Na Aclimação, Suzuki Ie aposta na cozinha japonesa caseira

Não digo turistar. Mas como é bom sentir-se fora de São Paulo em plena São Paulo. Sentar-se num quintal, tomar chá servido em xícara de vó, trocar buzinas por passarinhos e almoçar no próprio compasso. Foi assim que o Suzuki Ie roubou meu coração.

Numa rua residencial da Aclimação, a antiga casa de família já foi um tantão de coisa. Foi onde cresceu Carlos Suzuki, neto de imigrantes japoneses. Depois virou uma pensão administrada por sua mãe e, mais tarde, um ashram, comunidade dedicada à prática da ioga que recebia estrangeiros de passagem. Quem alimentava os yogis era o próprio Carlos, um barbeiro bem-sucedido.

Até que ele se casou com uma cozinheira e pegou ainda mais gosto pelo fogão, convertendo a garagem num pequeno izakaya. Há menos de um ano, a mudança foi mais radical: quase todos os cômodos deram vida a este restaurante, onde a simplicidade é uma escolha.

Salão do restaurante Suzuki Ie
Salão do restaurante Suzuki Ie

Não se trata da melhor cozinha japonesa de São Paulo. Nem da região. Não há peixes raríssimos, ingredientes importados exibidos como troféus, tampouco omakases. Sabe o que ele tem? Essência.

Suzuki, como quase todo mundo chama Carlos, não veio da gastronomia, mas, quando mergulhou no universo da ioga devocional, descobriu que cozinhar também era um gesto de acolhimento. Depois, com sua companheira, aprendeu a mimar com pratos de sua infância. Hoje, suas origens orientam seus passos.

No Suzuki Ie, o cardápio foge do repertório básico da culinária japonesa. Não há jô de salmão, cream cheese, trufas ou combinações exuberantes feitas para render fotos. Em vez disso, há gohan servido como acompanhamento de quase tudo, anchova grelhada, frango ao missô, karê e outros sabores que evocam a comida das avós nipo-brasileiras.

Porção de comida servida no Suzuki Ie
Porção de comida servida no Suzuki Ie

A receita mais simbólica talvez seja o kakiage, um “tempurá mais rústico”. O de Suzuki segue a receita da avó, Tokue Kikushi Yoneyama – a dona Ruth, como era conhecida na vizinhança. Nada de misturas modernas de féculas importadas para deixá-lo etéreo. Para empanar diversos legumes cortados em tiras finas em um único bloco, a massa leva farinha de trigo, um pouco de fermento, água e temperos. Fica mais encorpada, como sua obāchan preparava nos tempos em que os ingredientes eram escassos.

A memória afetiva também orienta outras escolhas. O sunomono, por exemplo, vira uma salada fresca de pepino com molho de mostarda porque Suzuki nunca gostou do excesso de acidez das versões tradicionais. O curry é vegetariano, preparado com grão-de-bico, batata e cenoura, lembrando a época em que cozinhava em templos Hare Krishna. Até o karaage ganhou uma versão com shimeji para acolher melhor os vegetarianos.

Chef Carlos Suzuki com uma porção de sushi do seu restaurante
Chef Carlos Suzuki com uma porção de sushi do seu restaurante

Ao mesmo tempo, há um respeito rigoroso pelas técnicas tradicionais. Os peixes chegam inteiros sempre que possível. Os filés são retirados antes da evisceração, evitando que a carne tenha contato com os órgãos internos ou com água corrente – um método mais trabalhoso, mas que preserva frescor, textura e sabor por mais tempo.

A sardinha ilustra bem essa filosofia. Depois de limpa e filetada, passa a noite marinando no su, o mesmo molho à base de vinagre de arroz, sal e açúcar que tempera o shari. Prestes a montar nos nigiris (R$ 45 a dupla), recebe cortes milimétricos que rompem as espinhas mais delicadas, tornando-as praticamente imperceptíveis ao paladar. É um trabalho minucioso, à base de pinça e faca.

Há cuidado onde, na maior parte das vezes, o cliente nem percebe. Deve ser o ie do nome (lar, em japonês), que carrega em si um ambiente acolhedor, familiar, de culinária caseira. Não parece um restaurante tentando reproduzir o Japão, nem um exercício de nostalgia; parece, simplesmente, uma casa sansei que abriu as portas.

Porção de sushi do Suzuki Ie
Porção de sushi do Suzuki Ie

Os pratos e os sashimis – cortados sempre contra a fibra e respeitando a anatomia de cada peixe, seja carapau, atum ou tainha – pedem a companhia da chaleira fumegante, das louças desparelhadas e do quintal.

Em uma cidade onde tantos restaurantes japoneses disputam atenção pela exclusividade ou pelo espetáculo, o Suzuki Ie não tenta o extraordinário. Talvez por isso seja tão fácil querer voltar. Às vezes a gente só precisa ir ao refúgio de alguém.

Vale saber: o prato mais caro do cardápio custa R$ 78; os sashimis começam em R$ 35 (cinco fatias); o almoço executivo não chega a R$ 50. Além do bancha (R$ 12) servido nas xícaras de dona Ruth, o mocktail de matcha e limão (R$ 24) é tão bem-vindo quanto os pets.

Suzuki Ie

R. Paulo Orozimbo, 1121, Aclimação. Qua. a sáb., das 12h às 15h30 e das 19h às 22h; dom., das 12h às 16h. WhatsApp: (11) 91562-7378



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