Mounjaro à mesa: “Medo da comida traz mais isolamento”

As alterações no corpo, no prato, no bolso e nas prateleiras dos supermercados estão sendo cada vez mais mapeadas desde que a nova classe de medicamentos - apelidada de “canetas emagrecedoras” - conquistou o mercado.

Agora, Paladar convidou a psicanalista Luciana Saddi, uma estudiosa da chamada ‘mentalidade de dieta’, para falar sobre os possíveis impactos no comportamento.

“Vivemos tempos de medo de comida, medo de comer. E isso, em alguma medida, pode acarretar mais isolamento porque sentar à mesa é um dos principais caminhos de socialização”, disse ela, que é Fundadora do Grupo Corpo e Cultura, durante a entrevista concedida na última semana.

Veja a reportagem especial sobre a vida após o Mounjaro. Wegovy e Ozempic

Neste contexto, a conversa com Luciana Saddi não focou na discussão médica sobre como usar ou quando usar os medicamentos. E sim, sobre o pano de fundo que faz as canetas serem tão populares e utilizadas, trazendo uma cascata de impactos no comportamento, tanto nas refeições em casa como nos restaurantes.

A seguir, veja os principais trechos da entrevista:

1) Na sua clínica, estudos e discussões, você percebe que há um “medo recente associado ao comer”?

Não tenho dúvida nenhuma de que existe um medo de comer. E esse medo não é novo, ele se transforma. Já vem desde os anos 50, talvez até um pouco antes. Um medo da fome, um medo da gordura que a gente chama de fobia, na linguagem técnica. Falamos em fobia quando se trata de um medo irracional. Porém, o medo da comida e da gordura só não é lido tanto como “irracional” porque ele veio acompanhado de uma justificativa médica e científica, que demonizou a comida em nome de uma vida apresentada como mais saudável.

Luciana Saddi - piscanalista
Luciana Saddi - piscanalista

Apesar de ser algo antigo como você disse, essas questões comportamentais com a comida estão mais intensas em alguma medida com a popularização do tratamento com as canetas? Vocês no Grupo de Estudos percebem alterações?

É evidente a contribuição, mas temos que pensar o seguinte: anos atrás, a gente não tinha as canetas, certo? Mas tínhamos alguns antidepressivos que aparentemente controlavam um pouco as questões do comer e traziam emagrecimento. Depois tivemos as anfetaminas, que também foram super usadas pela população. Lembra que chamávamos de Vale das Bolinhas? Um título antigo de um livro que já descrevia aquela mulher americana dos anos 50, 60 tomando anfetamina para controlar o apetite, para diminuir o peso. Vieram depois outras medicações, tratamentos, sempre muito usados no Brasil. Então, as canetas surgem como uma alternativa mais avançada, até porque não mexem tão diretamente no sistema nervoso central, mas não há como negar que elas ainda estão inseridas no mesmo discurso da saúde, da beleza, padrões associados à magreza. Isso não mudou.

“Rodízio Mounjaro”: restaurantes lançam menus para usuários de canetas; especialistas comentam
“Rodízio Mounjaro”: restaurantes lançam menus para usuários de canetas; especialistas comentam

Começamos nossa conversa e eu abordei o medo de comer, da comida mesmo. Você confirmou que ele existe e queria agora que trouxesse os impactos desse comportamento, que talvez não estejamos nos dando conta

Ter medo da comida provoca na gente, como sociedade mesmo, mais isolamento. Primeiro, antes, é curioso o que vivenciamos. Temos uma sociedade que fabrica ultraprocessados, uma quantidade enorme de produtos alimentícios e estamos em um momento da humanidade de extrema produção de discurso sobre comida também. Nas redes, nos programas, na internet. Então a gente é apresentado à comida o tempo todo e, ao mesmo tempo, no mesmo instante, aparecem os discursos que incitam uma ‘proibição de comer, porque a comida é muito perigosa e pode fazer isso e aquilo’.

E hoje, além de estar em meio a esses dois polos, um que faz o produto alimentícios terem características para serem devorados, comidos em exagero - e o outro que reforça a dieta como padrão, ainda estamos em uma cultura que promove o isolamento. Cada um em seu celular, no seu quarto, na sua rede e sem contato físico. E esse comportamento de não poder comer, do comer ser errado ou desnecessário como vínculo, interfere na dinâmica. A gente estava acostumado a comer em volta da fogueira, em volta da mesa, a família reunida, os amigos. É uma perda social muito grande. E há, não podemos negar, um interesse político nesse isolamento. No caso da comida, que é um grande motor de reunião social e afetiva, temos uma perda social grande quando as pessoas deixam de fazer isso. E claro que essa diluição não é promovida exclusivamente pelas medicações, mas elas fazem parte desse cenário. Pois quando há conversas sobre o comer, elas focam “nos perigos que o comer errado pode trazer”. Se fala menos sobre a paixão pela comida, do tesão pela comida. A comida é uma grande obsessão. E grandes obsessões encobrem questões muito importantes.

Quais questões importantes podem cobrir?

O assunto comida como foco obsessivo é uma espécie de “assunto resistência”. A gente fica preso naquilo, e não consegue olhar para outras situações, outros componentes da cultura. Eu reitero que não sou contra as medicações, elas podem ser bem usadas, com prescrição, com acompanhamento e cumprem um papel para os pacientes que precisam dela. Melhoram mesmo a qualidade de vida deles. Mas é preciso um acompanhamento e um olhar integral também. Eu tenho pacientes, por exemplo, que relatam que perderam o prazer em comer. E ao perderem o prazer em comer, eles também perdem o prazer sexual, outros perdem o prazer com a vida de um modo geral. O apetite tem muito a ver com essa libido para vida, não é só pra comida. Então, em casos que temos impactos no paladar, há um impacto no prazer. Também - sem ser de forma generalizada - pode existir um aumento da irritação e do mau humor, associado ao comer. Por isso que eu defendo mesmo um uso controlado e supervisionado, porque mexer no prazer é muito complexo e importante. E também é preciso atenção para que não haja transferências de compulsões.

Pensado na questão das compulsões e também dos efeitos na saciedade, também podem existir alterações comportamentais quando perdemos ou delegamos o nosso mecanismo de saciedade?

Acho que essa uma reflexão muito boa. O que ocorre com a gente quando delegamos a nossa saciedade? E eu ainda não sei falar de todos os efeitos, porque a saciedade é uma sensação, um mecanismo muito complexo. Além do mais, a gente tem que levar em consideração que estamos todos, mais ou menos, comendo ultraprocessados, que são alimentos que alteram a qualidade da percepção do prazer. Eles são feitos pra serem comidos, em alguma medida, compulsivamente, com slogans do tipo ‘impossível comer um só’. Então, ao mesmo tempo em que nos submetemos a essa indústria, do outro lado temos as farmacêuticas produzindo medicamentos para a gente parar de comer. Levando isso em consideração, a saciedade é um sinal ainda muito difícil de ser interpretado, e os nossos corpos, eles estão sendo moldados por essas dinâmicas.

Para finalizar e entender um pouco da sua pesquisa e trabalho. Você cunhou esse termo “mentalidade de dieta” e trabalha com ele bastante. Como seu olhar foi fisgado para isso?

Foi da minha percepção na clínica e na minha história pessoal. Nos anos 90, quando comecei a receber pacientes jovens com bulimia e com uma restrição alimentar muito grande, entendi que aqueles casos poderiam ter contextos que não eram vistos e precisavam de outra visão. Eu mesma sempre fui considerada apta a dieta. Meus pais achavam que eu era uma criança gorda, que eu precisava emagrecer, e desde os 10, 11 anos, eles me levaram médicos que achavam uma boa ideia dar anfetamina para uma criança de 10 anos, o que hoje, ainda bem, não é mais tão aceito. Mas eu queria entender porque as mulheres, em especial, eram guiadas por essa necessidade de fazer dietas, porque elas nunca funcionavam e ao mesmo tempo não perdiam (as dietas) força. Ao mesmo tempo, eu não via que a psicanálise tinha uma resposta para isso. As respostas eram: prive-se, não coma, você não pode ter tudo, você tem excesso de princípio do prazer no seu cérebro, você tem que aprender a se conter e lidar com frustração. Eu não concordava e não sentia assim. Acho o prazer muito importante para qualquer coisa na vida e cortar o prazer tinha também uma necessidade de controle, em especial, das pessoas que tinham “o prazer” cortado. Aí, eu resolvi colocar as dietas no divã, porque eu queria uma resposta psicanalítica ao problema que eu via nos meus pacientes. O corpo, nessa época, já era uma coisa meio ‘franquistaniana’, olhado como um peito, uma cintura, uma bunda, uma carnificina, tudo separado. Eu queria integrar. Encontrei uma psicanalista chamada Susie Orbach, autora do “Gordura, uma questão feminista” e passei a lidar com a comida não como uma questão de dieta, mas especialmente um caminho de autoconhecimento.

Luciana Saddi é Psicanalista e escritora. Membro efetivo e Docente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Mestre em Psicologia pela PUCSP. Diretora de Cultura e Comunidade da Febrapsi (2026/2027). Autora de Educação para a Morte (Ed. Patuá) coautora dos livros Alcoolismo - série o que fazer? (Ed. Blucher) e Maconha: os diversos aspectos, da história ao uso. Fundadora do Grupo Corpo e Cultura.



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