Prêmio Paladar 2026: Julia e Nadia Nasr vencem na categoria Baristas do Ano

Há cafés que chegam à xícara trazendo notas de manga, carambola ou goiaba. E há aqueles que carregam algo ainda maior, como o retrato de uma família, de uma região, uma lavoura e de todas as escolhas que fizeram aquele grão chegar até ali. “Café especial é para ser uma festinha na nossa boca”, diz Nadia Nasr. Mas, antes da festa, há uma história, protagonizada por ela mesma e por sua irmã, Julia Nasr, eleitas Baristas do Ano do Prêmio Paladar 2026.

A história das irmãs começa muito antes da Cafetina, a cafeteria que as duas abriram em São Paulo; e mesmo antes da Café por Elas, a torrefação que criaram em 2018. Tudo começou em Minas Gerais, no sítio onde a mãe, produtora de café há mais de 30 anos, começou a cultivar a fruta em São Sebastião do Paraíso. Depois, ela comprou uma produção maior em Dourado, no interior de São Paulo, onde continua trabalhando. Julia e Nadia cresceram, assim, entre os dois mundos: o da cidade e o da agricultura. Eram advogadas quando o café entrou de vez em suas vidas - e, em 2016, a curiosidade virou uma paixão.

Na época, as duas já procuravam cafeterias de cafés especiais por onde passavam. Chegaram a considerar abrir uma cafeteria, mas decidiram primeiro entender o que havia por trás daquela xícara. Estudaram torra, aprenderam a provar café e, quanto mais avançavam, mais percebiam que precisavam voltar algumas casas no tabuleiro: para falar de torra, era preciso falar de matéria-prima; para falar de matéria-prima, era preciso olhar para quem plantava.

Julia e Nadia Nasr, da Cafetina, eleitas Baristas do Ano pelo Prêmio Paladar 2026.
Julia e Nadia Nasr, da Cafetina, eleitas Baristas do Ano pelo Prêmio Paladar 2026.

A mãe foi a primeira inspiração. Depois vieram outras mulheres. O que começou como uma homenagem às produtoras e colaboradoras da fazenda familiar se transformou, ao longo dos anos, em uma rede de mais de 25 produtoras de diferentes regiões brasileiras que fornecem café para a Café por Elas. Para Julia e Nadia, a relação ultrapassa a compra e venda de grãos. É uma parceria construída em torno de qualidade, sustentabilidade e da vontade de fortalecer as comunidades produtoras.

Desde 2023, elas também vêm transformando a própria produção. Começaram com dois hectares de sistema agroflorestal e chegaram a 20 hectares de café em agrofloresta. Em 2025, financiaram sementes e mudas para três produtoras adotarem práticas de agricultura regenerativa, com cobertura do solo. A iniciativa nasceu de uma necessidade cada vez mais difícil de ignorar: a crise climática. “A gente não tem como falar sobre café sem falar sobre crise climática”, diz Nadia.

A chegada da Cafetina, em junho desse ano, deixou visível tudo aquilo que elas construíram até aqui. Na torrefação, o café ficava mais protegido, entre equipamentos e processos; na cafeteria, ele passou a ganhar espaço para mesa e conversa. O espaço foi pensado para aproximar o consumidor final dos cafés da Café por Elas e, ao mesmo tempo, permitir que Julia e Nadia experimentassem novas possibilidades.

Trabalhar com qualidade é trabalhar com sustentabilidade e trabalhar com sustentabilidade é trabalhar com pessoas

Julia e Nadia Nasr, sócias do Café por Elas e da Cafetina

Ali, o café aparece em diferentes métodos, bebidas autorais e combinações que também carregam a história familiar das irmãs. O zaatar latte é uma delas. A referência às origens libanesas da família aparece também na comida, em uma cafeteria que não parece interessada em tratar o café como um objetivo isolado, mas como ponto de partida para outras conexões.

Há, ainda, uma delicadeza particular na forma como Julia e Nadia trabalham. Julia é descrita pela irmã como extremamente técnica ao provar café. Nadia fala da xícara com um certo encantamento. Para ambas, porém, o momento mais bonito é quando o café consegue contar de onde veio. Quando uma xícara parece carregar o retrato de uma família e de uma região, todo o caminho percorrido pelo grão se revela: a colheita, a secagem, a torra, a extração e, finalmente, a bebida. “É quase um milagre”, dizem.

Julia e Nadia não chegaram ao título de Baristas do Ano apenas por saberem extrair uma boa xícara. Elas construíram uma maneira de enxergá-la. Uma maneira que começa na lavoura e passa pelas mãos de produtoras, pela torra, pela equipe e pela técnica, mas que termina no prazer de quem bebe. E, quando tudo dá certo, a festa acontece na boca.

*Estagiária sob supervisão de Danielle Nagase



from Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo https://ift.tt/OrzhEF8
via IFTTT

Comentários