Como o Astor apostou no Gin Tônica antes de virar febre em São Paulo

Uma viagem à Europa inspirou a carta que ajudou a ampliar o espaço do gin nos bares paulistanos


Classic, a primeira versão de Gin Tônica a estrelar na carta do Astor | foto: Divulgação
Classic, a primeira versão de Gin Tônica a estrelar na carta do Astor | foto: Divulgação

Hoje parece absolutamente normal entrar em um bar em São Paulo e encontrar uma boa seleção de gins atrás do balcão, com diferentes tônicas, botânicos, frutas e especiarias. Mas houve um tempo, não tão distante assim, em que Gin Tônica estava longe de ser uma escolha óbvia por aqui, e é justamente por isso que a história do Astor com o coquetel me parece tão interessante.

Em 2012, quando o gin ainda tinha pouca presença nos bares brasileiros, o Astor resolveu apostar de verdade nele e criou uma carta dedicada ao clássico. A ideia nasceu depois de uma viagem de Edgard Bueno da Costa, sócio do bar, a Madri e Londres, entre 2011 e 2012, quando ele percebeu que o cenário por lá era completamente diferente do que encontrávamos no Brasil.

Em Madri, o Gin Tônica já vivia um grande momento e aparecia em diferentes interpretações, enquanto Londres tinha um mercado muito mais desenvolvido em torno do destilado. Mais do que o sucesso do drinque, Edgard voltou impressionado com a quantidade de rótulos disponíveis, numa época em que por aqui Tanqueray, Gordon's e poucos gins brasileiros praticamente resumiam as opções.

Naquele momento, coquetéis à base de vodka e whisky ocupavam muito mais espaço nos bares brasileiros. Edgard voltou para São Paulo com aquela ideia na cabeça, começou a pesquisar os botânicos presentes nos diferentes gins e passou a testar combinações em casa, inclusive com ingredientes que havia trazido da viagem.

"Eu não sou bartender, mas comecei a brincar com isso em casa", conta. Depois de selecionar cinco ou seis combinações, levou os testes ao SubAstor e passou a trabalhar com o bartender Pereira para transformar aquelas experiências domésticas em drinques que pudessem efetivamente entrar no cardápio.

Foi em uma tarde no SubAstor que aquela primeira carta tomou forma e, olhando hoje, é curioso perceber como algumas combinações que nos parecem bastante naturais tinham outro impacto naquela época. Lançada em 2012, ela reunia seis versões de Gin Tônica, cada uma explorando um rótulo e ingredientes diferentes.

O Classic levava Tanqueray, bitter de laranja, sementes de zimbro esmagadas, limão e grapefruit. Já o Rose Cucumber era feito com Hendrick's, água tônica, bitter Burlesque, pepino e pétalas de rosa, enquanto outras receitas utilizavam Bulldog, Tanqueray Ten e Gin Saffron, com ingredientes como anis-estrelado, canela, abacaxi e açafrão.

Mais do que colocar vários Gin Tônicas na carta, o Astor apresentava ao público uma ideia que ainda não era tão difundida por aqui, a de que diferentes gins tinham características próprias e podiam resultar em drinques bastante distintos. Parece óbvio hoje, mas não era naquela São Paulo de 2012.

E a resposta veio rápido. Os coquetéis começaram a sair em sequência do balcão, a novidade chamou a atenção da imprensa e não demorou para propostas semelhantes começarem a aparecer em outros bares da cidade. "Foi um furor, um sucesso estrondoso mesmo. Começaram as cópias dos clones em outros bares e virou uma coqueluche em São Paulo", diz Edgard.

O sucesso fez com que o projeto continuasse evoluindo. A segunda carta ampliou a variedade de rótulos, com Beefeater, Bombay Sapphire e Gin Mare, além de novas combinações com lavanda, pêssego, gengibre e cardamomo.

Na terceira, a experimentação avançou ainda mais, com ingredientes como açaí, iquiriba, maxixe, kombu, matcha e capim-santo. As cartas também passaram a explorar bitters, sementes, ervas, flores, cítricos, infusões a frio e diferentes águas tônicas, acompanhando uma curiosidade cada vez maior do público pelo universo do gin.

Essa talvez seja a parte mais interessante da história, porque o movimento não ficou restrito ao balcão do Astor. O mercado brasileiro de gin também começou a mudar, com mais marcas, mais produtores, mais cartas dedicadas ao destilado e, principalmente, mais consumidores interessados em entender o que estavam bebendo.

O próprio Edgard lembra que o consumo de gin por aqui era muito pequeno e que praticamente não havia mercado para a bebida. Com a popularização do Gin Tônica, essa realidade mudou de forma importante e a categoria passou a ganhar muito mais espaço entre fabricantes, bartenders e consumidores.

É claro que ninguém inventou o Gin Tônica no Astor, e nem é essa a graça da história. O mérito está em ter percebido cedo um movimento que acontecia fora do Brasil, trazido a ideia para São Paulo e apostado nela quando ainda estava longe de parecer uma tendência inevitável.

Em 25 anos de trajetória, o Astor viu muita coisa mudar na coquetelaria paulistana, mas essa história talvez seja uma das que melhor expliquem por que alguns bares ou restaurantes conseguem permanecer relevantes por tanto tempo. É preciso respeitar os clássicos, mas também ter disposição para enxergar o que pode vir depois.

Para Edgard, o Gin Tônica acabou tendo uma importância vital na trajetória do Astor, inclusive pela quantidade de reportagens que a iniciativa gerou e pela visibilidade que trouxe ao bar.

Hoje, olhar para uma taça ou copo grande de Gin Tônica cheia de gelo, cítricos, botânicos e especiarias dificilmente causa surpresa. Mas em 2012 causava, e o Astor estava ali, apostando na bebida antes de ela virar presença quase obrigatória nos balcões de São Paulo.

 

Serviço

Astor Unidades na Oscar Freire, Paulista, JK Iguatemi, Vila Madalena, Vila Nova Conceição e Bar do Cofre Instagram: @barastor Reservas, endereços, horários e cardápios: pelo site oficial do Astor

 



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