Hotel Ort faz da gastronomia um dos motivos para viajar a Campos do Jordão

Pizzas, fondue, café da manhã caprichado e vinhedos são parte importante da vida do hotel


No ORT, a gastronomia aparece no café da manhã, nas pizzas, no fondue, na brasa e até nos vinhedos espalhados pelo terreno | foto: Divulgação
No ORT, a gastronomia aparece no café da manhã, nas pizzas, no fondue, na brasa e até nos vinhedos espalhados pelo terreno | foto: Divulgação

 

Há hotéis que funcionam como ponto de partida para conhecer uma cidade e outros que fazem você perder rapidamente a vontade de sair. O Ort, onde passei com minha família o fim de semana do Dia dos Pais, pertence claramente ao segundo grupo.

A primeira impressão é de que há muito cuidado por todos os lados. Os jardins, as áreas comuns, os quartos, a iluminação e até os quadros e pequenos objetos de decoração revelam um gosto que não depende de excessos para chamar a atenção.

Essa história começou bem antes do atual hotel. O prédio foi inaugurado em 1943 como Orotour, em uma fase na qual Campos do Jordão apostava na arquitetura europeia e no clima da montanha para se firmar como destino turístico.

Em 2020, já bastante desgastado, o antigo hotel foi levado a leilão e arrematado por Fábio Burg. Fundador e CEO do Grupo Rái, o publicitário não tinha experiência na hotelaria, mas tinha o desejo antigo de entrar nesse mercado e enxergou ali uma oportunidade que certamente exigia alguma coragem.

Burg não comprou um hotel de luxo pronto. Comprou uma propriedade tradicional, com arquitetura bávara e uma bela área verde, mas que precisava de uma reforma quase completa para recuperar sua relevância.

A estrutura original foi mantida e o restante mudou bastante. Quartos, chalés, restaurantes, piscinas, spa e espaços de lazer foram refeitos, enquanto a compra de terrenos vizinhos levou a área do complexo dos 21 mil metros quadrados originais para aproximadamente 40 mil.

O resultado é um hotel grande, mas que não passa a sensação de resort lotado (ainda bem!). Há muitos ambientes para se espalhar, descansar, ler, tomar um vinho ou simplesmente não fazer nada, programa que com o passar dos anos aprendi a valorizar bastante.

Para quem viaja com crianças, a estrutura ajuda a evitar aquela negociação permanente entre o que os pais querem fazer e o que os filhos aceitam fazer. Há recreação, brinquedoteca, brinquedos ao ar livre, cinema e uma fazendinha com coelhos, cabras, patos e outros animais.

Enquanto isso, os adultos podem aproveitar a piscina externa aquecida do espaço Natur, cercada pela mata e reservada aos maiores de idade. Há também uma piscina interna coberta, com a água mantida próxima dos 36 graus no inverno, além de saunas seca e úmida e uma área de hidromassagem.

A academia é realmente boa, não apenas uma sala pequena com dois aparelhos colocados para constar na lista de comodidades. O hotel ainda oferece aulas de yoga e pilates, algumas realizadas nos jardins, e o Pureté Spa tem quatro salas de tratamento e um bom menu de massagens.

Tudo isso já justificaria a hospedagem, mas a gastronomia talvez seja a parte mais interessante do Ort. Em vez de obrigar o hóspede a repetir todas as refeições no mesmo lugar, o hotel distribuiu a comida entre propostas bem diferentes.

O Küche é o restaurante principal e também onde o dia começa. Café da manhã de hotel pode cair facilmente em dois erros, ser limitado demais ou tentar compensar a falta de qualidade com uma quantidade absurda de coisas, e o Küche escapa dos dois.

Já no almoço e no jantar, o Küche trabalha com referências da Áustria, Alemanha e Suíça, sem transformar a cozinha numa atração temática de Campos do Jordão. Entre os pratos do menu atual estão o L'Oignon, versão salgada da tarte tatin com cebola caramelizada, massa folhada, queijo local e camarão grelhado, o spätzle com dois ragus, um bovino e outro de pato, e o arroz caldoso de pato com tucupi e ora-pro-nóbis.

Gosto quando um restaurante de hotel se afasta do repertório previsível, e o Küche faz isso ao misturar referências alpinas com ingredientes como tucupi e ora-pro-nóbis.


Parte dos queijos usados nas pizzas da Ôpa é produzida pelo próprio hotel | foto: Divulgação
Parte dos queijos usados nas pizzas da Ôpa é produzida pelo próprio hotel | foto: Divulgação

À noite, uma das melhores opções é o Ôpa, pizzaria instalada em um bonito salão envidraçado. As pizzas estão entre as melhores da cidade, e eu sei que a régua de Campos do Jordão não é das mais altas. Elas são de fato boas, com massa de fermentação natural leve, bordas bem assadas e coberturas que não soterram tudo sob uma camada desnecessária de queijo.

Parte dos queijos usados nas pizzas é produzida pelo próprio hotel. O Ort também extrai e engarrafa seu azeite de avocado numa pequena fábrica dentro da propriedade, outro produto da casa que chega à mesa do Ôpa.

Outra noite foi reservada ao fondue do Milchhaus, pequeno restaurante do hotel dedicado a essa experiência. O nome significa casa do leite em alemão e, aqui, a ambientação de montanha faz sentido sem parecer uma cenografia montada para turistas.

Nos sábados da temporada de inverno, o hotel promove ainda a Arte do Fogo, com carnes e acompanhamentos servidos em uma área externa. É a refeição mais informal do conjunto e aproveita bem os jardins e o frio da serra.

No outro extremo está o Eins, restaurante conduzido pelo chef Edmar Mendonça, com cinco mesas, oito lugares no balcão e um menu degustação de dez etapas. É a experiência mais ambiciosa do Ort e justamente a única que não consegui conhecer nesta viagem.

Não foi falta de vontade. Estava com duas crianças falantes, e um menu degustação longo provavelmente não seria a melhor experiência para elas nem para algum casal que tivesse o azar de sentar ao lado. Para alguém que normalmente monta uma viagem a partir das refeições, ficou uma boa desculpa para voltar.

O interesse do Ort por comida e bebida vai além dos restaurantes. Dentro da propriedade há dois vinhedos formados com mudas trazidas da Itália, das variedades Chardonnay e Pinot Noir.

Após o cultivo das videiras e a colheita das uvas, a elaboração dos vinhos e espumantes acontece no Sul do Brasil. Eles levam o nome Despina, e o projeto inclui atividades de colheita, pisa das uvas e explicações sobre fermentação para os hóspedes.

 


No Eins, é servido um menu degustação de dez etapas | foto: Divulgação
No Eins, é servido um menu degustação de dez etapas | foto: Divulgação

Burg agora prepara o segundo hotel do grupo, o Ozean Hotel Ort, em Juquehy, com abertura prevista para a temporada de verão 2026/2027. Será interessante ver como uma ideia nascida entre araucárias vai se comportar diante do mar.

Saí do Ort com a impressão de que a gastronomia esteve na mesa desde o início do projeto, e não entrou depois apenas para completar o pacote. Ela aparece no café da manhã, nas pizzas, no fondue, na brasa e até nos vinhedos espalhados pelo terreno.

Em uma cidade na qual normalmente as pessoas fazem questão de sair para comer, fiquei praticamente todo o tempo dentro do hotel e sem sentir que estivesse abrindo mão de algo. Só ficou faltando o Eins, mas essa conta pretendo acertar em breve.

 

Serviço

Hotel Ort

Rua Engenheiro Gustavo Kaiser, 165, Vila Natal, Campos do Jordão, SP

Reservas: (12) 3668-9130 e (12) 99150-0888

Instagram: @hotelort

Site: www.orthotel.com.br

Küche, Ôpa e algumas experiências gastronômicas recebem visitantes mediante reserva.

 



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