Viralizou: Geração Z adota cantinho do café em casa. Veja o que é e como montar o seu
Quando comprou o apartamento novo, Maycon Alves teve que resolver uma disputa doméstica. A esposa sonhava com uma churrasqueira na varanda, mas ele tinha outros planos. “Quero o cantinho do café ali”, pensou, olhando para o espaço vazio. Com muita conversa, ele ganhou a preferência da escolha. “Diferente de uma churrasqueira, que a gente usaria uma vez por mês, o cantinho do café virou um canto da família”, relembra.

A cena já era comum para os chamados coffee geeks, nome dado aos entusiastas de café que montam verdadeiros coffee bars em casa. Trata-se de um espaço dedicado à bebida, com máquinas de café de ponta, grãos selecionados, moedores, inúmeros tipos de apetrechos e métodos dedicados ao café perfeito.
Agora, esse cantinho ficou menos “laboratório” e está mais popular especialmente entre a Geração Z, graças à viralização do conceito por meio de vídeos no TikTok. Os espaços febre entre gente de vinte e poucos anos são uma junção do antigo bar caseiro dos anos 80 e o clássico canto do café da tarde, aquele que tem na casa da tia da família. Só que com apelo jovem, uma porção de sabores, receitas e possibilidades.
Qual o melhor café em capsula do mercado
Para entender esse novo momento de consumo, Paladar convocou um time de especialistas. Ouviu Ensei Neto, um dos maiores especialistas em café do país e colaborador da casa; Isabela Raposeiras, mestre de torra e fundadora do Coffee Lab, uma das pioneiras do café especial no Brasil; o próprio Maycon Alves, criador do Diário de um Coffee Lover, comunidade que reúne mais de 7 mil apaixonados por café; e Gabriel Pinhata, criador de conteúdo de 29 anos e especialista em marketing de influência que viralizou mostrando o próprio coffee bar.

Café: uma bebida ancestral que ficou descoladinha
Primeiro, é preciso trazer um contexto. Existe um fator que justifica em parte o sucesso do canto do café entre os mais jovens. A geração z está bebendo café de um jeito próprio, abraçou mesmo a bebida ancestral.
Em uma amostra de mil consumidores, o Coffee Usage Profiler - estudo da Nespresso realizado entre junho e julho de 2025 - apontou que o público de 16 a 34 é o que puxa o consumo de café sem açúcar para cima. Também é ele quem mais gosta de fazer misturas com o café e abraçou mais as versões geladas. OU seja, tem um perfil mais voltado à experimentação. O gelado, aliás, virou quase uma marca geracional, aparece em 18% das ocasiões entre quem tem 16 a 24 anos - e em só 2% entre os mais velhos.
Para Isabela Raposeiras, o movimento tem a ver com a mudança na imagem desse produto. “O café tá ficando uma bebida mais descoladinha”, diz ela. E o mercado publicitário tem percebido isso e está de olho em criar uma conexão com essa parcela.
Recentemente a marca União chamou Sandy para protagonizar uma campanha sobre a pausa do café. Embora não seja da geração z, a cantora tem um apelo jovial e transita bem entre públicos de idades diferentes, o que faz dela uma boa ponte entre gerações. A Nespresso, por sua vez, apostou mais alto no público jovem e trouxe a estrela pop Dua Lipa como embaixadora global.

“Até os anos 90, as propagandas de café eram sempre feitas com pessoas maduras bebendo café”, relembra Ensei Neto. “Todo ícone está relacionado com o público que você pretende atender. Se hoje quem estampa as campanhas é um rosto jovem, é um sinal do momento e das apostas do mercado”, resume.
Se antes era uma bebida mais ligada aos mais velhos e workaholics, agora ela ganhou um público que se liga a ela por outra via: a do estilo de vida, do encontro, da “performance”. E é nesse encalço que ganha espaço o canto do café mais descolado na casa dos mais jovens.
Como foi o caso de Gabriel Pinhata, que viralizou mostrando o próprio coffee bar sem nunca ter sido nada além de um grande amante das bebidas do Starbucks. No cantinho dele, o que não falta são ingredientes para confirmar o tal perfil de experimentação. Tem xarope, matchá e essência.
As receitas que ele faz e divulga vão do caramelo macchiato - feito com café, leite espumado e calda de caramelo - a combinações mais inventivas, como um matchá com leite, chocolate branco e purê de pêssego.

Ensei Neto enxerga nesta turma uma geração prática e livre, que não quer ser ensinada sobre o jeito certo de consumir, cheio de ritos ou regras. Até tem o método em casa, gosta de café, mas topa consumir por meio de cápsulas, se elas forem as únicas que estiverem à mão. Esse café descomplicado pode ser uma forma de ter um primeiro contato com a bebida.
“Toda introdução tem que ser feita de forma leve”, ensina Ensei. O café hoje adoçado, gelado e até com xarope pode ser um ponto de partida para relacionamentos com a bebida que ficarão mais aprofundados depois.
A geração z está bebendo mais vinho
Mas só a Gen Z gosta de canto do café caseiro? Não!
Segundo os especialistas ouvidos por Paladar, apesar da viralização entre a Gen Z do canto do café, mesmo entre quem não tem conhecimento ou apego à qualidade dos grãos, o coffee bar mais tradicional e os adoradores mais velhos permanecem na “tribo”.
Maycon, que reúne no seu grupo gente de todas as idades, e confirma o mosaico. “É um grupo muito heterogêneo, de vários tipos de pessoa, e cada um interage com esse universo numa intensidade diferente”, diz.
Os mais velhos costumam ter as melhores máquinas e as técnicas mais apuradas, tiveram mais tempo e mais dinheiro para chegar lá. Mas isso não impede os mais novos de quererem o seu cantinho, montado com as próprias referências e possibilidades.
De acordo com Ensei, o café passou por ondas de consumo. Os primeiros lugares de beber café às grandes cafeterias, até os cafés especiais e a figura do barista. A onda atual, diz ele, é a de fazer tudo em casa.
“Os equipamentos que antes só existiam para o profissional ficaram acessíveis para o consumidor fazer em casa. A própria pandemia acelerou isso”, afirma. Não à toa, 64% do café consumido no país é preparado dentro de casa, segundo o levantamento da Nespresso.
Canto do café é o novo bar dos anos 80
Para Isabela, o coffee bar ocupa hoje o mesmo lugar que o bar de drinques tinha nas casas de outros tempos. “Toda casa nos anos 80 tinha um bar, pode pegar as novelas do Manoel Carlos. Agora virou o coffee bar”, compara.
E, como no bar de antigamente, o álcool não ficou de fora. A geração z bebe menos, mas ainda bebe. Maycon vê a mistura entre álcool e café na própria comunidade. Gente que junta o cantinho do café ao do vinho, no que ele resume como “café de dia, vinho à noite”.

Já Gabriel, que estuda comportamento por trabalhar com marketing de influência, tem uma leitura mais aprofundada sobre a adesão da Gen Z ao canto do café com álcool caseiro. “A internet virou o nosso currículo. Um vídeo seu passando vergonha (por ter bebido demais) pode impedir de ser contratado três anos depois”, diz. Em casa, há uma sensação de segurança maior com relação à performace e exposição. “Quando está com os amigos bebendo, o celular fica de lado”, conta
Onde provar café gelado em São Paulo
Em uma geração que sai menos e se conecta mais pela tela, o bar de café dentro de casa virou alternativa para mais convívio. Para Raposeiras, o que move essa turma é “o lifestyle, o encontro, não a bebida em si”, diz a especialista.
E Por onde começar um coffee bar?
Para quem se animou e quer montar o próprio coffee bar, os entrevistados divergem no caminho mas concordam no espírito: comece simples.
Isabela recomenda estudo antes do equipament. “Hoje tem curso de café em casa, que oferece uma visão geral de todas as possibilidades, inclusive expresso”, indica já recomendando os cursos que oferece no Coffee Lab. “A partir daí, diz, a pessoa aprende a provar, a diferenciar um café bom de um ruim e a entender de quais equipamentos realmente precisa antes de gastar”, diz.

Maycon prega paciência, e fala por experiência própria. “A gente se empolga e compra vários métodos de uma vez, mas você vai usar no máximo dois”, conta. A dica dele é ir devagar, testando um de cada vez, e nunca perder de vista o principal. “Não tem nada ali mais importante do que um café de altíssima qualidade. O café é a estrela do coffee bar”, resume. Ele mesmo entrou nesse mundo pela cápsula, que considera uma porta de entrada para quem está começando.
Gabriel resume a receita mais acessível, a que ele próprio seguiu. “Compra a cafeteira, sente o gosto do café, e só depois compra dois xaropezinhos, um de baunilha, um de caramelo salgado. Vai construindo”, ensina.
O restante, dos copos aos canudos, vem com o tempo e com a rotina de cada um.
Ensei fecha com a dica de ouro. “Confie nos seus sentidos, ninguém precisa explicar o que você está sentindo. Não desceu bem, foge, não é para você. Mas se desceu redondo, deu aquele huuuuuuum, é aí que está ótimo”.
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