‘Destino gastronomia’: 55% dos refugiados apostam na comida para reconstruir a vida no Brasil

Aboud, Gema e Mohammad têm, aqui no Brasil, o mesmo endereço: a gastronomia. Eles — imigrantes obrigados a deixar seus países de origem por dificuldades das mais diversas — confirmam uma estatística.

Um levantamento do ACNUR Brasil — Agência da ONU para Refugiados — mostra que, seja por desejo ou necessidade, as cozinhas se tornaram os principais espaços onde essa população tenta reconstruir a própria história. Os dados, aos quais o Paladar teve acesso, revelam que 55% dos empreendedores em situação de refúgio escolhem o setor gastronômico como área de atuação.

A liderança é ampla. O segundo lugar do ranking do empreendedorismo é ocupado pelo artesanato, com 12% das escolhas. A moda aparece na terceira posição, com 6%.

“A gastronomia é um tema muito forte e importante para os refugiados que acompanhamos. Criamos uma plataforma para promover conexões e apoio a esses profissionais, chamada Refugiados Empreendedores”, conta Paulo Sérgio de Almeida, oficial de inclusão socioeconômica do ACNUR no Brasil. “Temos o registro de 19 nacionalidades diferentes. A maioria é formada por mulheres, muitas delas mães solo, que fazem dos sabores, dos preparos e das receitas uma forma de sobrevivência para si e para o entorno.”

Essa recorrência da gastronomia como o principal caminho encontrado por imigrantes e refugiados tem uma explicação para Silvia Caironi. “É uma forma de reencontrar as próprias raízes e, ao mesmo tempo, florescer em um novo território”, diz a coordenadora da entidade Aventura de Construir.

Na instituição, há um trabalho de acolhimento, capacitação, formação e até organização financeira para empreendedores migrantes. Recentemente, 46 deles foram acompanhados desde a idealização até a execução de seus negócios. A maioria é formada por venezuelanos, mas também há iranianos e haitianos.

A reportagem conta a história de três pessoas que encontraram morada na gastronomia brasileira. E que fizeram da comida um caminho para nutrir novos sonhos.

Aboud e o recomeço em seu restaurante que hoje emprega 23 pessoas
Aboud e o recomeço em seu restaurante que hoje emprega 23 pessoas

Aboud, shawarma e o sabor de vencer

O aroma das especiarias toma conta de uma pequena loja enquanto um shawarma é preparado. Entre pedidos, perguntas sobre os temperos e clientes que chegam pela primeira vez, Aboud (@aboudsiria) faz questão de repetir que o segredo não está na receita.

“Trabalhamos direito, atendemos direito, fazemos amigos direito.”

É uma resposta simples para uma história que está longe de ser.

Quando deixou a Síria, em 2014, por causa da guerra, Aboud conhecia o Brasil por duas imagens que atravessam fronteiras: o futebol e o Carnaval. Chegou sozinho, sem falar português e sem imaginar que, dez anos depois, construiria uma vida em São Paulo justamente preparando uma das comidas mais tradicionais de seu país.

No começo, o fogão parecia distante. No Brás, trabalhou vendendo roupas e tênis enquanto tentava entender uma cidade completamente diferente da que havia deixado para trás. Foi na mesquita do bairro que encontrou outros sírios e árabes, conseguiu ajuda para alugar um lugar onde morar e começou a imaginar um novo caminho.

Dois anos depois, decidiu abrir um pequeno negócio especializado em shawarma. “Era uma comida muito famosa e marcante do meu país. No começo era só eu trabalhando”, lembra.

Hoje, o restaurante emprega 22 pessoas entre brasileiros, africanos e árabes. A clientela cresceu junto com o espaço, mas a rotina continua guiada pela mesma ideia que o fez trocar o comércio pela cozinha: oferecer aos brasileiros um pedaço da Síria que sobreviveu ao deslocamento.

Muita gente entra pela curiosidade de experimentar um “lanche” diferente. Outras voltam pelo tempero. Para Aboud, no entanto, o mais importante é perceber que a comida abre espaço para conversas que dificilmente aconteceriam em outro contexto. Ele costuma ouvir perguntas sobre seu país, explicar ingredientes, falar dos costumes e das diferenças entre as culinárias árabes. Enquanto prepara um shawarma, acaba contando também um pouco da própria história.

Rolos do shawarma, o sustento de Aboud
Rolos do shawarma, o sustento de Aboud

Muitos perguntam sobre sua relação com o Brasil, e Aboud sempre deixa tudo muito claro. “A gente respeita o país que deu água para nós quando precisávamos”, diz. “Eu construí minha vida aqui.”

Para ele, a cozinha virou um idioma comum entre pessoas que, há alguns anos, sequer compartilhavam a mesma língua.

Gema, seu restaurante e o sabor da memória

Para a venezuelana Gema Soto (@gemachef), a cozinha também nasceu de uma necessidade de reconstrução, mas antes de alimentar outras pessoas precisou reencontrar a si mesma.

Ela deixou a Venezuela quando a crise econômica tornou impossível sustentar a família. O salário já não cobria sequer as despesas básicas. Dois dos três filhos ainda estudavam e, depois de muito adiar a decisão, todos seguiram para o Brasil. São Paulo, porém, estava longe de representar um recomeço imediato.

Acostumados a viver do artesanato, descobriram que ali o trabalho quase não encontrava espaço. Gema conseguiu emprego como faxineira. O apartamento alugado não tinha cama, fogão ou móveis. Dormiam sobre as próprias roupas enquanto esperavam o primeiro salário.

Gema Soto, chef e proprietária do Chevere Restaurante
Gema Soto, chef e proprietária do Chevere Restaurante

Durante dois meses, o marido e o filho compravam um prato de comida para dividir entre eles. Para ela, sobravam pão e uma fruta. “Eu chorava de fome”, conta. “Mas era uma fome da minha casa. Da cozinha da minha mãe. Da cozinha do meu avô.”

Foi em um desses dias que decidiu caminhar sem rumo pelo centro da cidade. Acabou sentada em um canto do Pátio do Colégio quando um homem em situação de rua se aproximou oferecendo um café. Em vez de pedir alguma coisa, começou a contar histórias sobre São Paulo. Falou do rio que passava pela região, das antigas ruas da cidade e, em determinado momento, revelou por que vivia ali. Não conseguira superar a morte dos filhos.

“Naquele momento eu senti vergonha de mim mesma”, lembra Gema. “Eu tinha meus filhos comigo. Ainda tinha uma chance de reconstruir a minha vida.”

Ela nunca esqueceu aquela conversa. Na volta para casa, fez uma promessa silenciosa de que se um desconhecido havia sido capaz de oferecer conforto em seu pior dia, ela queria fazer o mesmo por outras pessoas.

Um mês depois, começou a trabalhar na cozinha de uma creche. Foi onde aprendeu português, descobriu os ingredientes brasileiros e passou a entender por que arroz e feijão ocupam um lugar tão importante na mesa do País. Mais tarde, criou o Chevere Restaurante (@chevere_restaurante), inicialmente como um delivery operado de casa.

A comida que prepara hoje não cabe em um rótulo nacional. “Eu não faço comida venezuelana nem brasileira. Eu faço comida.”

Na cozinha do Chevere, Gema costuma dizer que o principal ingrediente não é um tempero específico, mas a lembrança.

Ela cresceu observando o avô cozinhar em um fogão de barro alimentado por lenha. Embora o cardápio reúna preparos venezuelanos e ingredientes brasileiros, a intenção nunca foi reproduzir fielmente uma culinária nacional. O que Gema busca é despertar uma sensação de familiaridade, aquela comida que conforta antes mesmo da primeira garfada.

“Eu desenho um cardápio com preparos da Venezuela e do Brasil, porque estou apaixonada pela gastronomia brasileira”, diz. “Nossa cozinha cuida do preparo como era feito antigamente, com produtos naturais.”

"Torta de auyama", tradicional da confeitaria Venezuelana

Hoje, o restaurante funciona como um negócio familiar. Ela cozinha ao lado do marido e, durante feiras gastronômicas e eventos, as filhas também entram na operação. O desafio, admite, já não está na cozinha, mas em fazer o trabalho chegar a mais pessoas. “Se ninguém conhece você, ninguém recomenda.” Ainda assim, a comida continua fazendo o caminho por conta própria.

Mohammad, seus pratos e o sabor cultura

É o mesmo percurso que Mohammad espera ver acontecer com os pratos que prepara no Restaurante Afeganistão (@restaurante_afeganistao). Professor de matemática e assistente universitário antes da retomada do poder pelo Talibã, ele deixou o Afeganistão em 2022, passou pelo Irã e desembarcou no Brasil com um visto humanitário. O choque foi imediato. “Tudo era diferente... a língua, a comida, a moeda, as roupas.”

Com apenas 100 dólares, a preocupação inicial era encontrar abrigo e comida. Foi acolhido por uma igreja, aprendeu português, trabalhou como intérprete para outros refugiados afegãos e, quando o projeto chegou ao fim, começou a procurar um novo caminho.

Mohammad, chef e proprietário do Restaurante Afeganistão
Mohammad, chef e proprietário do Restaurante Afeganistão

A resposta apareceu em um curso de empreendedorismo. “Percebi que comida é uma necessidade para todo mundo.” Antes de abrir o restaurante, participou de feiras gastronômicas para entender como o público reagia aos sabores do Afeganistão. A recepção o surpreendeu.

Hoje, faz questão de apresentar aos clientes pratos como o qabuli palau, preparado com arroz, carne, cenoura e uvas passa, e o mantu, pequenos pastéis recheados com carne moída, cobertos por iogurte, grão-de-bico e hortelã. Sempre que alguém demonstra curiosidade, ele aproveita para contar a origem das receitas e explicar que a culinária também é uma forma de conhecer um país. “A gente trouxe, além da comida, a nossa cultura.”

Sheer pira, do Restaurante Afeganistão, é um doce tradicional do Afeganistão, cujo nome significa
Sheer pira, do Restaurante Afeganistão, é um doce tradicional do Afeganistão, cujo nome significa "leite doce" em dari

O restaurante, porém, nunca foi o destino final. Mohammad sonha em transformá-lo em um centro cultural, com biblioteca, exposições, música e dança tradicionais. Um lugar onde brasileiros possam conhecer o Afeganistão para além das imagens associadas à guerra. “Para mim, isso não é só um restaurante. É esperança. É um futuro.”

Serviço

Refugiados Empreendedores - encontre mais nomes da culinária

Acesse para saber mais www.refugiadosempreendedores.com.br

Onde fica o Aboud Shawarma

Endereço: Lg. do Paissandú, 55 - Centro Histórico de São Paulo, São Paulo

Onde fica o Chevere Restaurante

Faça seu pedido via WhatsApp: 11 97711-4883

Onde fica o Restaurante Afeganistão

Rua Salvador Fernandes Cardia, 419 - Jardim Helena, São Paulo



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