Prêmio Paladar 2026: Josafá, o mestre do Mocotó, é eleito a Prata da Casa

Exatamente no dia 27 de agosto de 2026, Josafá completa 46 anos no posto de “faz-tudo” no restaurante da Vila Medeiros, zona norte de SP. Considera a data mais um de seus aniversários, pois o homem pontua ao menos três renascimentos nessas suas sete décadas de vida. A estreia foi em 1954, quando nasceu em uma família de nove irmãos no interior de Pernambuco. Depois, renasceu aos 17, idade em que veio morar em São Paulo, fugindo da fome e tirou o primeiro documento oficial: a carteira de trabalho, para atuar em um boteco no centro. E, por fim, escolhe o encontro com o Mocotó, que chama de “meu lugar no mundo”, onde diz ter lapidado o ofício que, de tão bem-feito e aclamado, rendeu a ele o título de “Prata da Casa”, na categoria Destaque do Ano do Prêmio Paladar 2026.

“Meu nome completo - que está na certidão que eu tirei já moço - é Josafá Menino da Silva. Mas, nessa minha vida de garçom, já fui chamado de amigo, campeão, bigode, Josa. Aqui no Mocotó, o Rodrigo (Oliveira, o chef do restaurante) veio com essa história de ‘mestre’ e pegou. E veja se não dá um orgulho saber que o cabra saiu lá do sertão para virar mestre aqui em São Paulo”, contou, já para pontuar toda a mestria exercida diariamente no restaurante - que conquistou público, crítica, prêmios e trouxe holofotes, em território paulistano, para a culinária sertaneja.

O mestre Josafá chega ao Mocotó pontualmente às 5h30 (mesmo sendo seu horário de entrada às 7h). Limpa a casa, faz café e cuida da refeição dos primeiros funcionários. Depois, arruma e organiza as mesas, vê o cardápio, confere se está tudo em ordem, se não há ajustes ou compras de última hora. Às 11 horas, se prepara para fazer o que mais gosta. “Servir as pessoas é de uma felicidade sem igual. Receber o cliente na porta, conduzir até a mesa, contar os pratos que temos aqui. Ouvir…”, vai contando e umedecendo os olhos enquanto lista suas funções.

Josafá, o mestre do Mocotó, ganhou o Prêmio Paladar 2026 na categoria Prata da Casa
Josafá, o mestre do Mocotó, ganhou o Prêmio Paladar 2026 na categoria Prata da Casa

“E quando eles contam um pouco sobre eles… eu sei exatamente o que tem no cardápio e o que pode fazer diferença naquele dia, para aquela pessoa”, diz Josafá, agora desacelerando a voz que costumeiramente ecoa rápido, no compasso típico pernambucano, mas que muda de ritmo em situações de emoção.

Antes de chegar à Vila Medeiros, Josafá trabalhou no centro paulistano em outros três restaurantes. Foi fisgado pela paixão de servir comida desde o primeiro dia de trabalho - talvez porque o aroma, já de início, parecia ser suficiente para enganar o estômago que sofreu anos pelo vazio. “Nunca esqueço o primeiro prato que comi em São Paulo. Era cheio e eu ainda pude repetir.”

Barriga cheia, sabe-se, no entanto, não é e nem deve ser o suficiente para um trabalho digno. Já recebeu calote de patrão, foi destratado pela clientela e, nos últimos tempos, ali perto dos anos 1980, não estava sendo olhado com respeito na casa onde servia almoço e jantar. Foi para a zona norte, no outro canto da cidade, procurar trabalho. E, quando encostou no endereço “Casa do Norte” para fazer uma pausa, o ambiente, a comida e o estilo eram bem parecidos com o que conheceu na infância. Quase deu para matar a saudade que sentia de Pernambuco.

PRÊMIO PALADAR 2026/DESTAQUE DO ANO CATEGORIA PRATA DA CASA/EMBARGO ATÉ OUTUBRO 2026
PRÊMIO PALADAR 2026/DESTAQUE DO ANO CATEGORIA PRATA DA CASA/EMBARGO ATÉ OUTUBRO 2026

Encostou no balcão e ali, na primeira conversa, selou uma espécie de amizade de anos com o dono do local, José de Almeida. Rodrigo, que, depois de crescido, continuaria e transformaria o legado do pai na hoje rede de restaurantes Mocotó, tinha apenas um mês de vida.

José perguntou se Josafá topava um emprego. Ele aceitou e o resto é história. História com algumas passagens que surpreendem. Por exemplo, quando Rodrigo Oliveira começou a ter vontade de transformar a Casa do Norte no que hoje é o Mocotó, ninguém botava muita fé. Especialmente seu Zé Almeida. Algumas reformas para expansão foram feitas por Rodrigo quase às escondidas.

Em uma delas, em especial, faltou verba para o jovem cozinheiro dar conta de fazer sem o apoio do pai. O jeito foi Rodrigo recorrer ao Josa, que emprestou os mil reais que faltavam e garante que foi pago tim-tim por tim-tim — inclusive com o financiamento de uma casa de dois andares que ele construiu ao lado do restaurante e onde mora hoje com a mulher e que já foi endereço dos dois filhos e duas netas.

Josafá ganhou o apelido de mestre no Mocotó
Josafá ganhou o apelido de mestre no Mocotó

Nessa estrada toda, Josafá foi testemunha do nascimento acidental e da fama astronômica do dadinho de tapioca, de autoria de Rodrigo; aprovou a mocofava e diz ser quase tão boa quanto a que comia com os irmãos na infância; estimulou e acreditou que o baião de dois, a caipirinha de três limões e as sobremesas de milho iriam mesmo conquistar os paladares de todo mundo, exatamente como Rodrigo Oliveira sonhava e prometia que aconteceria.

E, enquanto o Mocotó crescia e aparecia, Josafá foi entendendo que o seu papel e a sua missão no restaurante harmonizavam muito com aquele cardápio diferente, que passava a ser lido como de alta gastronomia. “A comida é, sim, fundamental. Mas o que faz uma pessoa voltar e fazer do restaurante seu lugar favorito é, com certeza, o atendimento”, diz, sem titubear.

Paladar, em algumas horas observando o mestre Josa em ação, atestou que, com o rabo de olho, ele detecta alguém que deseja ser atendido. Viu o próprio usar o dedo mindinho para medir a altura entre a fruta no copo e o líquido acima, para atestar se a caipirinha estava boa ou não. E confirmou que, só de ver a porção de dadinho sair da cozinha, consegue declarar se foi preparada na temperatura certa pela quantidade de bolinhas mais amarronzadas que tem.

O dadinho de tapioca de Rodrigo Oliveira vira de milho com fonduta de queijo para o São João
O dadinho de tapioca de Rodrigo Oliveira vira de milho com fonduta de queijo para o São João

E, mesmo com esse talento de ser “juiz” da qualidade da comida, os colegas, sem pestanejar, dizem que o que dá o título de Prata da Casa a Josafá Menino é a sua desenvoltura para atender qualquer cliente, mesmo aqueles turrões - que ficam ainda mais bicudos quando precisam esperar uma mesa por mais de uma hora, fruto do sucesso do Mocotó que Josafá ajudou a construir.

Reza a lenda que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso riu e aprovou as piadas que Josa tem — e sempre dispara — em seu repertório de atendimento. E que o apresentador Pedro Bial prometeu voltar à Vila Medeiros só por causa dele.

Quem acompanha a gastronomia enxerga que Josafá é a própria tradução da tal hospitalidade. Já josa define seu ofício como a chance de mudar o destino de alguém pela comida. O dele, com certeza, foi.

A cidade que ele deixou quando menino chama-se Frei Miguelino, que, olha só, hoje tem a fama de ser “a maior exportadora de garçons para o Brasil” e, todo ano, realiza um festival para celebrar a profissão. Já a “cidade Mocotó”, que ele diz ter escolhido para si, é onde Josa “quer ficar até se aposentar aos 100 anos, servindo e fazendo gente feliz”. Um mestre.

  • Serviço Mocotó

Endereço: Av. Nossa Senhora do Loreto, 1100 – Vila Medeiros, São Paulo - SP https://mocoto.com.br/



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