Oscar Bosch, do mar da Catalunha ao mapa gastronômico de São Paulo

Chef catalão transformou a memória de Cambrils em uma sequência de casas que ajudam a contar sua própria evolução

 


Oscar Bosch, a mente à frente de, até o momento, 5 casas | foto: Lucas Terribili
Oscar Bosch, a mente à frente de, até o momento, 5 casas | foto: Lucas Terribili

Alguns chefs parecem nascer de uma escola. Outros, de uma cidade. Oscar Bosch nasceu um pouco dos dois.

A cidade é Cambrils, na Catalunha, uma antiga vila de pescadores onde o mar tem menos cara de paisagem e mais de destino. Ali, entre peixes, azeites, turistas e restaurantes, a cozinha não aparece como exceção, mas como parte da vida.

A escola, por sua vez, veio de casa. Oscar cresceu perto do Can Bosch, restaurante da família que começou como bar de pescadores, virou referência gastronômica da região e há décadas ostenta uma estrela Michelin.

Antes de São Paulo, portanto, já havia um repertório bastante definido. Havia mar, produto fresco, cozinha mediterrânea, vida de restaurante e a noção de que cozinhar também é respeitar o tempo do ingrediente. Cambrils, no caso dele, não foi apenas cenário de infância. Foi também o lugar onde a vida profissional começou quase sem que ele percebesse.

"Cambrils me ensinou tudo, porque é onde estão as minhas referências. Meus pais tinham um negócio ali e eu não pretendia ser chef, mas o negócio da família acabou me envolvendo", diz Oscar. "Meu pai me fazia trabalhar nos verões, porque era uma cidade pequena e turística. Eu gostava mesmo era de andar de bike ou de moto, ficava quase o dia todo fora, e ele me colocava para trabalhar para me entreter com outras coisas. Também queria que eu desse valor ao dinheiro, aquela coisa de ver que a vida é dura e que eu teria que trabalhar e estudar".

A técnica veio depois, em passagens por cozinhas importantes da Europa. Oscar trabalhou em casas como El Bulli, El Celler de Can Roca e Hof van Cleve, experiências que ajudaram a organizar aquilo que a memória familiar já tinha colocado no lugar certo.

Quando chegou ao Brasil, em 2010, não abriu imediatamente um restaurante. Fez consultorias, criou o serviço de catering CookMe e foi entendendo São Paulo, essa cidade que acolhe cozinhas do mundo inteiro, mas cobra personalidade de quem tenta ficar.

O primeiro endereço próprio veio em 2016, com o Tanit, na Rua Oscar Freire. A casa não nasceu como um restaurante espanhol genérico, mas como uma tradução paulistana da cozinha mediterrânea de um catalão que sabia de onde vinha.

No Tanit, a Espanha aparece nos arrozes, nas tapas, nos frutos do mar e em preparos de matriz ibérica, mas sem rigidez folclórica. É uma cozinha de produto, técnica e pequenas liberdades, como mostram o arroz negro, com polvo a la plancha, tinta de lula e allioli (R$ 194) e o fieuà de camarões (R$ 156).


Lulinhas a la Plancha, um dos pratos do Tanit | foto: Juliana Primon
Lulinhas a la Plancha, um dos pratos do Tanit | foto: Juliana Primon

O restaurante também ajudou a firmar Oscar como um dos nomes mais importantes da cozinha espanhola em São Paulo. Não por acaso, segue sendo uma casa que funciona tanto para quem quer beliscar e dividir quanto para quem busca uma refeição mais completa.

Três anos depois, veio o Nit Bar de Tapas, literalmente ao lado. Se o Tanit era o restaurante mais estruturado, o Nit (que significa noite em catalão) nasceu como a noite, no sentido mais literal e também no espírito da coisa, com balcão, clima mais solto, coquetelaria e um cardápio feito para compartilhar, beber e pedir mais uma rodada.

É o endereço em que a meu ver Oscar aproxima São Paulo do costume espanhol de comer em pequenas porções. Entre as pedidas, aparecem a croqueta de jamón ibérico, com mayo de chorizo picante e jamón crocante (R$ 54), e calamarcitos a la brasa com allioli e azeite (R$ 82).

O Nit talvez seja a casa que melhor mostra que informalidade não precisa ser sinônimo de descuido. A comida é de bar, mas a execução carrega a mesma obsessão por detalhe que aparece nos restaurantes do chef.

Para Oscar, a casa nasceu exatamente como um bar de tapas, e não como uma extensão do Tanit. A confusão, segundo ele, aconteceu mais no início, quando parte do público ainda via o Nit como uma espécie de espera do restaurante vizinho.

"O Nit nasceu como um bar de tapas mesmo. É exatamente como os espanhóis consomem a cozinha espanhola, comendo tapas", afirma. "No começo, o público achava que era uma espera do Tanit, mas depois os clientes foram entendendo que o Nit era mais descolado e informal. Com ele, a gente conseguiu mostrar essa informalidade da cozinha espanhola".


Um dos pontos altos do cardápio do Nit, as croquetas perfeitamente fritas: foto: Juliana Primon
Um dos pontos altos do cardápio do Nit, as croquetas perfeitamente fritas: foto: Juliana Primon

A ideia de tapa, para ele, também não precisa ficar presa à Espanha. "Eu considero tapa uma porção pequena de comida. Com o Nit, queria desenvolver meu lado mais street food, então coloquei no menu tapas de outros países desde sempre, como o patacón com atum, do Peru, ou o bao de pancetta".

Depois veio a Mooi Mooi, aberta em 2022 ao lado da empresária e esposa Mel Kolanian. À primeira vista, uma sorveteria pode parecer uma curva inesperada na trajetória de um chef mediterrâneo, mas talvez seja justamente por isso que ela faça sentido, já que ela trabalha com sorvetes autorais, combinações montadas na hora e uma linguagem muito mais pop. É uma casa de sobremesa, mas também de brincadeira, textura e memória afetiva.

Entre os sabores mais conhecidos estão o Abracadâmia, com sorvete de macadâmia, biscoito e caramelo da mesma noz (R$ 29), e o King Kong, que no pote de 500 ml leva sorvete de banana, crumble, doce de leite e banana brulée (R$ 67). A casa mostrou que Oscar também sabe conversar com um público que não necessariamente está procurando jantar, mas sim uma experiência doce, rápida e compartilhável.

Em 2023, o chef voltou ao Mediterrâneo com o Cala del Tanit, no Itaim Bibi. A casa tem uma ambição diferente, mais ampla, mais elegante e mais solar.

O Cala trabalha uma cozinha entre mares, expressão que combina bem com a proposta. A base ainda é mediterrânea, mas há um diálogo maior com o Atlântico, com o Brasil e com uma São Paulo que gosta de restaurantes bonitos, bons vinhos e pratos para dividir.

O cardápio mantém arrozes, frutos do mar e entradas de forte apelo visual. Entre os destaques recentes estão o crocante de arroz negro com guacamole, camarões empanados e spicy mayo (R$ 76) e o arroz socarrat de pato com polvo grelhado e aioli (R$ 132).


Arroz Socarrat de Pato e Polvo, do Cala del Tanit | foto: Juliana Primon
Arroz Socarrat de Pato e Polvo, do Cala del Tanit | foto: Juliana Primon

No Cala, Oscar parece menos interessado em provar que sabe cozinhar a Espanha clássica e mais interessado em mostrar até onde ela pode ir. É uma casa que mantém a raiz, mas permite mais movimento.

O capítulo seguinte é a Bodega Pepito, aberto em Pinheiros no fim de 2025. Aqui, o chef troca um pouco a elegância mediterrânea por uma energia mais urbana, mais barulhenta e mais aberta, já que lá mistura a ideia das bodegas espanholas com a informalidade dos botecos brasileiros. A cozinha tem base ibérica, mas se permite atravessar referências de outros lugares, sem cerimônia e sem medo de parecer menos pura.

Essa liberdade aparece em pratos como a croquetas Forrest Duck, de pato com maionese de tucupi (R$ 24 a dupla), e o tataki de torresmo, com chutney de abacaxi e pimenta dedo de moça (R$ 35). Para dividir, também entram na conversa o crudo de atum (R$ 79), a tortilla de batata com aioli e cecina de wagyu (R$ 55) e o arroz de pato (R$ 230 para duas pessoas).

A Bodega talvez seja o projeto mais solto de Oscar até aqui. Não tem a obrigação de ser fiel a uma geografia específica, e isso dá ao cardápio uma graça própria.

Agora, o próximo passo será o Marmotta Pasta Bar, no Itaim Bibi. O restaurante ainda vai abrir possivelmente em junho deste ano e marca uma mudança mais clara de território, com Oscar entrando no universo das massas e pizzas ao lado de Pedro Siqueira, do Sisí Cucina, no Rio de Janeiro, e Pedro Oliveira, ex-Vista Ibirapuera.

Oscar reconhece que, desta vez, o movimento tira sua cozinha de um lugar mais familiar. A Itália também conversa com o Mediterrâneo, mas o Marmotta não pretende ser apenas uma variação desse repertório.

"O Marmotta é um novo conceito. Eu sou fã de pasta e pizza e acho que aqui saio da minha zona de conforto, porque fazer pizza é complexo, mas me apoio no know-how do meu sócio e amigo Pedro Siqueira", diz. "O que vem da minha parte é a criatividade, tentar sair do comum dos sabores italianos, colocar temperos nos molhos e textura nas massas. É uma ruptura do que eu vinha fazendo e um baita desafio."

 


Oscar prepara-se para inaugurar o Marmotta, para onde pode levar para massas e pizzas a mesma inquietação que aplicou aos arrozes, tapas, sorvetes e bares | foto: Rodolfo Regini
Oscar prepara-se para inaugurar o Marmotta, para onde pode levar para massas e pizzas a mesma inquietação que aplicou aos arrozes, tapas, sorvetes e bares | foto: Rodolfo Regini

A fala ajuda a explicar por que o Marmotta não deve ser lido apenas como uma mudança de bandeira. O projeto parece menos interessado em reproduzir a Itália clássica e mais em testar como Oscar pode levar para massas e pizzas a mesma inquietação que aplicou aos arrozes, tapas, sorvetes e bares.

A trajetória, vista em ordem, me passa a impressão de uma história bastante coerente. O Tanit estabeleceu a assinatura, o Nit soltou a gravata, a Mooi Mooi levou o chef para o doce, o Cala deu mais fôlego ao Mediterrâneo, a Bodega Pepito abriu espaço para a mistura e o Marmotta promete testar um novo idioma.

No fim, Oscar Bosch parece menos preocupado em administrar restaurantes parecidos entre si e mais interessado em construir casas com humor próprio. Cada uma tem seu ritmo, seu público e seu jeito de ocupar São Paulo.

Mas todas, de alguma forma, voltam ao mesmo ponto de partida. O respeito ao produto, a herança mediterrânea e a ideia de que uma boa casa não se sustenta apenas em conceito, mas em comida que dá vontade de voltar.

 

Serviço

Tanit Rua Oscar Freire, 145, Jardins, São Paulo

Telefone: (11) 3062-6385 e (11) 94581-9228

Funcionamento: terça a sexta, 12h às 16h e 19h à 0h, sábado, 12h às 17h e 19h às 0h, domingo, 12h às 17h

Instagram: @restaurantetanit

 

Nit Bar de Tapas

Rua Oscar Freire, 153, Jardins, São Paulo

Telefone: (11) 3062-6385 e (11) 3539-9795

Funcionamento: terça e quarta, 18h às 0h, quinta e sexta, 17h às 0h, sábado, 12h à 0h, domingo, 12h às 22h

Instagram: @nit_bardetapas

 

Mooi Mooi

Rua Manuel Guedes, 249, Itaim Bibi, São Paulo, e outras unidades (Av. Paulista e Pinheiros)

Funcionamento: segunda, terça, quarta e domingo, 12h às 22h, e quinta, sexta e sábado, 12h às 23h

Telefone: (11) 94456-8050

Instagram: @mooimooi.br

 

Cala del Tanit

Rua Pais de Araújo, 147, Itaim Bibi, São Paulo

Telefone para reservas: (11) 97663-2566

Funcionamento: terça a quinta, 12h às 15h, sexta, 12h às 16h e 19h à 0h, sábado, 12h às 17h e 19h à 0h, domingo, 12h às 17h

Instagram: @caladeltanit

 

Bodega Pepito

Rua dos Pinheiros, 320, Pinheiros, São Paulo

Funcionamento: terça a quinta, 12h às 15h e 18h às 23:30h, sexta, 12h às 16h e 18h à 0h, sábado, 12h à 0h, e domingo 12h às 17h

Instagram: @bodega_pepito

 

Marmotta Pasta Bar

Itaim Bibi, São Paulo.

Abertura prevista para 2026, com foco em pizza e pasta.

Instagram: @marmottapastabar.



from Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo https://ift.tt/p8VdE3l
via IFTTT

Comentários

Postagens mais visitadas