Bad Bunny, cozinha e vinho: quando a América Latina fala por si

Problema seu não gostar de “Dákiti” ou de “Me Porto Bonito”, mas Bad Bunny colocou a música latina definitivamente no centro da cultura pop. Se fosse na cozinha, estaria mais ou menos para um Gastón Acurio ou um Virgilio Martínez.

Cantando sobretudo em espanhol, ele provou que não é preciso recorrer ao inglês para alcançar o topo das paradas mundiais. Ao misturar reggaeton com trap, rock, pop e ritmos caribenhos, abriu espaço para uma expressão latina mais autoral e menos estereotipada.

Nas letras, acrescentou um posicionamento político claro, tratando de anticolonialismo, desigualdade social e violências de gênero. Ao afirmar a identidade porto-riquenha e denunciar relações de dependência e apagamento cultural, Bad Bunny leva temas historicamente marginalizados a uma audiência global.

Nesse sentido, embora ambos os cozinheiros peruanos citados aí acima sejam cruciais para a história da gastronomia, Virgilio — muito mais punk rock do que “salsero” — estaria mais para “coelhinho mau”.

O casal de chefs peruanos, Pía León e Virgilio Martínez, comanda o melhor dos melhores: o Central, em Lima
O casal de chefs peruanos, Pía León e Virgilio Martínez, comanda o melhor dos melhores: o Central, em Lima

O chef do Central, já eleito melhor restaurante do mundo, e do Mater Centro de Investigación, deu voz a um país pequeno sem recorrer ao clichê do ceviche. Com cushuru, cacau, batatas, jogos de altitude e variações de temperatura, preferiu ressaltar a impressionante diversidade de biomas resultante do encontro entre o oceano Pacífico, a Cordilheira dos Andes e a Amazônia.

Percorreu, literal e gastronomicamente, o deserto costeiro, os Andes — com a puna e as florestas nubladas —, a selva densa, os rios volumosos, os bosques secos. E se bastou nesse infinito particular, sem recorrer aos modelos eurocêntricos que a gastronomia costuma impor mundo afora. Do umbigo peruano elaborou seu próprio léxico culinário. Outra revolução latina até dizer chega. Outro anticolonialismo até dizer chega.

Algo semelhante ao que a doutora em História por Oxford e herdeira da Bodega Catena Zapata, Adrianna Catena, vem fazendo no universo do vinho. Longe de opor Velho e Novo Mundo em garrafas, ela desenvolve projetos que celebram identidade cultural e a centralidade do terroir. Para ela, o vinho é uma ponte entre gerações: cada rótulo pulsa e carrega sua própria narrativa. Como documento vivo, preserva a memória de um solo, de uma época, de um povo.

Adrianna Catena
Adrianna Catena

Assim como Virgilio não faz apenas comida, a argentina não faz apenas bebida. Ambos falam de pertencimento, dão aulas de filosofia, arte e política. É aí que está o ponto: enologia e gastronomia discutem o mundo e sua circularidade — mas seguem menos acessíveis do que os hits que tocam no rádio.



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