Curado é bar no nome, mas tem comida para encarar muito restaurante
No Itaim, o catarinense Filipe Duarte estreia em São Paulo com uma cozinha que não precisa de formalidade para mostrar técnica

Conheci Filipe Duarte em Florianópolis, onde nasceu e construiu boa parte de sua trajetória na cozinha. Como sou casado com uma catarinense, vou para lá com frequência e já acompanhava seu trabalho, mesmo à distância, antes de ele decidir trocar a ilha por São Paulo.
A relação dele com comida começou cedo e, como seria de se esperar de alguém criado tão perto do mar, veio muito ligada à pesca. Ainda criança, Filipe pescava com os avós e muitas vezes aquilo que saía da água virava o almoço ou o jantar da família, com algumas de suas primeiras lembranças de cozinha ligadas justamente a limpar e fritar peixe ao lado da avó.
Depois vieram as cozinhas profissionais e uma carreira construída em restaurantes de referência de Santa Catarina, quase sempre com pescados e frutos do mar ocupando espaço importante. Paralelamente, Filipe também se tornou criador de conteúdo e acumulou alguns milhões de visualizações falando de comida para uma audiência enorme nas redes sociais.

Quando decidiu trocar Florianópolis por São Paulo, portanto, Filipe já trazia uma trajetória construída na cozinha e uma audiência enorme nas redes. O Curado abre um novo capítulo dessa história. E, por aqui, ele chegou chegando.
Aberto neste ano no Itaim Bibi, o Curado se apresenta como um lugar de gastronomia e botecagem. Depois do almoço que tive por lá, fiquei pensando que talvez ele também possa ser definido como um restaurante disfarçado de bar.
Tem chope bem tirado, coquetéis, comida para colocar no centro da mesa e aquela informalidade que permite chegar apenas para beber alguma coisa. Só que vários dos pratos que provei poderiam tranquilamente estar no cardápio de grandes restaurantes da cidade.
Talvez chegassem em outra louça, com uma montagem mais delicada e uma roupa um pouco mais elegante, como pede cada ambiente. Isso não é crítica, muito pelo contrário, uma das graças do Curado está justamente em comer muito bem sem que a comida precise parecer sofisticada.

Fui numa sexta-feira com dois amigos para fazer aquele tipo de almoço que começa sem horário muito definido para terminar. O primeiro chope chegou junto com o rosbife da casa e, dali em diante, a mesa foi ganhando pratos numa velocidade pouco compatível com qualquer ideia inicial de moderação.
Filipe diz temperar o rosbife como um pastrami antes de selá-lo e cortá-lo bem fino. Ele chega com pão e picles caseiros e funciona exatamente como deveria funcionar uma boa abertura de bar, dando vontade de continuar pedindo.
Logo depois veio um dos grandes acertos do almoço, a batatonese de polvo. Ela chega à mesa com um ovo frito por cima e só então tudo é rapidamente misturado diante do cliente, juntando batata cozida, maionese kewpie da casa, vinagrete de polvo, picles, clara e gema.
É uma pequena bagunça visual que funciona muito bem. Tem cremosidade, acidez, textura e bastante sabor, e é justamente um daqueles pratos que poderiam ganhar outra montagem num restaurante mais formal sem que ninguém estranhasse.
Nessa altura o chope já começava a dividir espaço com o Caju Amigo, feito com cachaça, limão-taiti e compota de caju. Gosto dessa escolha da carta de colocar drinques brasileiros com naturalidade ao lado dos clássicos internacionais, sem transformar a cachaça numa atração exótica.
Outro prato que ficou na memória foi o tartare atum com melancia. O peixe chega em cubos com limão-siciliano, azeite, tomate-cereja e shissô, enquanto a fruta traz frescor e uma doçura discreta que não atropela o ingrediente principal.
É também um dos momentos em que aparece de maneira mais clara a intimidade de Filipe com produtos do mar. Não há molho demais ou uma lista interminável de componentes, apenas ingredientes suficientes para deixar o atum ainda melhor.
Ainda passaram pela mesa o steak tartare, feito de maneira bastante clássica e servido com batata frita, a croqueta de rabada, o Mineirinho e a coxinha. Todos cumpriram muito bem a função de transformar aquele almoço de sexta numa refeição cada vez mais longa.
No copo, segui para o Jorge Amado, mistura de cachaça, cravo, canela, maracujá e limão-taiti. É outro exemplo de como a parte líquida acompanha bem a proposta da casa, com drinques brasileiros que têm cara de bar e não de exercício de coquetelaria.
Quando qualquer pessoa razoável provavelmente já estaria pensando no café, chegou o arroz de frutos do mar. E ainda bem que chegou.
Preparado à espanhola, leva polvo, camarões grelhados e lula crocante e foi, ao lado da batatonese e do atum, um dos meus pratos preferidos do almoço. Tem profundidade, bastante sabor de mar e estrutura suficiente para ser o prato principal de qualquer restaurante.
Também é difícil não ligar esse arroz à própria história de Filipe. O garoto que pescava com os avós em Florianópolis cresceu, passou por cozinhas profissionais e acabou trazendo para São Paulo justamente no trato com pescados alguns de seus melhores argumentos.
Faltava o pudim.
É daqueles lisos, sem furinhos e sem vontade alguma de reinventar uma sobremesa que não precisa ser reinventada. Serve duas pessoas segundo o cardápio, embora tenha funcionado perfeitamente para três amigos que naquele momento já não tinham qualquer autoridade para discutir tamanho de porção.
Saí praticamente rolando do Curado, mas muito feliz (muito mesmo). E aquele almoço que deveria apenas se estender um pouco pela tarde acabou mostrando que a palavra bar explica só parte do que Filipe montou no Itaim.
Ele trouxe para São Paulo uma carreira já construída, mas não parece interessado em simplesmente reproduzir aqui o que fazia pelas bandas da Ilha da Magia. O Curado tem personalidade própria, permite pedir chope e coxinha na mesma mesa em que chegam um ótimo crudo de atum e um arroz de frutos do mar com nível de restaurante.
Prefiro não fazer previsões sobre até onde Filipe Duarte pode chegar em São Paulo. Por enquanto, basta dizer que sua primeira casa na cidade já me deu uma ótima razão para voltar.
Serviço
Curado Rua Professor Carlos de Carvalho, 113, Itaim Bibi, São Paulo Instagram: @curadosp Telefone: (11) 94120-2280 Funcionamento: segunda, das 11h30 às 15h30, terça a quinta, das 11h30 à 0h, sexta, das 11h30 à 1h, sábado, das 12h à 0h, e domingo, das 12h às 18h.
from Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo https://ift.tt/Zwu7efm
via IFTTT

Comentários
Postar um comentário