Rosé merece ser levado a sério, e a Provence ajuda a entender por quê
Duas grandes maisons ajudam a entender a força do rosé da região

Existe uma certa injustiça histórica com o vinho rosé. Durante muito tempo, ele foi tratado como uma categoria menos séria do que tintos e brancos, quase sempre associado ao verão, à piscina e à praia, como se fosse um vinho para beber sem prestar atenção.
E ainda existe o estereótipo de que rosé seria um vinho mais feminino. A própria associação já parte de uma ideia ultrapassada de que certos gostos pertenceriam a homens ou mulheres, e fica ainda mais absurda quando é usada para diminuir a bebida, sobretudo num universo em que as mulheres fazem um trabalho de destaque, da viticultura e da enologia à sommellerie, do serviço ao comando de grandes vinícolas e importadoras.
No Brasil, há também uma explicação histórica para parte da má fama da categoria. Como me explicou Mateus Turner de Godoy, diretor de Private & Provence Rosé da Moët Hennessy, durante muito tempo muitos brasileiros conheceram rosés por rótulos mais doces, levemente frisantes e baratos, o que ajudou a criar a impressão de que rosé seria, por definição, um vinho de qualidade inferior.
"Ainda existe esse estereótipo de que rosé é vinho de mulher, mas também existe um preconceito ligado à própria história da categoria no Brasil, que durante muito tempo foi construída com vinhos levemente doces, frisantes e baratos", diz Mateus. "Da mesma forma que existem bons e maus tintos e brancos, existem bons e maus rosés".
Foi por isso também que aproveitei uma viagem recente pelo sul da França para visitar Château d'Esclans e Château Minuty. Mais do que conhecer duas propriedades famosas, queria entender, no lugar onde esses vinhos nascem, por que a Provence conseguiu dar ao rosé uma identidade tão própria.
A primeira resposta está na origem. Os Vins de Provence reúnem três grandes denominações protegidas, Côtes de Provence, Coteaux d'Aix-en-Provence e Coteaux Varois en Provence, e aproximadamente 90% da produção é de rosé. Mateus chama atenção para o grau de especialização que isso produziu ao longo do tempo. "Você tem o vento marítimo do Mediterrâneo trazendo frescor para as vinhas, uma região focada em vinhos rosés e produtores que são especialistas em fazer isso."
A ideia é justamente essa, não basta produzir um vinho muito claro e reproduzir a aparência provençal. Por trás daquele estilo existem território, variedades, regras e, principalmente, gerações de conhecimento acumulado.

No Château d'Esclans, essa especialização ganhou ainda mais ambição quando Sacha Lichine comprou a propriedade, em 2006, decidido a mostrar que rosés também poderiam ocupar o território dos grandes vinhos. Whispering Angel acabou se tornando o rótulo mais conhecido da maison, mas, ao chegar ao topo da gama, reencontrei meu rosé favorito, o Garrus.
Garrus é quase uma provocação para quem acha que já sabe o que esperar de um rosé. Elaborado com Grenache e Rolle, nome local da uva Vermentino, ele fermenta e amadurece por onze meses em grandes barricas de carvalho francês, com um perfil bastante distante da imagem mais convencional da categoria.
Na taça, Garrus mostra justamente até onde um grande rosé pode chegar. Há textura, estrutura, presença da madeira e frescor, com uma complexidade que em alguns momentos me lembrou grandes brancos de alta gama, mas sem perder sua identidade.
Não gosto de decretar qual seria o melhor rosé do mundo, porque vinho não precisa desse tipo de campeonato para ser extraordinário. Mas Garrus certamente pertence à pequena turma que pode entrar nessa conversa, acumulando avaliações acima dos 90 pontos de publicações como Wine Advocate e Wine Spectator, além de notas ainda mais altas de críticos como James Suckling.
Minuty segue por outro caminho, e foi isso que tornou as duas visitas tão interessantes. Fundada em 1936 e instalada em Gassin, perto de Saint-Tropez, a maison tem uma ligação evidente com o Mediterrâneo e com uma maneira mais descontraída de beber vinho.
Ali, meu favorito é o Château Minuty 281. De perfil mais direto que Garrus, tem bastante frescor e uma salinidade que imediatamente me faz pensar em comida, daqueles vinhos que combinam com um almoço longo sem precisar chamar atenção a cada gole.
O próprio nome reforça essa ligação com o lugar. Criada em 2015, a cuvée leva o número do Pantone 281, azul profundo escolhido para a garrafa como homenagem ao Mediterrâneo, enquanto suas uvas vêm de uma seleção de parcelas próximas ao mar.

Há também uma história empresarial importante por trás dessas duas casas. Em 2019, Château Galoupet e Château d'Esclans entraram para o portfólio da LVMH e, em 2023, foi a vez de Minuty, reunindo três importantes maisons provençais de rosé em apenas quatro anos.
Galoupet ainda é menos conhecido pelo público brasileiro, mas essa sequência de aquisições mostra que a aposta na categoria está longe de ser lateral. Alexandre Arnault, que hoje divide o comando da Moët Hennessy com Jean-Jacques Guiony, afirmou neste ano que a companhia organizou suas prioridades em quatro pilares, Champagne, Cognac, Whisky e Rosé.
No Brasil, onde os resultados da categoria em 2025 superaram as expectativas da companhia, a estratégia passa também por mudar a maneira como esses vinhos são apresentados ao consumidor. A intenção é ampliar distribuição e presença, mas também associar Provence a ocasiões diferentes, de refeições mais sofisticadas a encontros descontraídos.
"A estratégia passa primeiro por ensinar o consumidor o que é rosé e depois o que é a Provence", explica Mateus. "Queremos trabalhar cada vez mais com um olhar de lifestyle, como se trabalha Champagne e grandes marcas de luxo, com um estilo de consumo e uma comunicação próprios".
Gosto dessa lógica porque vinho pode ser estudado profundamente sem precisar ser tratado com solenidade. Dá para entender terroir, safra e técnica e, ao mesmo tempo, simplesmente abrir uma garrafa para comer, conversar e passar algumas horas à mesa.
Mateus tem uma imagem melhor para isso do que qualquer aula. "Eu brinco que ainda existe a piada quando você leva um vinho rosé num churrasco de amigos, mas, por mais que exista a piada, é o primeiro vinho a acabar, pelo frescor, pela leveza e pela elegância.
Talvez esteja aí a melhor maneira de combater o preconceito com rosé. Não é dizendo que todo mundo precisa gostar, mas colocando bons vinhos na taça e deixando que eles falem por si.
Voltei da Provence querendo continuar bebendo tintos, brancos, Champagne e tudo aquilo de que sempre gostei, mas também querendo colocar mais rosés à mesa. Reencontrar Garrus e Minuty 281 nos lugares onde eles nascem apenas reforçou uma convicção antiga: vinho bom não tem gênero, não precisa de desculpa e merece ser levado a sério, inclusive quando é rosa.
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