Em constante evolução, o CEPA consolida sua cozinha autoral em Pinheiros

 Lucas Dante e Gabrielli Fleming, do Cepa | foto: Felipe Rau
Lucas Dante e Gabrielli Fleming, do Cepa | foto: Felipe Rau

São Paulo é uma cidade que muda o tempo todo. Restaurantes abrem e fecham num ritmo quase acelerado demais, como se cada novidade precisasse ocupar imediatamente o espaço da anterior. Ainda assim, de tempos em tempos, surgem casas que passam outra sensação, a de permanência. Lugares que parecem feitos para atravessar fases e, no futuro, serem lembrados com peso de tradição.

O Cepa pertence a esse grupo.

Desde a abertura no Tatuapé, em março de 2019, o Cepa se destacou por construir um caminho próprio dentro da gastronomia brasileira contemporânea. Nada ali depende de fórmulas fáceis e o restaurante cresceu com identidade, profundidade e técnica.

A mudança para Pinheiros, no segundo semestre de 2024, não representou apenas um novo endereço, mas um novo estágio, mais maduro, mais seguro, mais consciente do que o Cepa se tornou. A escolha do bairro também aproxima fisicamente a casa de um público que já a acompanhava, já que grande parte dos clientes atravessava a cidade para almoçar ou jantar na Zona Leste.

Agora, o Cepa está em um canto tranquilo na Praça dos Omaguás, protegido do ruído (às vezes bem incômodo) de Pinheiros, mas no centro da atenção gastronômica de São Paulo (ou melhor, do Brasil).

O novo espaço, que por falha minha só visitei recentemente, é maior e mais confortável. A cozinha ganhou fôlego, com mais área de trabalho, estrutura para maturação de carnes, uma confeitaria dedicada e capacidade ampliada para sobremesas e sorvetes, algo que se sente na experiência final.

 Desde o fim de 2024, o Cepa funciona em Pinheiros, vindo do Tatuapé | foto: Felipe Rau
Desde o fim de 2024, o Cepa funciona em Pinheiros, vindo do Tatuapé | foto: Felipe Rau

Lucas Dante conduz tudo com precisão e personalidade. Seu trabalho revela domínio de fogo, produto e acidez, sempre com um senso admirável de equilíbrio e ousadia. Há criatividade, mas também fundamento.

No salão, Gabrielli Fleming assina um dos grandes trunfos do restaurante, a experiência bebível (se é que este termo existe). A carta do CEPA estimula descoberta e hoje o restaurante conta com ainda mais espaço de adega para ampliar essa disponibilidade.

E a taça acompanha essa proposta. Na última semana, passaram pelo serviço excelentes vinhos como o Tinta Negra dos Villões, Vinho D.O. Madeirense de António Maçanita e Nuno Faria, além do Grumello Sant'Antonio Riserva 2016, da Ar.Pe.Pe. Até a cerveja segue esse mesmo espírito: a Trilha Melonrise apareceu como pausa leve entre pratos, mostrando que aqui nada é escolhido por acaso.

Nos coquetéis, provei o excelente o Acayu, criação da bartender Emile Freire, feito com caju, cachaça envelhecida em amburana, castanha de caju e mel. Uma releitura refinada do clássico, porém muito mais elegante e equilibrado.

A comida confirma por que o CEPA se tornou referência.

 O arroz meloso de trilha, feito em porções limitadas, costuma acabar | foto: Felipe Rau
O arroz meloso de trilha, feito em porções limitadas, costuma acabar | foto: Felipe Rau

O pastel de queijo Comté, com cebola e vinagre de Jerez, permanece como assinatura incontornável. O peixe cru do dia, no caso um dourado, chegou acompanhado de gema mole, creme de alho poró e o sal delicado das ovas, num prato construído sobre textura e suavidade. Já o crudo de gado curraleiro reforça a centralidade dos ingredientes brasileiros, servido com anchova cantábrica e brioche, combinação que une potência e delicadeza. A língua de wagyu aparece imersa em caldo de galinha, com quiabo e hortelã, é uma aula de camadas e contraste. E por aí vai a aula de genialidade, que obrigatoriamente precisa encerrar com o arroz meloso de trilha, feito em porções limitadas, que foi o ponto alto do jantar.

O nome do restaurante também carrega uma imagem bonita. Cepa é palavra ligada ao vinho e à videira, é raiz, tronco, origem. Aquilo que sustenta e permite que o restante cresça. E o Cepa tem exatamente essa natureza, uma cozinha que não vive de superfície, mas de fundamento, de base, de raiz.

São Paulo muda rápido demais, mas algumas casas parecem feitas para atravessar o tempo. E quando a cidade olhar para trás, o Cepa provavelmente estará entre aqueles restaurantes que primeiro viraram referência, e depois, clássico.

Serviço: Restaurante Cepa Praça dos Omaguás, 110, Pinheiros Funcionamento: Terça a quinta: 19h às 23h | Sexta e sábado: 12h às 16h ·e 19h às 23h

@restaurante.cepa



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