Vigneron revela o lado mais livre de Marco De Martino no vinho chileno

Em almoço no Cena Emiliano, conheci o projeto pessoal do enólogo chileno, que percorre diferentes terroirs do país e prepara até um vinho laranja para chegar ao Brasil


O Vigneron trabalha com vinhedos em Casablanca, Isla de Maipo, Limarí e Itata | foto: Divulgação
O Vigneron trabalha com vinhedos em Casablanca, Isla de Maipo, Limarí e Itata | foto: Divulgação

Há poucos dias escrevi aqui sobre o Cena, novo restaurante do Emiliano que, a meu ver, já nasceu redondo e está entre as melhores aberturas recentes de São Paulo. Gostei tanto que não demorei muito para voltar, mas desta vez o motivo para escrever novamente sobre aquela mesa é outro.

Fui almoçar com Marco De Martino, nome bastante conhecido do vinho chileno e integrante de uma família de viticultores cuja história remonta a 1934. Entre uma taça e outra, pude conhecer melhor o Vigneron, projeto em que ele encontrou espaço para fazer vinhos de uma forma muito mais pessoal e, aparentemente, também mais divertida.

A comida do Cena foi um ótimo pano de fundo para a conversa e para as garrafas. Passaram pela mesa a alface romana com Caesar e peixe defumado, o pastel de Mandala e marmelada de cebola, os tomates com Jerez e harissa, a pasta alla vodka com tartare de camarões e o porco Duroc com feijão-manteiguinha e caldo de suã.


Pasta alla vodka com tartare de camarões e porco Duroc com feijão-manteiguinha e caldo de suã, dois dos ótimos pratos do Cena | foto: Fred Sabbag
Pasta alla vodka com tartare de camarões e porco Duroc com feijão-manteiguinha e caldo de suã, dois dos ótimos pratos do Cena | foto: Fred Sabbag

O Vigneron nasce justamente de um lugar diferente daquele ocupado pela tradicional vinícola de sua família. Com o negócio familiar já consolidado, Marco criou um projeto em que pudesse escolher regiões, uvas e estilos com mais liberdade, sem que cada decisão tivesse necessariamente de responder primeiro a uma lógica comercial.

E isso fica claro conversando com ele. A impressão é de alguém que continua levando vinho muito a sério, mas encontrou no Vigneron um território para experimentar, escolher o que gosta de beber e se permitir algumas ideias que talvez não coubessem tão naturalmente dentro de uma estrutura maior.

O portfólio ajuda a entender essa liberdade porque não fica preso a uma única região do Chile. O Vigneron trabalha com vinhedos em Casablanca, Isla de Maipo, Limarí e Itata, explorando desde Sauvignon Blanc e Chardonnay até Carménère, Syrah, Cabernet Sauvignon, Pinot Noir, Sémillon, Muscat e Cinsault.

 

São três linhas, In Vino Veritas, Parcelas Seleccionadas e Leonera Viñas Viejas, que também refletem diferentes níveis dessa pesquisa. Há fermentações espontâneas, uso de leveduras nativas, barricas usadas e uma preocupação em reduzir intervenções e o emprego de produtos químicos, tentando deixar uva e origem falarem mais alto.

 

Marco também é um personagem interessante por algumas contradições que, no fundo, fazem bastante sentido. Descendente de italianos e torcedor do Audax Italiano, ele tem no futebol uma conexão evidente com suas origens, mas quando o assunto é vinho uma de suas grandes paixões está na França, mais precisamente em Bordeaux.

O que o atrai ali é especialmente a elegância dos grandes vinhos, e não a potência pela potência. Essa referência ajuda a entender linha de vinhos que parece fugir daquela velha caricatura do vinho chileno excessivamente maduro, alcoólico e marcado por madeira.

No almoço, começamos pelo Vigneron Parcelas Seleccionadas Sémillon-Sauvignon Blanc 2025, da Isla de Maipo. Foi um branco que transitou muito bem por uma mesa bastante variada, com acidez suficiente para acompanhar desde a salada e o tomate até a intensidade da pasta alla vodka com camarões.

Depois veio o Leonera Viñas Viejas Cinsault 2024, produzido em Guarilihue, na costa do Vale do Itata. As uvas vêm de vinhedos muito antigos, alguns com mais de cem anos, e dão origem a um tinto com bastante fruta vermelha, boa acidez e taninos finos, que para mim foi um dos grandes momentos do almoço.

Aliás, Itata é uma das partes mais interessantes do projeto. Em solos graníticos e sob forte influência do Pacífico, Marco trabalha com vinhas centenárias de Muscat e Cinsault, justamente o tipo de patrimônio que mostra como o Chile do vinho é muito mais diverso do que aquele que durante décadas chegou ao Brasil resumido principalmente a Cabernet Sauvignon e Carménère.

Mas talvez a história que melhor explique o espírito do Vigneron seja a de um vinho que ainda nem chegou ao mercado brasileiro. Durante a Wine Paris deste ano, Deco Rossi, responsável pela Winet, importadora da marca por aqui, fez um pedido bastante simples a Marco, queria um vinho laranja.


Marco de Martino e o vinho laranja que, em breve, estará disponível no Brasil | foto: divulgação
Marco de Martino e o vinho laranja que, em breve, estará disponível no Brasil | foto: divulgação

A partir daí, praticamente não houve receita. A ideia era justamente deixar Marco se divertir e confiar no que sairia dessa liberdade, que acabou resultando em um corte de 70% Sémillon e 30% Sauvignon Blanc, do Vale do Maipo, com passagem de dois anos por barrica.

Por enquanto, apenas uma garrafa veio ao Brasil e foi aberta em um evento. O vinho deve chegar comercialmente por aqui nos próximos meses, provavelmente por volta de outubro, acrescentando mais um capítulo a um projeto que parece não ter muita vontade de seguir cartilha.

Gosto dessa história porque ela parece explicar o Vigneron melhor do que qualquer ficha técnica. Existe um produtor experiente, com quase um século de história familiar às costas, que ainda encontra graça em receber uma provocação, entrar na adega e descobrir no que aquilo pode dar.

Também foi interessante conhecer o projeto dessa maneira, bebendo os vinhos ao lado de Marco e entendendo diretamente dele o que existe por trás das garrafas. Às vezes o mundo do vinho se perde um pouco entre notas, pontuações, descrições de aromas e discursos excessivamente técnicos, quando uma boa parte do encanto está justamente nas pessoas e nas histórias que levaram aquele líquido até a taça.

Saí do Cena com vontade de conhecer o restante do Vigneron e com uma impressão bastante simples sobre o projeto. Talvez estes sejam justamente os vinhos que Marco De Martino faria mesmo se não precisasse fazê-los para ninguém além dele próprio.

E agora fiquei especialmente curioso com o vinho laranja. Se a proposta era deixar Marco se divertir, falta descobrir se quem vai beber também vai entrar na brincadeira.

 

Serviço

Vigneron Fine Wines Importação no Brasil: Winet Instagram: @winetclub

Site: www.winetclub.com.br



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