É tempo de caqui: fruta vira estrela de pratos em restaurantes e confeitarias
Uma questão (de gosto) pessoal. Parecia até resposta pronta. A maioria dos chefs e confeiteiros entrevistados para esta reportagem, quando questionados sobre o que os levou a incluir o caqui em seus cardápios, respondeu prontamente, quase sem pensar: é porque eu adoro caqui.
Amada por uns, incompreendida por outros – que torcem o nariz só de pensar, principalmente, na sua textura –, fato é que a fruta ganha espaço na gastronomia, justamente, pelas mãos de integrantes do seu fã clube. Logo ela, cujo hábito é ser consumida sozinha, in natura, de uns tempos para cá, começa a pipocar em cardápios de restaurantes, confeitarias e padarias durante o outono, como protagonista de receitas inspiradas. E, olhe só, não apenas em preparações doces, como era de se imaginar.

“Vai chegando a época do caqui, e os clientes que gostam já começam a perguntar qual será o prato da vez”, conta o chef Pablo Inca, à frente do paulistano Cora. Já virou tradição: toda safra – que é curtíssima, para a tristeza dos amantes da fruta –, tem sempre um prato com a variedade rama forte no cardápio. “É um queridinho aqui na cozinha.”
No ano de estreia do restaurante, Pablo temperava o caqui com suco de limão e flor de sal e, por cima, acomodava uma “nuvem” de queijo Tulha ralado bem fininho. Na finalização, entravam nibs de cacau e ervas. “Esse prato foi um golaço, virou um ícone aqui no Cora”, conta. Nesta temporada, o chef pega a fruta madura, mais ainda firme, e tempera com os mesmos suco de limão e flor sal. “Gosto dessa combinação, porque ela aumenta a sensação de umami e faz salivar”, explica. Muçarela de búfala fresca, fatias de jalapeño, lâminas de salsão, ervas frescas, nozes-pecã e crocante de linhaça complementam o prato, que deve ficar em cartaz até o final de junho.

Já para Marcelo Schambeck, chef do Capincho, em Porto Alegre, o tempero perfeito para o caqui rama forte é um vinagrete de maracujá, que ele mesmo faz na casa. “Amo caqui e, todo ano, me desafio a incluir um prato com ele no cardápio.” Dessa vez, a fruta chega à mesa com coalhada de iogurte, coquinho do butiá, jalapeño, hortelã e manjericão. Um prato que funciona como entrada – e assim foi pensado pelo chef –, mas que poderia passar por sobremesa, levando em conta a doçura do caqui, no paladar de quem gosta de doces menos doces.
Rhaiza Zanetti, chef do Miyabi, nunca se esquece da felicidade do seu avô paterno ao chegar na feira e reparar que tinha começado a temporada da fruta. “Ele voltava para casa carregado de caquis e eu achava aquilo lindo e ao mesmo tempo curioso”, conta. Na cozinha profissional, foi com o chef Ivan Ralston, do Tuju, que Rhaiza aprendeu todos os melindres da fruta, como a melhor época, a textura ideal, a forma correta de armazenamento. “Num dos últimos menus que estive no Tuju, o chef me desafiou a criar uma sobremesa surpreendente com caqui. Então juntei caqui, mel e tamarindo, e ficou inesquecível”, revela.

Agora no Miyabi, com a chegada do outono, “não tinha como deixar de usar caqui, uma fruta que é tão apreciada no Japão”, explica. A receita, uma sobremesa, leva também espuma de arroz, que traz untuosidade, kinako (farinha de soja torrada) e sorbet de tangerina, que, com a sua acidez, “complementa a elegância do caqui”.
A confeiteira Luiza Lafer, da confeitaria homônima, também é dessas pessoas que esperam o ano inteiro pela safra de caquis. “Eu amo!” Não à toa, ela prepara uma receita que, segundo ela, “realça bem o sabor da fruta”. Uma gallette com massa semifolhada e creme de amêndoas, que leva não um, mas dois tipos de caqui: o “duro”, laminado no recheio, e o “mole”, na base de uma calda de brilho. A torta aparece vez ou outra no cardápio durante a temporada da fruta.
No Ara, restaurante de sobremesas do chef Rodrigo Ribeiro, o caqui aparece em forma de compota na sobremesa Folhas, inspirada no outono. “É a fruta da estação, né?! Tinha que estar na receita”, explica. Creme de pimenta sichuan e cacau, geleia de tamarindo, espuma de cumaru, terra de castanha do pará, massa filo caramelizada com noz-moscada, tuile de puxuri e folhas de chocolate e pimenta sichuan complementam a pedida. “O caqui entra trazendo tdulçor para prato, balanceando a acidez da geleia de tamarindo, além de dar corpo à sobremesa, por sua leve adstringência.”
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