Jamal e José: eles transformaram as pimentas em tradição familiar
No Mercado Kinjo Yamato, bem no epicentro paulistano, a pimenta está disposta em caixas, organizada por tipo, cor e intensidade, manuseada diariamente por quem aprendeu a conhecê-la no contato direto, repetido, paciente. Ali, a pimenta é trabalho, memória e conversa. Quem vende a iguaria é o José, dedicado, que superou há tempos o ardor que o manuseio provoca.
No outro canto da cidade, Jamal - médico nas horas cheias - pesquisou e aprendeu fazer molhos de pimenta especiais e exclusivos. Fizeram tanto sucesso que deixaram de ser só presentes para os queridos e conhecidos. “Apimentaram”, de vez, um novo braço de negócios de família.
Nas últimas duas semanas, Paladar se debruçou sobre as pimentas para produzir uma série especial sobre o alimento. E foi nessas andanças que a reportagem conheceu a dupla José e Jamal.
São duas trajetórias distintas, mas atravessadas pelo mesmo ingrediente, transformados por eles em tradição familiar.
Um chega pela pesquisa, pela cozinha e pela formulação de produtos; o outro, pela rotina, pela escuta e pela permanência no mercado. Em comum, a defesa de que ela é muito mais do que uma coadjuvante. Ela “é” o alimento.
Jamal Suleiman, médico infectologista e criador da Pimenta do Jamal, e José Carlos, o pimenteiro do Kinjo Yamato, herdeiro de uma banca que atravessa décadas. Duas figuras que ajudam a distribuir o sabor picante por São Paulo.
Confira:
Jamal Suleiman: o médico que ama pimentas
Jamal Suleiman nasceu em Aquidauana, no interior do Mato Grosso do Sul. Médico infectologista há mais de 30 anos, construiu sua trajetória profissional na área da saúde sem nunca se afastar da cozinha. A pimenta o acompanha desde a infância, como parte do cotidiano familiar.
Filho de pai palestino, cresceu em um ambiente em que a pimenta era base de sabor e conservação. “Lá em casa, pimenta era comida”, costuma resumir.
O aprendizado se deu pela observação: plantar, colher, secar, conservar. Não havia receitas escritas nem medidas fixas. Esse modo de transmissão — pelo gesto e pelo tempo — permanece como referência central em seu trabalho.
Durante a formação médica e a especialização em infectologia, Jamal manteve a cozinha como espaço paralelo de estudo. A pimenta nunca foi pensada apenas pela ardência. Aroma, equilíbrio e textura são elementos centrais. “As pessoas falam muito de força”, diz. “Mas pimenta tem gosto.”
A criação da Pimenta do Jamal aconteceu de forma informal. Em 2009, durante sua festa de aniversário, Jamal decidiu presentear os convidados com pequenos vidros de molho de pimenta dedo-de-moça com especiarias, uma receita tradicional de família. A reação foi imediata. “Era só um presente”, lembra. “Mas as pessoas começaram a pedir mais.”
Em 2010, a filha caçula identificou ali uma oportunidade de negócio e propôs estruturar a produção. Nascia a empresa familiar. As filhas e o genro assumiram o dia a dia da operação; Jamal permaneceu como criador e responsável pelos lançamentos, sem abandonar a medicina. “Nunca pensei em largar a profissão”, afirma. “A pimenta entrou como continuidade.”
Para Jamal, a pimenta funciona como fio condutor de uma trajetória construída com atenção e constância. “Ela sempre esteve ali”, diz. “Eu só aprendi a escutar.”
Jamal conta ser um “chef” autodidata desde os sete anos. E quando a pimenta virou negócio, tratou de sempre manter a inovação, permanecendo como o responsável pela criação de novos produtos. Já agregou “brasilidades” aos preparos, como a geleia de pimenta e cupuaçu e também a de pimenta com cachaça. E tem orgulho de dizer que há 15 anos fez da pimenta uma tradição que une família.
José Carlos: a banca como herança e rotina
A banca de pimentas do Kinjo Yamato teve apenas dois donos. Primeiro, um casal japonês que manteve o negócio ativo nas décadas de 1940 e 1950. Depois, a família de José Carlos. Seu pai era cliente frequente e acabou criando amizade com os antigos proprietários. Em determinado momento, ouviu que, quando viesse a aposentadoria, a banca seria passada adiante.
A transição aconteceu de forma abrupta. O antigo dono adoeceu, decidiu vender as bancas e faleceu poucos dias depois, deixando a gestão nas mãos do pai de José Carlos. Ele assumiu o negócio, cuidou dos funcionários e manteve a banca funcionando até o falecimento da antiga dona.
Com o passar dos anos, já idoso, começou a ter dificuldades para lidar com a rotina e chamou o filho para conversar.
José Carlos havia passado 39 anos trabalhando em uma multinacional. Próximo da aposentadoria, propôs assumir a banca junto com a esposa, Mari. As filhas já estavam crescidas, e a mudança parecia uma oportunidade de recomeço. Em 2017, o casal passou a tocar a banca.
O interesse pelas pimentas veio antes do trabalho diário. José Carlos visitava o pai esporadicamente e se encantava com as cores e as formas. Com o tempo, passou a aprender mais sobre ardência, aroma, sabor e variações. “Os clientes perguntam muito”, diz. “Então a gente aprende para poder explicar.”
A banca se tornou também uma forma de permanência ativa. José Carlos tem deficiência visual — aos 25 anos, enfrentou um tumor no cérebro — e sempre fez questão de continuar trabalhando. “Eu não queria ficar em casa sem fazer nada”, afirma. “A banca foi um presente.”
O contato com os clientes é parte central da rotina. Ele e Mari explicam, sugerem usos, contam diferenças entre variedades. Não por obrigação, mas por prazer. “Surpreende as pessoas”, diz. “Muita gente não conhece pimenta de verdade.”
O público é diverso: produtores de linguiça, confeiteiros, donos de restaurantes, clientes habituais. Alguns compram grandes quantidades para consumo próprio, fazem molhos, conservam. “Cada pessoa que passa aqui traz uma história”, afirma.
O trabalho diário moldou o corpo. No começo, as mãos ardiam por dias. Hoje, estão calejadas. “A gente até tentou usar luva”, lembra. “Mas atrapalhava.” Com o tempo, a dor passou a fazer parte do aprendizado.
José Carlos observa que o consumo de pimenta no Brasil ainda se concentra nos molhos prontos. “A maioria coloca só um pouquinho”, diz. Para ele, falta informação sobre o ingrediente e seus benefícios. O modelo da banca, baseado na conversa e na orientação direta, tenta preencher essa lacuna.
O pai é referência constante. “Ele tratava a banca como um filho”, lembra. O carinho pelo mercado e pelos clientes segue como parâmetro. Hoje, depois da pandemia, a rotina é mais enxuta. Ele e Mari se revezam na banca, mantendo o funcionamento com menos gente, mas com a mesma atenção.
Pimenta como trabalho e amor
Jamal Suleiman e José Carlos têm trajetórias distintas, mas compartilham uma relação semelhante com a pimenta. Para ambos, ela é ingrediente de trabalho, aprendido no tempo e na repetição.
Jamal se aproxima da pimenta pelo estudo, pela cozinha e pelos processos. José Carlos, pela rotina da banca, pela escuta e pelo contato diário com os clientes.
Um atua na formulação, o outro na mediação. Em comum, a defesa do sabor como experiência principal.
As histórias dos dois indicam um caminho para a pimenta: uma prática contínua — algo que se aprende, se compartilha e se mantém.
Serviço
Pimenta do Jamal atende pelo site e pela loja física no bairro de Perdizes (Rua Aimberê, 461). Abre de terça-feira a quinta-feira das 11h às 17h
Banca das pimentas do José funciona de Segunda-feira a sábado das 07h às 15h no Mercado Kinjo Yamato (R. Barão de Duprat, 400)
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