Com 116 anos de história e um garçom com cinco décadas de casa, Guanabara apresenta novidades
Com um sorriso no rosto e verve de poeta popular, Edivalson Ferreira da Silva, de 75 anos, conhecido como Vavá do Bixiga, recebe os clientes no Guanabara — o bar mais antigo em atividade ininterrupta na cidade de São Paulo.
Com quase seis décadas de casa, Vavá é um pilar da boemia paulistana, um arquivo vivo, um “Google” (como gostam de brincar seus colegas de salão) e, principalmente, alguém com um evidente prazer em contar a história do estabelecimento que já passou dos 116 anos de vida.
Ele se lembra do amigo Adoniran Barbosa, que batia sambas na caixinha de fósforo durante o almoço; das visitas constantes de Mazzaropi; das mesas recheadas de intelectuais da estatura de Menotti Del Picchia ou de políticos relevantes como Jânio Quadros, Mário Covas e Franco Montoro.

Além disso, Vavá também sabe cultivar lendas urbanas ao redor do Guanabara — como aquela que garante que Santos Dumont fazia rascunhos de seus projetos de avião nos guardanapos do bar. Embora não haja nenhuma evidência concreta, as visitas do pai da aviação soam irrefutáveis quando contadas por Vavá.
Ao caminhar pelo salão do Guanabara, por entre as mesas de toalha branca, Vavá vai lembrando e contando um pouco da história de São Paulo...
O Guanabara

O Guanabara foi fundado em 1910 pela família do imigrante Ângelo Martinez. O bar nasceu na Rua Boa Vista, próximo ao Largo de São Bento. Em 1968, o imóvel que abrigava a primeira versão do Guanabara foi desapropriado para o início das obras da Estação São Bento do Metrô.
No mesmo período, o empreendedor Nelson de Abreu Pinto administrava o restaurante A Brasileira, localizado no salão térreo do Edifício José Moreira (mais conhecido como Edifício Baraúna), na Avenida São João, colado ao Vale do Anhangabaú, no mesmo endereço que já havia abrigado o histórico Bar e Restaurante Pinguim.
Quando soube do iminente fechamento do Guanabara na Rua Boa Vista, Nelson teve uma ideia. “Como frequentador e fã do Guanabara, meu pai não quis deixar que o bar deixasse de existir. Ele, então, comprou a marca da família Martinez e abriu aqui, onde estamos até hoje, no endereço que já foi do Pinguim e da A Brasileira”, disse Edson Pinto, filho de Nelson.

Nos anos 1970, sob o comando de Nelson, o Guanabara viveu seus anos de glória. Intelectuais e políticos marcavam ponto por lá. Os artistas, que também eram assíduos da casa, eventualmente assumiam o piano, sacavam um violão ou simplesmente soltavam a voz. Entre os nomes mais famosos estão o já citado Adoniran Barbosa, o seresteiro Silvio Caldas, os cantores Benito Di Paula, Raul Seixas, Geraldo Vandré e a própria Elis Regina.
Mas o processo de decadência do Centro de São Paulo foi tirando o brilho do Guanabara. Do final dos anos 1980 até o começo dos anos 2000, a região viveu seu pior período de degradação — e, quando parecia se recuperar, veio a pandemia de Covid-19. “O Guanabara só não fechou por amor. Com altos e baixos, vivemos uma montanha-russa na região”, falou Edson.
“Felizmente, vejo agora que a região está vivendo um momento de recuperação, com apoio da Prefeitura, do Governo e da iniciativa privada. Estamos prontos para viver um novo auge”, completou Edson, que desde o falecimento do pai (Nelson), no ano passado, assumiu todo o controle do Guanabara.

As Novidades
Algumas coisas no Guanabara são inegociáveis: a presença de Vavá do Bixiga como embaixador da casa, o atendimento dos garçons diretamente nas mesas (Edson conta que um consultor sugeriu espalhar tablets pelo salão — risos!), o café bem tirado, a famosa coxa-creme e um parmegiana que atravessa gerações.
Ainda assim, o Guanabara está olhando para o futuro. Sob o comando do chef Rafael Spencer, a casa passa por uma reformulação de menu. Entre os lançamentos estão o Risoto de Ossobuco à Dr. Nelson, homenagem a Nelson de Abreu Pinto, que comandou o bar por mais de cinco décadas; e o Nhoque à Adoniran, criado em referência ao cantor e compositor Adoniran Barbosa — o prato combina nhoque, molho pomodoro, tomate-cereja confitado, rúcula, lascas de filé-mignon e é finalizado com molho bechamel.

“Nossa proposta é trazer novidades que dialoguem com a história da casa e com o público atual. Cada prato novo foi pensado para valorizar nossa tradição e, ao mesmo tempo, apresentar novas experiências gastronômicas aos clientes”, afirma o chef Rafael Spencer. “Como diz o Edson, a gente é antigo, mas não é velho”, completou.
Além da cozinha, o Guanabara está retomando sua programação cultural. Às sextas-feiras, o espaço recebe apresentações durante o almoço e, aos sábados, rodas de chorinho e samba sob curadoria do músico e produtor Guga Stroeter e da produtora Priscila Dias. A casa também traz o projeto Guanabara Disco, com DJs tocando flashbacks dos anos 1970 aos anos 2000, em uma quinta-feira por mês, das 18h às 23h.
O reposicionamento estratégico do Bar Guanabara, iniciado este ano, é conduzido pela Studio ODE, hub de estratégia, cultura e desenvolvimento territorial que une comunicação, turismo e gestão pública. O trabalho visa reposicionar o Bar Guanabara no circuito turístico e gastronômico da cidade, valorizando seu papel como guardião de uma memória centenária.
E o Vavá...
Vavá, que saiu do município de Uauá, no sertão nordestino — terra que ele próprio costuma apresentar como “palco da primeira batalha oficial da Guerra de Canudos e que também chegou a hospedar Lampião e seu bando” —, está no Guanabara desde os anos 1970.
Apesar dos serviços prestados, ele não pensa em se aposentar. “O Guanabara é um pedaço da minha vida”, disse. Vavá também está animado com a possibilidade de sentir, outra vez, as mesmas sensações que sentia quando o Guanabara estava no auge. “O Guanabara está tão forte quanto era lá nos anos 70”, avisou.
O embaixador e contador de histórias oficial do Guanabara tem mais de 10 livros lançados e é um daqueles poetas populares bons de ouvir. “Ah, eu tenho poemas sobre São Paulo. Mas agora estou pensando em escrever um poema para o Guanabara. Esse lugar merece”, avisou Vavá.
Estamos ansiosos...
Serviço:
Bar Guanabara
Onde: Av. São João, 128, Centro Histórico de São Paulo
Funcionamento: Almoço de segunda a sexta, das 12h às 16h; sábados, das 12h às 17h.
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