Filósofa, bartender e Prêmio Paladar 2026: Rachel Louise transforma pesquisa em drinques
Para ter a honra de ser incluído em uma carta elaborada por ela, um coquetel precisa de muito mais do que só um rostinho bonito. Atrás do balcão, Rachel Louise busca profundidade e sentido em suas escolhas. O modo de chegar ao drinque perfeito faz jus à sua trajetória. A Bartender do Ano, eleita pelo Prêmio Paladar 2026, é formada em filosofia e traz todo o questionamento e a visão de mundo que aprendeu na faculdade para dentro dos copos.
São 33 anos de vida e, há sete, ela escolheu fazer da coquetelaria seu lugar de ofício, compromisso e também pesquisa. Foi um mergulho recente e intenso, disfarçado pela intimidade e pela fluidez com que as mãos dançam pelas garrafas e coqueteleiras ao preparar um clássico dry martini.
As marcas que Rachel deixou nesse setênio coqueteleiro, especialmente no último ano, são importantes. Ela, por exemplo, é um dos nomes citados pela pesquisa e pelo holofote dado ao movimento — tido como sem volta — dos drinques sem álcool. Rachel também materializa em sua rotina o que é apontado como tendência do futuro — como usar cereal infantil sabor nostalgia nos preparos alcoólicos — e ainda estabelece uma relação íntima com ingredientes nacionais, bem brasileiros, para dar nome e sobrenome ao que o mundo reverenciou em 2026: a latinidade.
“Eu gostaria que as pessoas vissem ingredientes nativos nos coquetéis, como cupuaçu, e não achassem exótico ou estranho. São ingredientes nossos”, diz.

Não à toa, quando perguntada qual é seu coquetel favorito, respondeu que é o bom e velho Rabo de Galo, aquele que mistura a brasileiríssima cachaça com vermute. Um clássico que conheceu nos tempos de bares universitários, onde, em alguma medida, começa a história da atual Bar Manager do Hotel W Brasil.
Rachel estava formada em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP) e parecia que viveria uma vida acadêmica padrão, chegando inclusive a dar aulas para turmas do Ensino Médio. Porém, a vida boêmia da paulistana proporcionou dois encontros que mudaram sua rota.
O primeiro foi em uma visita ao antigo bar Frank, quando a então professora topou com um New York Sour. O que lhe chamou a atenção não foi o drinque em si, mas a história por trás dele, que remete à época da Lei Seca americana. Rachel ficou encantada com o tamanho do significado que um simples copo carregava.
O segundo encontro aconteceu em uma noite de diversão com as amigas no Ritz. Ao pedirem o terceiro copo de negroni, o garçom decidiu intervir e recomendou que experimentassem um Martinez, que quebraria a monotonia de tantos coquetéis repetidos. A sugestão conquistou o grupo de amigas, especialmente Rachel. A paixão por ler o cliente e depois sugerir algo a ele nasceu ali. “Essa relação tem algo misterioso, sabe? Indicar uma bebida para outra pessoa e ela aceitar, parece que ela sabe algo que você não sabe”, diz sobre a conexão.

Foi graças a esses dois personagens que Rachel decidiu fazer uma transição drástica na carreira, sair das salas de aula e assumir as coqueteleiras. Primeiro, bateu à porta do antigo Apothek e pediu para passar uma semana trabalhando como estagiária no bar.
Quem a recebeu foi o proprietário, Alê D’Agostino, que acatou o pedido. Ao final dos sete dias, Rachel quis saber qual seria o próximo passo. Rachel tinha ânsia de crescer e se desenvolver e decidiu buscar novos voos. No Ritz, ela mergulhou de vez nos estudos e lá entendeu que, já que não há faculdade para bartender, a pequisa é o caminho para produzir bons coquetéis, “que se estude sobre food pairing, sobre literatura e sobre as tendências na alta gastronomia”, diz.
Do Ritz, chegou ao Tuju e trabalhou lado a lado com Ivan Ralston. Ali, onde atuou por quase dois anos como gerente de bar, percebeu um aumento significativo no número de clientes que passaram a preferir os coquetéis “sóbrios” da carta — que, na época, só possuía duas opções.
Esse foi o incentivo para a gerente começar a desenvolver receitas que pudessem harmonizar com os pratos do cardápio, na linha do menu-degustação. Rachel tinha uma ideia pioneira de mudar a abordagem do público e dos bares sobre esses drinques. Em vez de enxergá-los como versões “comportadas” dos clássicos, ela preferiu se dedicar ao desenvolvimento de receitas autorais para os mocktails, dando novas perspectivas para um segmento muitas vezes menosprezado, mas que estava — e permaneceu — com tudo.
A partir de então, Rachel passou constantemente a deixar de lado o avental de bartender para vestir um jaleco de cientista. Ela tem usado a ciência — contratou até estudantes de química como estagiários — para descobrir novas formas de utilizar ingredientes na coquetelaria. Entre os preferidos estão o cupuaçu, o cajá e o cambuci. Também já colocou Fruit Loops para jogo, o cereal da infância de quem cresceu nos anos 1990, com a ideia de trazer a nostalgia para sua carta. E conseguiu.

Em fevereiro deste ano, recebeu um convite para assumir a gerência dos bares do Hotel W Brasil. Não era uma decisão fácil: abandonar um dos cargos de maior prestígio na coquetelaria em um restaurante muito premiado para dar um novo salto. Disse sim, sabendo que o novo sempre vem, mas uma máxima ela conserva.
Rachel diz adotar um mandamento em sua rotina, que é o que a vincula a quem está do outro lado do balcão. “Não julgarás”, brinca, para depois falar sério. “Quando um cliente senta no meu balcão, ele está procurando diversão, e não um julgamento. Se ele me pedir um drinque proteico ou decidir pedir dez coquetéis às dez horas da manhã — como já aconteceu —, é nosso trabalho oferecer a melhor opção disponível. Sempre com um sorriso e compreensão, sabe?.”
Estagiário sob supervisão de Fernanda Aranda
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