Matador Room mostra por que segue como um grande restaurante de Miami
Hospedado no Miami Beach EDITION durante a Copa do Mundo, voltei ao restaurante dez anos depois e descobri que algumas lembranças realmente envelhecem bem

Lobby do Miami Beach EDITION, que hospeda o Matador Room | foto: divulgação
Entre estádios, aeroportos e muitos quilômetros rodados, toda Copa do Mundo acaba sendo feita de pequenas lembranças. Algumas nascem de um gol, outras de uma conversa inesperada ou de uma cidade que surpreende. Para quem gosta de gastronomia, porém, muitas acabam acontecendo à mesa.
Foi exatamente por isso que, durante minha passagem por Miami, me hospedei no Miami Beach EDITION. A escolha tinha um motivo muito especial, já que, dez anos atrás, em 2016, fui ao mesmo hotel com a Fernanda, que estava grávida do Joca, para jantar em um restaurante que haviam me recomendado muito bem.
Era uma viagem completamente diferente. Não existiam filhos correndo pelos corredores nem a correria típica de acompanhar uma Copa do Mundo. Existia apenas a expectativa pela chegada do nosso primeiro filho e um jantar que, sem que eu imaginasse, acabaria ficando guardado para sempre na memória.
Naquela época, o Matador Room tinha Jeremy Ford como chef executivo, recém-consagrado vencedor do Top Chef americano, sempre sob a supervisão de Jean-Georges Vongerichten. Foi naquela noite que provei uma pizza de trufas negras com queijo fontina de que me lembro sempre.
O curioso é que nunca mais voltei. Até agora.
E talvez nenhuma coincidência represente tão bem a passagem do tempo quanto esta. Dez anos depois, sentei novamente naquele restaurante. Mas desta vez acompanhado justamente por quem, na primeira visita, ainda estava na barriga da mãe.
Alguns hotéis são apenas lugares onde passamos a noite. Outros acabam entrando para a nossa própria história e o Miami Beach EDITION, para mim, pertence claramente ao segundo grupo.

Lobby do Miami Beach EDITION, que hospeda o Matador Room | foto: divulgação
Instalado no antigo Seville Hotel, um dos ícones de Miami Beach nos anos 1950, o prédio foi completamente reinventado por Ian Schrager, responsável por alguns dos hotéis mais influentes das últimas décadas. O resultado é um hotel elegante, contemporâneo e extremamente agradável, que consegue reunir famílias, casais, hóspedes voltando da praia, pessoas tomando um drinque ao pôr do sol e clientes que simplesmente passam por ali para jantar. É sofisticado sem ser engessado.
Esse espírito aparece também no Matador Room. Apesar da assinatura de Jean-Georges Vongerichten, um dos chefs mais importantes do mundo e responsável também pelo restaurante do Palácio Tangará, em São Paulo, o restaurante está longe de ser aquele ambiente excessivamente formal que muita gente imagina ao pensar em alta gastronomia dentro de um hotel.
Quem prefere um ambiente mais clássico pode escolher o belíssimo salão oval, preservado do antigo Seville Hotel, iluminado pelo lustre original restaurado e inspirado nos glamourosos supper clubs americanos das décadas de 1940 e 1950. Já quem busca uma atmosfera mais descontraída encontra na Matador Terrace um dos lugares super agradável para jantar, praticamente integrada à piscina, cercada por vegetação tropical, com vista para o oceano.

Prime Ribeye, um dos pontos altos da noite | foto: Fred Sabbag
A cozinha de Jean-Georges também combina perfeitamente com a cidade. Embora sustentada pela técnica francesa que o tornou um dos grandes nomes da gastronomia mundial, ela interpreta sabores espanhóis, caribenhos e latino-americanos com enorme leveza, valorizando ingredientes frescos e preparações sazonais.
Confesso que, ao abrir o cardápio, procurei imediatamente a famosa pizza de trufas negras e queijo fontina. Ela continua lá e, por alguns segundos, pensei seriamente em repetir exatamente o pedido de dez anos atrás, mas acabei desistindo porque o Joca ainda não gosta de trufas (um pequeno desvio gastronômico que pretendo corrigir muito em breve).
Aproveitei então para provar outras sugestões. Comecei pelas excelentes croquetas de jamón Cinco Jotas e queijo manchego, crocantes por fora e extremamente cremosas por dentro. Em seguida vieram os cogumelos grelhados com queijo de cabra e vinagrete de pimenta, combinação elegante levemente picante.
A entrada que mais me marcou, porém, foi o tartare de atum servido sobre pan tumaca e finalizado com pimentões piquillo. Fresquíssimo, delicado e cheio de textura, que comeria em quantidades nada elegantes.
Para dividir, eu e Joca escolhemos o Prime Ribeye maturado. Há carnes que impressionam pelo tamanho, outras pelo marmoreio, mas essa impressionou pelo sabor e, servida no ponto perfeito, com purê de batatas e pimentas shishito, foi uma das melhores carnes que comi recentemente nos Estados Unidos.

Tartare de atum servido sobre Pan Tumaca | foto: Fred Sabbag
Enquanto caminhava por Miami Beach para fazer a digestão, fiquei conversando com o Joca sobre como alguns lugares conseguem registrar a passagem do tempo. Em 2016, saí dali imaginando como seria a vida com um filho e agora, dez anos depois, ouvi justamente esse filho comentar qual prato tinha gostado mais, dizer que um dia talvez experimentasse trufas e já perguntar onde comeríamos no dia seguinte.
Talvez seja essa a maior qualidade de um bom restaurante. Mais do que servir comida memorável, ele acaba fazendo parte da nossa própria história.
Não sou dos maiores conhecedores de Miami (apesar de já ter ido algumas vezes), mas fico com a certeza de que o Matador Room continua sendo um dos grandes restaurantes de lá. Mas, para mim, passou a ser muito mais do que isso, já que é um lugar ao qual sempre terei prazer em voltar, porque cada nova refeição ali inevitavelmente me fará lembrar da anterior.
E poucas coisas são tão valiosas quanto isso.
Serviço
Matador Room 2901, Collins Avenue
Miami Beach, FL 33140
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