Rodeio troca de endereço, mas mantém picanha fatiada e alma da casa intactas

Depois de quase sete décadas no mesmo trecho da rua Haddock Lobo, o restaurante Rodeio se mudou, mas não foi longe. Do número 1498, onde funcionou desde a fundação em 1958, a casa passou para o número 1448, na mesma calçada, cerca de 50 metros acima. O endereço original vai dar lugar a um empreendimento imobiliário de alto padrão. Enquanto isso, o novo espaço, contemporâneo e assinado pelo arquiteto Isay Weinfeld, foi pensado do zero para receber os clientes que acompanham a casa há gerações. Já o prédio anterior era, na prática, uma soma de imóveis vizinhos alugados ao longo do tempo — o que explica por que a operação, apesar de consolidada, sempre esbarrou em limitações estruturais.

A mudança não estava nos planos da família Macedo, que por anos recusou propostas de incorporadoras interessadas no terreno. O cenário mudou quando surgiu a possibilidade de negociar também o imóvel vizinho, que já pertencia à família, e o novo endereço acabou nascendo dessa negociação.

Detalhes do restaurante Rodeio, que muda de endereço em São Paulo.
Detalhes do restaurante Rodeio, que muda de endereço em São Paulo.

Passando por gerações

O Rodeio foi fundado em 1958 e comprado pelo empresário Roberto Macedo um ano depois. Silvia Macedo Levorin, hoje à frente do negócio, começou a ajudar o pai em 1986, aos 21 anos, e assumiu a direção em 2012, após a morte dele. Hoje ela divide a gestão com a mãe, Gilda, e os irmãos Rodrigo, Sandra e Beto.

Para Silvia, o que sustenta a casa nunca foi o metro quadrado, mas o vínculo com quem senta à mesa há décadas. “Acredito que a alma do Rodeio está nos nossos valores e na nossa equipe, portanto ela irá conosco sempre”, diz. “Respeitamos muito nossos clientes, com os quais mantemos uma forte relação afetiva e de confiança. Esse é um vínculo que fazemos questão de preservar, independentemente do endereço”.

O novo Rodeio é, na prática, mais enxuto que o anterior: mil metros quadrados contra os 1,8 mil do endereço antigo, e 150 lugares, cerca de 100 a menos do que a casa chegou a ter em sua capacidade máxima. É uma redução considerável, e cabe à casa provar que o novo tamanho não vai apertar o ritmo de um salão acostumado a girar mesas grandes em movimento constante.

Segundo Silvia, a ideia não foi reinventar a experiência, mas resolver, na planta, questões que a operação antiga só contornava. “A experiência que os nossos clientes conhecem não muda, mas fica ainda melhor em um espaço pensado desde o início para otimizar o fluxo operacional, aprimorar o sistema de exaustão e ampliar o conforto, a estética e a acústica”, justifica. “A ideia é evoluir sempre, um clássico que se renova.” A equipe de salão e cozinha é a mesma de sempre — não houve mudança de pessoal na transição — e parte dos utensílios e equipamentos do endereço antigo foi reaproveitada no novo espaço.

Silvia Macedo Levorin, sócia do restaurante Rodeio
Silvia Macedo Levorin, sócia do restaurante Rodeio

O cardápio, por sua vez, não mudou uma vírgula. Escolha deliberada da casa. “O cardápio permanece o mesmo, garantindo que a experiência do nosso cliente e sua relação afetiva com a casa sejam mantidas”, diz Silvia. Seguem no menu clássicos como o pão de queijo, o estrogonofe e a sobremesa de creme de papaia ao licor de cassis — pratos que fazem parte da casa desde muito antes da picanha fatiada, que só entrou no cardápio na década de 1970 e acabaria se tornando o prato mais pedido do Rodeio.

A picanha

Manter esse clássico relevante para novas gerações, segundo Silvia, não passa por reinventar a receita, mas por uma atenção quase obsessiva ao detalhe. “Nosso principal desafio em relação à picanha fatiada é servir no ponto desejado por cada cliente da mesa, mantendo sempre o cuidado no preparo que fez desse prato um clássico da casa”, afirma. “Como em todo o nosso atendimento, buscamos superar as expectativas dos nossos clientes”.

É uma resposta que diz algo sobre como o Rodeio tenta lidar com a própria permanência: não resistindo à mudança, mas tentando absorvê-la sem perder identidade. É o que nem sempre é simples quando se troca de casa depois de quase 70 anos.

O público também mudou, segundo Silvia, e não necessariamente na direção mais fácil para o restaurante. “Acredito que o nosso público está cada vez mais exigente e com acesso a carnes de alta qualidade”, pondera. “Cabe a nós garantir o padrão Rodeio, desde a matéria-prima até o ponto ideal para cada cliente, sempre com um serviço personalizado e atento”.



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