Após ver o acarajé ‘desfigurado’ na internet, guardiã da receita lança aula sobre a tradição

Solange Borges já serviu seus acarajés a nomes como Alex Atala, Janaína Torres e Fabrício Lemos, que foram até ela aprender mais sobre o preparo. Nos últimos tempos, porém, a cozinheira baiana — pesquisadora e idealizadora do projeto Culinária de Terreiro — viu a receita tradicional ser “desfigurada” à velocidade das redes sociais.

Liquidificador no lugar da moagem cuidadosa do feijão. Óleo de soja substituindo o dendê. Vídeos que prometem um “acarajé em poucos minutos” e até versões feitas na air fryer, sem explicar — e nem honrar — de onde vem o bolinho símbolo e patrimônio imaterial do Brasil. Bateu o medo de a memória ser perdida e a cultura, desvalorizada. Ela decidiu, então, usar a mesma rede social para tentar conter o dano.

Solange Borges: chef ensina a fazer acarajé tradicional
Solange Borges: chef ensina a fazer acarajé tradicional

“Eu não me incomodo que façam um acarajé gourmetizado ou que ele seja servido em restaurantes sofisticados, distante dos nossos tabuleiros. O problema é quando esquecem de contar sua história, apagam os povos sustentados por ele ou simplesmente nem imaginam que estão fazendo a receita errada”, resume.

A chef Solange Borges tornou-se habitué das redes sociais durante a pandemia. Criou o perfil Culinária de Terreiro e agregou mais uma função ao currículo. Ela, que já mantinha seu tabuleiro de acarajé em Camaçari, na Bahia, e organizava o Festival do Dendê, passou a dar cursos. Tempos depois, decidiu abrir um restaurante físico e interrompeu as aulas virtuais. Agora, sentiu um chamado para voltar.

A inquietação com o acarajé

Solange costuma dizer que começou a cozinhar ainda na barriga da mãe, embalada pelo cheiro da comida preparada pela matriarca da família. Aos 9 anos, assumiu, de fato, um lugar no tabuleiro, empurrando o carrinho, moldando os bolinhos e aprendendo as tradições culinárias e ritualísticas do terreiro.

Perdeu a mãe quando ela tinha apenas 45 anos. Precisou sustentar a filha e o irmão mais novo, então com 14 anos. Tirou o sustento do acarajé, ampliou seu repertório na cozinha, estudou Letras e se formou na universidade. A filha também aprendeu a fazer acarajé, assim como o neto.

“Mas tem algo que se transforma. A gente tem conseguido fazer com que o acarajé deixe de ser só uma necessidade de sustento e passe a ser uma vontade de fazer”, conta. E, nessa transmissão hereditária do saber do acarajé, além da apropriação feita por outros cozinheiros, algumas tradições acabam se perdendo.

Solange Borges: chef ensina a fazer acarajé tradicional
Solange Borges: chef ensina a fazer acarajé tradicional

“Tem uma substituição que eu nunca aceito. Nunca aceitei. Nunca vou aceitar: trocar o azeite de dendê por outro óleo. Não é teimosia. É que, quando você faz essa troca, não está adaptando uma receita; está fazendo outro prato”, esbravejou em uma postagem. “O dendê não é só um meio de fritura. Ele é o ouro da cozinha baiana. Vem do fruto do dendezeiro, uma palmeira africana que chegou ao Brasil junto com o povo negro escravizado e aqui ficou, se adaptou, se multiplicou.”

Esses escritos inquietos, que acompanharam um vídeo em que ela preparava o verdadeiro acarajé, chegaram a 500 mil visualizações. Junto com eles vieram muitos pedidos para que Solange ensinasse o jeito certo de fazer a iguaria.

Ela decidiu, então, montar uma nova aula aberta ao público, por R$ 37. O valor arrecadado será destinado à manutenção do restaurante Culinária de Terreiro e do projeto de pesquisa que desenvolve sobre a memória da cozinha afro-brasileira, partilhando saberes e tradições ao lado de nomes como Ieda de Matos, Aline Guedes, Cidinha Santiago e Iza Souza.

A proposta é que quem participar da aula aprenda a fazer a massa perfeita, o ponto correto do dendê, o jeito certo de deixar o feijão de molho e, além da técnica, mergulhe no saber ancestral e na contação de histórias.

  • Serviço

Aula: O passo a passo exato para fazer o acarajé leve, crocante e macio

Quando? 18/07, das 13h às 17h (ao vivo)

Ingressos: www.segredodoacaraje.com.br



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