Cena, no Emiliano, já nasceu redondo e promete fazer barulho

Novo restaurante surpreende com cardápio enxuto e já está entre as melhores aberturas recentes de São Paulo


No Cena, o projeto de Arthur Casas colocou a cozinha no centro do salão | foto: Tuca Reinés
No Cena, o projeto de Arthur Casas colocou a cozinha no centro do salão | foto: Tuca Reinés

 

Restaurante dentro de hotel de luxo costuma carregar algumas expectativas antes mesmo de a comida chegar à mesa. Ainda mais quando o hotel em questão é o Emiliano, na Oscar Freire, um dos endereços mais sofisticados de São Paulo.

Por isso, o Cena engana para o bem. O ambiente e o endereço poderiam anunciar um restaurante cheio de pompa, menu interminável e alguma formalidade, mas o que encontrei foi justamente o contrário: um cardápio enxuto, uma cozinha aberta e, principalmente, uma comida deliciosa que não precisa complicar para mostrar técnica.

Para mim, é uma das melhores aberturas recentes de São Paulo e, talvez mais importante, um restaurante que já nasceu redondo. Poucos meses depois de abrir, o Cena passa a sensação de uma casa que sabe o que quer ser.

O restaurante ocupa o espaço do antigo Restaurante Emiliano, mas a mudança foi além do nome. O projeto de Arthur Casas colocou a cozinha no centro do salão, os uniformes foram desenhados por Lenny Niemeyer e Luís Otávio Álvares Cruz, eleito o melhor sommelier do Brasil em 2023, responde pela curadoria de bebidas.

Na cozinha está Vinícius Pires, o Vinão, cuja trajetória acompanho desde os tempos de Evvai. Foram seis anos na equipe de Luiz Filipe Souza, além de passagens por cozinhas no Brasil e na Europa, incluindo experiências na Accademia Niko Romito, na Itália, e no Frantzén, em Estocolmo.


Aos 29 anos, o chef Vinicius Pires já demonstra uma grande maturidade para escolher, editar e entender que técnica funciona melhor quando está a serviço do sabor | foto: Tuca Reinés
Aos 29 anos, o chef Vinicius Pires já demonstra uma grande maturidade para escolher, editar e entender que técnica funciona melhor quando está a serviço do sabor | foto: Tuca Reinés

Em 2026, Vinão venceu a etapa brasileira do Bocuse d'Or e representou o país na seletiva das Américas, realizada em julho, em Nova Orleans. O Brasil não terminou entre os cinco classificados para a final mundial de Lyon, em janeiro de 2027, mas a participação ajuda a dimensionar o momento profissional de um chef que, aos 29 anos, assumiu uma cozinha de enorme responsabilidade.

Minha refeição começou com os tomates, servidos com vinagrete de Jerez e harissa, e aqui já apareceu uma das melhores coisas que comi naquela noite. É uma salada de tomate daquelas que parecem simples quando descritas no cardápio, mas que fazem você voltar ao prato o tempo todo, refrescante, muito bem temperada e precisa.

Depois veio a carne cruda com anchovas do Cantábrico e melão. Tenho uma fraqueza assumida por anchovas e gostei muito da maneira como aparecem aqui, presentes o suficiente para marcar o prato, sem tirar o protagonismo da carne.

O coração de pato, acompanhado de castanha de caju e carambola, talvez seja a escolha menos óbvia do menu e foi uma ótima surpresa. Em relação ao coração de galinha que estamos mais acostumados a encontrar, o de pato é maior, mais carnudo e tem uma textura mais firme, o que muda bastante a experiência.

Mas foi o arroz de cogumelos, brócolis e uva fermentada que virou o prato da noite. Um arroz memorável, daqueles que fazem ingredientes aparentemente corriqueiros ganharem outra dimensão, e que eu pediria novamente sem pensar duas vezes.

O flat iron com batata assada, estragão e alho negro confirmou a regularidade da cozinha. Carne no ponto, bons acompanhamentos e, novamente, um conjunto muito bem amarrado.

Aliás, uma das coisas que mais me chamou a atenção no jantar foi justamente o trabalho das bases e dos molhos. Eles estão por toda parte sem parecer uma demonstração de técnica, dão profundidade aos pratos e ajudam a explicar por que um cardápio tão curto consegue entregar tanto.

Para terminar, o entremet de leite com doce de leite e frangipane. Não sei explicar exatamente por que essa sobremesa é tão boa, e talvez nem precise: é daquelas que parecem discretas na descrição e acabam se tornando uma das melhores lembranças da refeição.


O coração de pato é um dos pratos mais surpreendentes do menu do Cena | foto: Tuca Reinés
O coração de pato é um dos pratos mais surpreendentes do menu do Cena | foto: Tuca Reinés

No fim, o maior acerto do Cena talvez esteja nessa distância entre o que o endereço faz imaginar e o que efetivamente chega à mesa. O Emiliano continua ali no serviço, no cuidado e na beleza do espaço, mas o restaurante tem personalidade própria, cardápio curto e uma cozinha muito mais interessada em fazer você comer bem do que em impressionar pelo excesso.

E há algo especialmente promissor nisso tudo: aos 29 anos, o chef já demonstra uma grande maturidade para escolher, editar e entender que técnica funciona melhor quando está a serviço do sabor. Se este é o ponto de partida de uma fase em que ele finalmente assume uma cozinha com sua assinatura, tudo indica que ainda vamos ouvir falar muito dele, porque promete ir longe.

 

Serviço

Cena, Hotel Emiliano

Rua Oscar Freire, 384, Jardim Paulista, São Paulo

Almoço diariamente, das 12h às 15h

Jantar diariamente, das 19h às 23h

Reservas: (11) 98925-3196

Instagram: @cena_emiliano



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