De bares de chope a cozinhas de todo tipo, Moema amplia seu mapa gastronômico
Há uma hora do dia em que Moema parece ter sido desenhada para comer. As ruas arborizadas começam a ganhar movimento, moradores descem dos prédios, mesas ocupam calçadas e restaurantes que estavam discretos durante a tarde acendem as luzes. Em uma mesma caminhada, é possível passar por uma casa de chope, uma pizzaria, uma cantina italiana, um restaurante português, uma parrilla e uma cozinha mais contemporânea. O bairro tem uma gastronomia menos marcada por uma especialidade do que pela quantidade de opções à disposição de quem mora ali.
Essa variedade, porém, não apareceu de uma hora para outra. Durante décadas, Moema construiu sua reputação em torno de bares, restaurantes familiares, pizzarias e casas de cozinhas italiana e árabe. Havia também uma forte presença de bares de chope com influência alemã, que ajudaram a definir a vida noturna da região a partir dos anos 1980 e 1990.
Quando o Bar Original abriu, em 1996, encontrou esse cenário. “Foi do Johan Sehn, inclusive, que veio a primeira chopeira do Original”, lembra Ricardo Garrido, sócio-criador do bar, que completa três décadas de funcionamento no bairro. Naquele momento, casas como A Estalagem, Konstanz, Zillerthal, Zur Alten Mühle, Windhuk e Johan Sehn ajudavam a formar uma espécie de circuito cervejeiro da Zona Sul.

A própria Avenida Ibirapuera era outro ponto de encontro, com pistas de patinação, casas noturnas e espaços dedicados ao samba. Moema tinha uma vida noturna movimentada, mas ainda preservava uma escala bastante residencial. Comer fora significava, muitas vezes, recorrer às casas conhecidas da vizinhança.
Um bairro que ganhou moradores e restaurantes
O cenário foi mudando conforme Moema se verticalizou. Casas deram lugar a edifícios, surgiram apartamentos compactos ao lado de empreendimentos de alto padrão e a população do bairro ficou mais heterogênea. Em 2018, a chegada das estações Moema e Eucaliptos da Linha 5-Lilás acrescentou uma nova ligação com outras regiões da cidade.
O movimento imobiliário não explica sozinho a transformação, mas ajuda a entender por que tantos restaurantes passaram a olhar para o bairro. Moema está perto do Parque Ibirapuera, do Aeroporto de Congonhas e de importantes eixos empresariais da Zona Sul. Ao mesmo tempo, mantém uma característica valiosa para quem trabalha com gastronomia: moradores que caminham, fazem compras e comem perto de casa.
“Moema sempre foi um bairro muito gastronômico, com um público de poder aquisitivo alto e que gosta de bons restaurantes”, diz Gustavo Brunello, sócio da La Braciera. Para ele, depois de um período em que bairros como Itaim e Vila Olímpia concentraram parte dos novos projetos gastronômicos, Moema voltou a ganhar força com a chegada de empreendimentos residenciais de alto padrão e a expansão do eixo gastronômico da Zona Sul.

No restaurante, ele percebe uma combinação entre públicos. Há famílias que vivem no bairro há décadas e frequentam as mesmas casas com regularidade, mas também moradores mais jovens que chegaram com a nova leva de edifícios. “Você continua tendo famílias tradicionais, que moram ali há muitos anos e são clientes extremamente recorrentes, mas também houve a chegada de novos empreendimentos, flats, apartamentos menores e prédios corporativos nas regiões próximas. Isso trouxe um público mais jovem, antenado e que consome bastante gastronomia”, afirma.
É uma característica importante de Moema: o restaurante não depende apenas do visitante ocasional. A proximidade da casa com o prédio onde o cliente mora ajuda a criar uma relação mais cotidiana. O almoço de domingo, o jantar de quarta-feira, o chope depois do trabalho e o café da tarde entram na rotina.
Mais cozinhas na mesma vizinhança
Diego Sacilotto, chef do Mercato San Vincenzo, recém-inaugurado no Shopping Ibirapuera, também percebe a mudança. “A região mudou bastante nos últimos anos. O boom imobiliário trouxe novos moradores e, ao mesmo tempo, São Paulo viveu uma evolução gastronômica muito forte, que naturalmente acabou influenciando o entorno”, afirma.
A consequência é uma clientela que chega com repertório maior. “Hoje, existe mais repertório, mais curiosidade e também mais abertura para novos conceitos”, diz.
O Mercato traduz um pouco dessa mudança. Em vez de apostar em uma leitura grandiosa da cozinha italiana, a casa trabalha com uma Itália mais cotidiana, entre massas, sanduíches e pratos para diferentes horários. É uma proposta que conversa com um bairro acostumado a comer fora, mas que hoje encontra muito mais possibilidades.
No Chiado, restaurante português de Miguel C. Bettencourt, a percepção é parecida. “Moema sempre teve uma vida gastronômica forte, mas hoje a oferta está muito mais diversificada. Antigamente, por exemplo, havia uma presença muito grande de restaurantes japoneses. Agora vemos diferentes cozinhas e propostas chegando ao bairro”, afirma.
É uma mudança que também pode ser percebida em restaurantes que chegam a Moema vindos de outros bairros. O Ogni Giorno, que nasceu no Real Parque há oito anos e agora abriu uma segunda unidade na Avenida Jurema, escolheu a região justamente pela combinação entre novos moradores e um público acostumado a buscar qualidade à mesa.

“Moema é um bairro vibrante, com um circuito gastronômico que se renova rapidamente e atrai pessoas de diversas regiões de São Paulo”, dizem os sócios Marco Freire e Rony Suplicy. A nova unidade mantém a proposta italiana da primeira casa, mas aposta em um cardápio versátil, com menu executivo para o almoço e ambientes pensados tanto para reuniões quanto para refeições mais longas.
A chegada do Ogni Giorno também mostra que a nova fase de Moema não é formada apenas por pequenos negócios independentes. Há espaço para grupos que já têm uma operação consolidada em outras partes da cidade e enxergam no bairro uma oportunidade de expansão.
Outro exemplo está na Rua Normandia. No mesmo endereço onde os irmãos Renato e Vitor mantêm o Philippe, restaurante de inspiração francesa que está no bairro há mais de duas décadas, nasceu o Basq. A casa dos mesmos proprietários olha para a cozinha basca, com pratos para compartilhar, arrozes feitos na brasa e um ambiente mais descontraído.
O chef Gustavo Série chegou ao projeto depois de passagens por restaurantes do Piemonte, na Itália. E a escolha do bairro chamou sua atenção justamente pela possibilidade de trabalhar fora dos eixos mais óbvios da gastronomia contemporânea. “Moema sempre foi conhecida por restaurantes com uma proposta mais familiar, mais tradicional. Me animei por fazer parte de um projeto que fugisse das zonas mais conhecidas por conter restaurantes contemporâneos. Vejo um grande potencial de crescimento para o bairro”, afirma.

No Basq, essa mudança aparece no prato. A ideia de compartir leva à mesa croquetas, pan con tomate, cogumelos e arrozes bascos preparados na brasa. O Arroz Basco de Brasa, com sobrasada, ervilha-torta, polvo e aioli, é um dos pratos mais representativos da casa. O Galeto na Brasa, meio frango assado no carvão com alface romana, molho caesar, parmesão e crostini, segue outra linha: parece simples, mas depende da execução.
Poucas quadras dali, o Provador leva essa busca por experiências para outro ambiente. Escondido nos fundos da alfaiataria de Alexandre Won, o bar tem apenas 11 lugares, não trabalha com cardápio fixo e deixa a construção dos drinques nas mãos do bartender Ryu Komorita. É uma operação pequena e deliberadamente discreta, mas que ajuda a mostrar até onde a oferta de Moema se diversificou.
Ali, o cliente pode beber um Martini San, com shochu, vermute, Cocchi Americano e bitters, ou um Great Ball on Fire, feito com tequila, jerez, limão e um xarope de missô, mel e gochujang. A experiência está menos em escolher uma bebida de uma lista e mais em acompanhar a preparação no balcão.

A verticalização chega à mesa
A transformação imobiliária, naturalmente, também tem seus efeitos colaterais. Obras, caminhões, trânsito e alterações no acesso fazem parte da rotina de um bairro que ainda tem muitos terrenos e imóveis em transformação.
No caso do Beco Hexagonal, a verticalização chegou diretamente ao negócio: foi a aquisição do imóvel por uma construtora que provocou a mudança de endereço. Talita de Oliveira e Silva, sócia da casa, diz que o processo trouxe desafios, mas também vê o potencial de longo prazo da chegada de novos moradores.
“São muitos novos empreendimentos e, consequentemente, novos moradores chegando ao bairro. Isso aumenta o público potencial para o comércio, para os serviços e para a gastronomia local”, afirma. Para ela, o desafio está em preservar justamente aquilo que faz Moema funcionar como bairro: comércio, restaurantes, serviços e vida nas ruas.
No Chiado, Bettencourt também enxerga a verticalização principalmente pelo lado da demanda. “Onde antes havia uma casa com cinco ou seis moradores, hoje pode existir um prédio com centenas de pessoas. Para um restaurante, naturalmente isso representa potencial maior de clientes”.
Essa relação entre novos moradores e antigos frequentadores ajuda a explicar por que a gastronomia de Moema não precisou abandonar os endereços que já faziam parte da paisagem. O Bar Original chega aos 30 anos, a Galeteria mantém a tradição dos assados, a Windhuk, que precisou se mudar, ainda preserva a cozinha alemã e casas italianas como Don Pepe Di Napoli e La Nonna di Lucca continuam atraindo clientes.

Ao mesmo tempo, há espaço para parrillas, restaurantes portugueses, cozinhas contemporâneas, bares especializados em cerveja, hamburguerias, cafés e lojas de chocolate.
O bairro como circuito gastronômico
Talvez seja justamente essa mistura que melhor defina a gastronomia de Moema hoje. O bairro não depende de um endereço ou de uma cozinha para se explicar. Há restaurantes que fazem parte da memória local e outros que chegaram recentemente, mas todos se beneficiam de uma característica comum: existe gente morando e circulando por perto.
É possível começar o almoço com um galeto assado, passar algumas horas no Parque Ibirapuera, tomar um café, comprar chocolate para levar para casa e terminar o dia diante de uma parrilla. Ou simplesmente sair do prédio, caminhar algumas quadras e escolher entre uma pizza, um chope, uma massa ou um drinque preparado sob medida.
Para Brunello, essa é justamente a força do momento atual. “Moema já tinha uma base muito forte e tradicional e agora está passando por um processo de renovação sem perder essa característica. Para quem está no setor de gastronomia, é um movimento muito interessante de acompanhar”, afirma.
Onde comer em Moema
Bar Original
Aberto em 1996, o Original é um dos endereços fundamentais para entender a história recente de Moema. O chope continua sendo protagonista, mas a cozinha sustenta a mesa com petiscos como a Coxinha Original e a Besteira à Milanesa, canapé de filé-mignon empanado com queijo derretido.
Onde: R. Graúna, 137, Moema. (11) 2299-5336. seg. a qua., 17h/0h; qui., 17h/1h; sex., 12h/2h; sáb., 12h/2h; dom., 12h/19h. Instagram: @baroriginal

Galeteria Assados
Aberta desde 1987, a Galeteria começou na Avenida Macuco e depois mudou para um espaço maior. O galeto continua sendo a estrela, temperado com vinho branco e ervas e servido com osso, desossado, na brasa ou crocante. É um endereço que traduz bem a cozinha farta e direta que ajudou a formar o repertório gastronômico de Moema.
Onde: Av. Miruna, 561, Moema. (11) 5542-4529. seg. a sáb., 11h/23h; dom. e feriados, 11h/21h. Instagram: @agaleteriaassados
Costelaria É o Ponto
A casa da Avenida dos Imarés é uma parada para quem procura carne em porções fartas. O rodízio de costela é a principal atração, acompanhado por guarnições variadas. É outro representante da Moema tradicional, de restaurantes pensados para famílias e grupos.
Onde: Av. dos Imarés, 758, Moema. (11) 5542-3665. seg. a qui., 11h30/16h; sex. e sáb., 11h30/18h; dom., 11h30/18h. Instagram: @costelariaeoponto
Windhuk
O Windhuk é um dos remanescentes da tradição alemã que ajudou a formar a vida boêmia do bairro. No salão de madeira, aparecem pratos como joelho de porco, salsichas, kassler e chucrute. É uma casa importante para entender a Moema anterior à atual onda de restaurantes.
Onde: Alameda Jauaperi, 1343 - Moema. (11) 5044-2040. ter. a sex., 11h30/15h e 17h30/23h; sáb., 11h30/23h; dom., 11h30/18h. Instagram: @restaurantewindhuk
Don Pepe Di Napoli
Com massas, pizzas e pratos generosos, o Don Pepe é uma das casas italianas que ajudam a contar a história gastronômica do bairro. O filé à parmegiana e o nhoque à Francisco Paolo estão entre os pratos lembrados pelos frequentadores. A casa fica na Alameda dos Arapanés, perto da estação Moema.
Onde: Alameda dos Arapanés, 955, Moema. (11) 5055-3215. seg. a sex., 12h/15h30 e 18h30/23h45; sáb., 12h/23h45; dom., 12h/22h45. Instagram: @donpepedinapoli
La Braciera
A pizzaria representa uma das tradições mais fortes da gastronomia paulistana e encontra em Moema um público ligado à recorrência. Para Gustavo Brunello, sócio da casa, esse cliente tradicional convive hoje com moradores mais jovens que chegaram com a verticalização recente.
Onde: Av. Moema, 594, Moema. 94114-1120. 18h/23h. Instagram: @labracierapizza.

La Nonna di Lucca
A casa da Rua Gaivota trabalha com massas, carnes e clássicos italianos em porções generosas. É o tipo de restaurante que ajuda a mostrar como a cozinha italiana permanece central no repertório de Moema, mesmo com a chegada de propostas mais contemporâneas.
Onde: R. Gaivota, 689, Moema. (11) 5051-6193. seg. a qua., 12h/15h e 18h30/23h; qui., 12h/15h e 18h30/23h30. sex., 12h/15h e 18h30/23h45; sáb., 12h/17h e 18h30/23h45; dom., 12h/17h e 18h30/22h. Instagram: @lanonnadilucca.
Chiado
O restaurante comandado por Miguel C. Bettencourt representa uma das cozinhas que ganharam espaço em um bairro antes muito identificado com restaurantes japoneses, italianos e bares. A casa aposta na cozinha portuguesa e ajuda a ampliar o repertório da região.
Onde: Av. Jurucê, 776, Indianópolis. (11) 5041-5276. Horários: ter., 12h/15h30; qua. e qui., 12h/15h30 e 19h/22h. sex., 12h/15h30 e 19h/22h; sáb., 12h/17h e 19h/22h; dom., 12h/17h30; seg., fechado. Instagram: @chiadobarerestaurante.

Ogni Giorno
A segunda unidade do restaurante italiano que nasceu no Real Parque chegou a Moema com a intenção declarada de atender um público parecido com o da primeira casa. O cardápio mistura clássicos italianos e intervenções contemporâneas, com menu executivo no almoço. A casa também tem parceria com o Empório Matarazzo, que fornece parte dos ingredientes e vinhos da operação.
Onde: Av. Jurema, 325, Moema. (11) 92484-0232. seg. a sex., 12h/15h e 19h/23h; sáb., 12h/16h e 19h/23h; dom., 12h/17h30. Instagram: @ognigiornocucina
Basq
No mesmo endereço do Philippe, na Rua Normandia, o Basq leva a cozinha basca para um salão mais descontraído. A proposta gira em torno de pratos para compartilhar, com destaque para os arrozes feitos na brasa. O Arroz Basco de Brasa leva sobrasada, ervilha-torta, polvo e aioli; o Galeto na Brasa é outro prato que vale a visita.
Onde: R. Normândia, 17, Moema. (11) 5533-5700. ter. a qui., 12h/16h e 19h/23h; sex. e sáb., 12h/23h30; dom., 12h/18h. Instagram: @basq.sp

Provador
Nos fundos do ateliê de Alexandre Won, o Provador tem apenas 11 lugares e não trabalha com cardápio fixo. Ryu Komorita, campeão do World Class Brasil 2024, prepara os drinques a partir da conversa com o cliente. O Martini San, com shochu, vermute, Cocchi Americano e bitters, é uma das criações da casa.
Onde: R. Normândia, 76, Moema. ter. a sáb., 17h/20h e 20h30/23h. (11) 92584-1809.
Beco Hexagonal
Nascido em Moema em 2021, o Beco mistura gastronomia e entretenimento. A casa mudou da Rua Gaivota para a Avenida Pavão depois que o imóvel original foi adquirido por uma construtora, mas os sócios decidiram permanecer no bairro. É um exemplo de restaurante que construiu uma relação forte com a vizinhança.
Onde: Av. Pavão, 577, Moema. 04516-012. (11) 2667-2397. ter. a qui., 18h/22h; sex. e sáb., 18h/23h; dom., 13h/20h30; seg., fechado.
Mercato San Vincenzo
No Shopping Ibirapuera, o restaurante de Diego Sacilotto trabalha com uma Itália menos cerimoniosa, entre massas, panini e pratos para diferentes horários. O Panini de Prosciutto e o Caramelle de Ricotta Affumicata são alguns dos destaques do menu.
Onde: Av. Ibirapuera, 3103, Shopping Ibirapuera, piso Jurupis, Moema. todos os dias, 11h30/22h. Instagram: @mercatosanvincenzo
Câmara Fria
Escondido atrás de uma antiga porta de câmara fria, o bar tem dez torneiras de chope artesanal e mais de 20 rótulos. As pizzas autorais acompanham as cervejas; a Cuesta Azul leva mussarela, queijo azul, rúcula, tomate e calda caramelizada no chope escuro.
Onde: R. Graúna, 137, Moema. qua., 18h/0h; qui., 18h/1h; sex. e sáb., 18h/2h. Instagram: @camarafria

Chocolat du Jour
A marca fundada em 1987 por Claudia Landmann mantém loja em Moema, com as Truffes du Jour entre os produtos mais conhecidos. Também há barras e outros chocolates para quem quiser incluir uma parada doce no circuito.
Onde: R. Gaivota, 1198, Moema. seg. a sex., 11h/20h; sáb., 11h/19h; dom. e feriados, 11h/17h. Instagram: @chocolatdujour

from Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo https://ift.tt/uSciZG1
via IFTTT

Comentários
Postar um comentário