensidade dominem o prato.

O chef executivo Victor Pretti, do Bardega Wine Bar, chama atenção para outra característica importante: o corte. Um bacon mais gorduroso pode funcionar melhor em emulsões e coberturas; um mais magro, por sua vez, pode entrar como parte da proteína e entregar mais defumação e especiarias sem acrescentar tanta gordura.

Pretti também recorre a duas técnicas tradicionais da cozinha francesa. No lardear, pedaços de bacon são inseridos em outra proteína para acrescentar suculência conforme a gordura derrete durante o cozimento. No bardear, uma fatia envolve o alimento por fora e ajuda a protegê-lo do calor.

Mas há ainda um uso menos explorado: comer o bacon pronto, fatiado, como se faz com outros embutidos. Nesse caso, diz Pretti, a técnica de cura e defumação ganha ainda mais importância. É possível trabalhar, por exemplo, com lenhas de frutas cítricas ou incorporar especiarias como cravo, canela e semente de coentro durante a cura. “O que eu considero mais legal nesse produto ‘bacon’ é o fato de ser simples de produzir de forma artesanal e você conseguir trazer na complexidade de sabores tudo o que pode agregar ao prato final”, afirma.

No Fahrenheit, croqueta de jámon com aioli de bacon
No Fahrenheit, croqueta de jámon com aioli de bacon

Essa complexidade começa antes mesmo do fogo. No restaurante Nouzin, o bacon é produzido na própria casa, e o chef Amilcar Azevedo considera a escolha da matéria-prima o “primeiro passo indispensável” para um preparo de qualidade. Para ele, a oscilação entre os produtos industrializados disponíveis no mercado torna essa seleção ainda mais importante.

Paula Labaki coloca a defumação no mesmo nível de importância. “A defumação é um ingrediente no bacon, então a fumaça é um ingrediente dentro do bacon. Se não tiver uma boa defumação, não é um bom bacon”, afirma.

A escolha da madeira interfere no resultado, deixando o produto mais suave ou mais intenso. E essa intensidade deve orientar o restante da receita: um bacon muito defumado pede preparos capazes de suportar sua presença; um produto mais delicado pode entrar em pratos mais sutis.

É justamente aí que está a mudança. O bacon continua sendo bacon — gorduroso, salgado, defumado, crocante quando bem preparado —, mas deixa de ser necessariamente o sabor que chega primeiro à mesa. Em vez de ocupar sozinho o centro do prato, passa a funcionar como uma espécie de amplificador. Até no doce.



from Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo https://ift.tt/g9swqIi
via IFTTT

Comentários

Postagens mais visitadas