O prato que Anthony Bourdain não perdoou

Com a 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) em curso, voltei no tempo. No domingo em que se encerrava a edição de 2005, a cidade já começava a esvaziar. Anthony Bourdain, no entanto, ainda estava por lá. Guardo mais a lembrança de uma cena fortuita do que de sua apresentação: em algum momento, vi aquele americano alto, rock’n’rollmente blasé, examinando com curiosidade um carrinho de doces na rua – daqueles que fazem parte da alma paratiense. A memória improvável ficou.

Outras lembranças também. Foi uma edição marcante da Flip. Salman Rushdie era o grande nome daquele ano. Tive a oportunidade de participar de uma roda de conversa com o escritor em uma pousada e, como programas de culinária ainda ocupavam um lugar restrito no meu entretenimento, nem pensei em perguntar sobre sua relação com Nigella Lawson.

A mesa entre Bourdain e Flávia Quaresma, por outro lado, era certeira. Desde 2004, ela apresentava o Mesa para Dois, no GNT, ao lado de Alex Atala. Bourdain havia chegado à televisão três anos antes, catapultado pelo sucesso de Cozinha Confidencial, levando as câmeras muito além do fogão. Em vez de receitas, mostrava mercados, botequins, vendedores ambulantes e personagens locais, transformando a comida em ferramenta para decifrar cultura e comportamento. Na época, era uma revolução.

Chef Alex Atala
Chef Alex Atala

“Ele foi o pioneiro, ia a campo para desbravar a comida de tudo quanto era canto do mundo”, lembra Flávia. “De opiniões fortes, decretou que ninguém deveria comer peixe às segundas-feiras por serem as sobras das feiras e mercados. Deu uma polêmica enorme” – e meio que virou uma verdade.

Sua influência é inegável. Na prática, quase todo programa de viagens e gastronomia traz um pouco dessa assinatura. Mesmo quem nunca assistiu a um episódio de Parts Unknown, já se deparou com essa fórmula em algum lugar. E ela é ótima, porém, minhas histórias preferidas sobre Bourdain continuam sendo as de bastidores.

Anos atrás, ouvi uma curiosa sobre sua passagem pelo Brasil. Um ex-namorado contou que participou da busca pela locação de uma gravação. A pauta, concebida pela jornalista Alexandra Forbes, era tão delirante quanto genial: fazer o apresentador provar estrogonofe de motel. Se a cena chegou a ser gravada, não afirmo. Contudo, a simples maluquice da ideia captura perfeitamente o espírito sem melindres do personagem.

Chef Claude Troisgros
Chef Claude Troisgros

Meu causo favorito, no entanto, envolve Claude Troisgros. Tudo começou no aniversário de 50 anos de Daniel Boulud, em Miami. O francês, que na época prestava consultoria ao hotel Delano, foi escalado para integrar um dream team. Ao lado de nomes como Éric Ripert e Jean-Georges Vongerichten, ficou responsável por cozinhar para mais de 300 convidados.

“Daniel pediu que eu fizesse a vieira com doce de leite, um prato que ele dizia ser um dos melhores que já tinha comido na vida”, conta Claude. Ele levou doce de leite do Brasil, usou vieiras canadenses e acrescentou palmito pupunha. O jantar foi um sucesso absoluto.

No dia seguinte, caminhando por Miami Beach, o chef viu o anúncio de uma palestra de Bourdain na praia e resolveu assistir: “Achei que seria uma conversa pequena, mas parecia um show dos Rolling Stones. Tinha milhares de pessoas gritando o nome dele. Uma loucura”.

Chef Anthony Bourdain em seu apartamento, em Nova York
Chef Anthony Bourdain em seu apartamento, em Nova York

Claude conseguiu chegar perto do palco quando uma espectadora foi chamada para girar uma roleta de perguntas. A questão sorteada: qual foi a pior coisa que você já comeu na vida?

Bourdain fez uma pausa dramática antes de responder, categórico: vieira com doce de leite. “Na hora eu gelei”, lembra-se rindo. “Comecei a abaixar para ninguém me ver, mesmo sabendo que ninguém ali fazia ideia de quem eu era. Fui embora arrasado. Pensava: como o prato preferido do Daniel Boulud podia ser a pior coisa que o Anthony Bourdain já tinha provado?”.

Coincidência ou não, o ano também era 2005. Hoje, a história virou anedota, já a vieira com doce de leite, voltou ao cardápio do Chez Claude, no Rio de Janeiro. Não deixa de ser apropriado. Bourdain passou a vida mostrando que comida nunca foi sobre consenso. Um prato pode ser inesquecível para Daniel Boulud e intragável para Anthony Bourdain. É justamente esse atrito entre gostos, memórias e experiências que faz da gastronomia um terreno tão fascinante. Afinal, as melhores histórias raramente terminam quando a refeição acaba.



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