Forno da Saudade faz de uma praça de BH um grande salão a céu aberto

No Carlos Prates, uma praça com vista para o centro revela a elegância informal de Belo Horizonte

 


O Forno da Saudade ocupa um casarão diante da Praça Zigue-Zague, no Carlos Prates, em BH | foto: divulgação
O Forno da Saudade ocupa um casarão diante da Praça Zigue-Zague, no Carlos Prates, em BH | foto: divulgação

Cheguei a Belo Horizonte na véspera de um julgamento e, ainda naquele dia, fui ao Tribunal. Depois de algumas horas cercado pelas formalidades próprias do ambiente jurídico, queria apenas relaxar.

Segui então para o Forno da Saudade, porque já sabia que o começo da semana por lá costuma ser especialmente animado. Não fui completamente às cegas: sou fã do trabalho de Henrique Gilberto e do Grupo Viela, sobretudo por causa do Cozinha Tupis, no Mercado Novo, que considero um dos melhores restaurantes deste país.

Eu nunca havia estado no Carlos Prates e o bairro acabou sendo uma das boas descobertas da viagem. É uma região que revela uma Belo Horizonte menos óbvia, fora dos circuitos gastronômicos mais conhecidos e com uma identidade muito própria.

O Forno da Saudade ocupa um casarão diante da Praça Zigue-Zague, que funciona ao mesmo tempo como salão, calçada, pista de dança e mirante. A vista é linda e permite enxergar grande parte do centro de Belo Horizonte, com seus prédios e luzes formando o cenário ao fundo.

A praça é a cara de BH. Há cadeiras de praia espalhadas por todos os cantos, grupos ocupando os bancos, mesas improvisadas, música, pizzas circulando e cerveja servida em copo americano.

Ninguém parece preocupado com o lugar exato onde vai se sentar, com a roupa de quem está ao lado ou com qualquer protocolo capaz de atrapalhar a conversa. A praça não funciona apenas como área externa do restaurante, mas como parte essencial da experiência e provavelmente sua grande protagonista.

Às segundas-feiras, o forró toma conta do lugar. Eu não gosto de forró, confesso, mas relevei facilmente porque o ambiente ajudava e todos ao redor pareciam genuinamente felizes.

Além disso, quem era eu, aparentemente o único sujeito de camisa polo e calça jeans em toda a praça, para achar que tinha algum direito de opinar sobre a trilha sonora daquela noite? Reconheci minha condição de visitante, deixei o forró seguir e me limitei a aproveitar a noite.

Havia casais dançando, gente comendo em pé e uma movimentação constante entre o casarão e a praça. É uma cena muito belo-horizontina, porque poucas cidades sabem transformar a rua em extensão do bar com tamanha naturalidade.


As pizzas têm massa de fermentação natural e recebem ingredientes que aproximam referências italianas e mineiras | foto: divulgação
As pizzas têm massa de fermentação natural e recebem ingredientes que aproximam referências italianas e mineiras | foto: divulgação

O mérito do Forno está também em compreender que um ambiente tão especial não sobreviveria apenas da vista ou da animação. As pizzas têm massa de fermentação natural e recebem ingredientes que aproximam referências italianas e mineiras sem transformar cada sabor em uma tese gastronômica.

O cardápio apresenta combinações como a de linguiça, couve e gema curada, além da marguerita preparada com tomates defumados, muçarela de búfala, parmesão e manjericão. Há também uma versão com abobrinha sott'olio e mel de alho assado, exemplo da liberdade com que a cozinha trabalha sem perder de vista que pizza precisa, antes de tudo, dar vontade de comer.

A massa é leve e os sabores são super bem pensados. A cozinha não tenta disputar atenção com a praça. Trabalha a favor dela, com pizzas feitas para chegar à mesa, ao banco ou à cadeira de praia, ser divididas e acompanhar o ritmo da noite.

O Forno também teve papel importante na retomada daquele espaço público, que antes era pouco frequentado depois que escurecia. O cuidado com os jardins e a ocupação constante mostram como um restaurante pode transformar seu entorno sem retirar dele a identidade de bairro.

Mais recentemente, esse movimento de ocupação avançou para a Galeria Ficus, outro projeto do Grupo Viela diante da praça. É ali que fica a unidade belo-horizontina da Casa Tão Longe, Tão Perto, projeto de Gabriela Monteleone e Ariel Kogan dedicado aos vinhos brasileiros.

A casa aproxima o público de pequenos produtores que dificilmente aparecem nas cartas mais convencionais. Gostei muito da curadoria e da falta de cerimônia com que os vinhos são apresentados. Há rótulos de diferentes regiões e produtores, sem aquela solenidade que ainda faz muita gente acreditar que precisa entender de vinho antes de bebê-lo e se divertir.


Além de vinhos, a Casa Tão Longe, Tão Perto também reúne conservas e produtos artesanais muito bem escolhidos | foto: divulgação
Além de vinhos, a Casa Tão Longe, Tão Perto também reúne conservas e produtos artesanais muito bem escolhidos | foto: divulgação

Uma das características da casa é o sistema de vinhos na torneira, que permite servir diferentes opções em taça e diminui o uso de garrafas. A ideia chama a atenção, mas o melhor está mesmo na seleção e na oportunidade de provar bons vinhos brasileiros sem transformar a experiência em uma aula.

A Casa Tão Longe, Tão Perto também reúne conservas e produtos artesanais muito bem escolhidos. Provei um antepasto de mariscos do Projeto A.MAR, projeto de que gosto muito e que valoriza a pesca artesanal brasileira, e um pesto de tomate da De Iva, marca dedicada a antepastos, molhos e outros produtos artesanais.

Os dois chegaram acompanhados pelo pão do Forno da Saudade e funcionaram muito bem antes da pizza. A seleção de produtos mostra que a Casa Tão Longe, Tão Perto não se resume aos vinhos e ajuda a apresentar pequenos produtores brasileiros a um público maior.

Ali mesmo, voltado para a praça, também fica o recém-aberto Pérola da Cidade. A casa é dedicada principalmente aos pescados e tem espírito de boteco, completando com naturalidade esse pequeno circuito gastronômico que se formou no Carlos Prates.

No Pérola, provei um crudo de atum, uma boa primeira amostra do trabalho da casa. Sua presença amplia as possibilidades ao redor da praça e aumenta a vontade de circular por ali.

Em uma mesma noite, é possível tomar uma taça na Casa Tão Longe, Tão Perto, provar as conservas, comer algumas pizzas no Forno e conhecer o novo Pérola da Cidade. Tudo acontece ao redor da praça, com o centro de Belo Horizonte iluminado ao fundo e sem cara de complexo gastronômico.

Meu dia começou com a formalidade de uma passagem pelo Tribunal e terminou em uma cadeira de praia, cercado por pizza, vinho, música e gente dançando. Poderia parecer uma mudança de planos para pior, caso alguém ainda confundisse sofisticação com cerimônia.

Foi exatamente o contrário. Belo Horizonte tem esse talento de fazer com que quem chega de fora rapidamente se sinta parte da cidade, sem exageros, protocolos ou qualquer esforço aparente.

No Carlos Prates, a elegância está na comida bem cuidada, nos bons produtos, na vista e na maneira como a praça é ocupada. Em Belo Horizonte, chique mesmo é saber ser informal.

 

Serviço

Forno da Saudade Rua Patrocínio, 1, Carlos Prates, Belo Horizonte Segunda a sábado, das 16h30 à 0h30, domingo, das 15h30 às 23h30 Não aceita reservas Instagram: @fornodasaudade

Casa Tão Longe, Tão Perto BH Rua Peçanha, 533, Galeria Ficus, Carlos Prates, Belo Horizonte Segunda a sábado, das 17h à 0h, domingo, das 16h às 23h30 Instagram: @casatltpbh

Pérola da Cidade Rua Peçanha, 533, loja 6, Carlos Prates, Belo Horizonte Quinta a segunda, das 17h à 0h, domingo, das 15h às 23h Instagram: @peroladacidade



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