Da horta ao copo: a revolução dos vegetais na coquetelaria

Sem desmerecer clássicos como o Bloody Mary ou o Gibson, percussores na introdução do tomate e da cebola na coquetelaria, bares contemporâneos decidiram ir além no universo vegetal. O movimento atual extrai de ingredientes da horta – da raiz ao talo – textura, umami, salinidade, pungência e complexidade aromática ao copo; aproxima a cozinha do bar.

Legumes fluem rumo a drinques menos doces, fermentação, sustentabilidade e desperdício zero. Conservas, shrubs (bebidas de frutas, açúcar e vinagre), infusões, clarificações e fat wash (destilado vertido em gordura, como manteiga ou bacon, para capturar olores) transformaram produtos antes considerados improváveis em parte da lista de compras da coquetelaria.

Drink servido no Scarfes Bar, dentro do Rosewood London
Drink servido no Scarfes Bar, dentro do Rosewood London

Em Londres, o Scarfes Bar, dentro do Rosewood London, acaba de lançar Heroes & Villains, carta inspirada no ilustrador Gerald Scarfe. A coleção brinca com as dualidades do balcão moderno, com destaque para o Temptation, releitura de Spicy Margarita que incorpora berinjela assada ao lado de mezcal, kiwi picante e Ancho Reyes (licor mexicano de pimenta). A berinjela surge trazendo defumado, textura agradavelmente áspera e profundidade terrosa. A telhazinha de chocolate, quando mordiscada entre um gole e outro, ressalta todas essas notas.

Também na capital inglesa, o Dover Yard, no 1 Hotel Mayfair, explora ingredientes subterrâneos e técnicas de reaproveitamento na carta Radical: A Story Told From Underground. Melhor exemplo é o Verdant Fizz, uma espécie de Vodka Sour vegetal feito com vodca, dill, aperitivo francês colorido com beterraba e cenoura, suco de picles e abobrinhas em conserva. Os picles, aliás, viraram atalhos queridinhos das coqueteleiras – entregam de bandeja acidez natural, salinidade e “gourmeticidade”.

Perla
Perla

Cruzando o Atlântico, a América Latina vem aportar identidade local a esse jogo. Em Santiago, o Siam Thai aposta em vegetais pouco usuais, inclusive marinhos, na nova edição da carta Piedras Preciosas. O coquetel Pirita junta ají de oro encurtido (vegetal típico chileno de picância moderada) com tequila, sauvignon blanc (cepa que traz toque de aspargos e pimentão verde), abacaxi e mezcal. Numa licença poética, o Perla incorpora o ulte (talo da alga cochayuyo conhecido como “palmito do mar”).

Já em Bogotá, o Humo Negro adiciona sotaque cordilheirano à tendência. No Mula Andina (gim, falsa ginger beer de cubios e picles de cubio), versão do clássico Moscow Mule, a estrela é o cubio, tubérculo cultivado nas alturas da Colômbia, Equador, Peru e Bolívia. De sabor suave e ligeiramente adocicado, lembra um gengibre sem picância. Item ancestral de sopas, guisados e sobremesas andinas, traz frescor mineral e personalidade ao drinque.

Em São Paulo, mais especificamente em Pinheiros, três bares também abraçam a feira. O Tan Tan conjuga essa linguagem vegetal no Perspectiva, menu lançado em abril. Nele, o milho aparece em diferentes leituras. Antes de qualquer contestação: sim, trata-se de um cereal, mas aqui os grãos são explorados como legumes. Pelo menos é o que o Mi mi mi (R$ 65) assume! Releitura abrasileirada do Dirty Martini, ganha profundidade com o fat wash com manteiga de milho e salinidade com o líquido da conserva artesanal de mini espigas.

Mula Andina
Mula Andina

No Fifty Fifty, o elegante Aspargo (R$ 49) transforma o Martini em algo ao mesmo tempo untuoso e herbáceo ao unir awamori (destilado de arroz mais antigo do Japão), azeite, aspargos tostados, vermute seco e licor de laranja. Enquanto isso, o Santana evoca a horta quase como assinatura secreta.

Em carta paralela, mantém ervilha fresca no Princes and the Pea (que também leva gim, mel de jataí, limão taiti, sal marinho e guarnição de dill, R$ 52), beterraba no Melhor da Noite (que ainda reúne bourbon e coco, R$ 52) e pimentão vermelho no Peperista (com gim, baunilha do cerrado, pêssego, limão siciliano, R$ 49).

Não, bartenders não estão fazendo uma saladona; estão tornando a coquetelaria menos caricata e mais gastronômica – ganhando pontos com frescor sem obviedade e profundidade sem peso. A título de curiosidade, na América Latina os coquetéis não excedem R$ 70, mas na Inglaterra ultrapassam R$ 150.



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