Restaurantes de shoppings tentam reverter má fama com chefs e ambientes intimistas

Quando Fabio Coelho decidiu abrir um restaurante mediterrâneo de 290 lugares dentro do Shopping Cidade Jardim, eles sabiam que estavam apostando em algo maior do que um cardápio. A proposta do Vila Medí era criar uma experiência que ativasse todos os sentidos — cenografia, mobiliário, aromas, vinhos, atendimento. O restaurante recebe hoje cerca de dez mil pessoas por mês e exige uma operação de 110 funcionários. “Fomos surpreendidos pelo tamanho dessa operação”, admite Coelho. “A quantidade de processos, decisões e movimentos que devem ser tomados cotidianamente para manter um nível de serviço superior é do tamanho do faturamento”.

Fabio Coelho, sócio do Vila Medì, no Shopping Cidade Jardim
Fabio Coelho, sócio do Vila Medì, no Shopping Cidade Jardim

O Vila Medí é um exemplo do que vem acontecendo com crescente intensidade nos corredores dos shoppings paulistanos: a chegada de restaurantes que recusam o papel de coadjuvante e tentam se impor como destino.

Não é uma virada repentina. A transformação tem raízes antigas e foi construída por operadores que apostaram no potencial gastronômico desses espaços antes de ser óbvio fazê-lo. João Adas, diretor executivo da Companhia Tradicional, lembra que há quase 20 anos sua empresa abriu a Lanchonete da Cidade no Cidade Jardim, “em um momento em que ainda era incomum encontrar operações gastronômicas autorais dentro de shoppings”.

Nos anos seguintes, vieram o Pirajá, a Bráz Trattoria, a ICI Brasserie e, quase uma década atrás, o Astor no JK Iguatemi. Hoje, cerca de 30% das operações da Cia Tradicional estão em centros comerciais — um número que, para Adas, não é detalhe. “São movimentos que ajudaram a mostrar que era possível oferecer nos shoppings a mesma qualidade, identidade e experiência encontradas nos grandes endereços de rua”, explica ao Paladar.

Entrada do ICI Brasserie, no shopping JK Iguatemi, já busca separar os dois ambientes
Entrada do ICI Brasserie, no shopping JK Iguatemi, já busca separar os dois ambientes

O preconceito, no entanto, sobreviveu por um bom tempo e alguns chefs o assumem com naturalidade. Henrique Fogaça, do Sal Gastronomia, é um deles. “Há mais de dez anos, eu tinha um certo preconceito com operações em shopping”, ele admite. “Naquela época, eu associava os shoppings principalmente às praças de alimentação e ao conceito de fast food”.

Com o tempo e a experiência prática dentro do Cidade Jardim, sua visão mudou. Virginia Jancso, sócia do Due Cuochi Cucina, esteve entre os primeiros a testar essa virada quando levou o restaurante para o recém-inaugurado Cidade Jardim, há 18 anos. “O desafio foi fazer um restaurante de rua rompendo o imaginário de pertencer a uma praça de alimentação”, ela conta. “E conseguimos fazer o que queríamos”.

O Cabaña Argentina, casa de carnes que ocupa o terraço do Pátio Higienópolis, chegou mais recentemente a esse universo, mas já nasce dentro de uma lógica diferente. “Felizmente, muitos dos preconceitos ficaram para trás”, diz Marcelo Maia, diretor de marketing da casa. “O público já reconhece que é possível encontrar nesses lugares casas com ótima gastronomia e serviço cuidadoso”.

O ambiente como argumento

Parte do esforço para superar esse estigma passa por uma decisão arquitetônica deliberada: criar espaços que pareçam, ao menos em parte, ignorar o shopping ao redor.

O Fuoco & Farina ocupa o rooftop do MorumbiShopping, com vista para a cidade e arquitetura que remete às suas unidades de rua. “Tenho escutado muito ‘nem parece que estou dentro de um shopping’”, conta o restaurateur Gianluca Perino. A frase se repete em conversas com diferentes operadores quase como um elogio-padrão — e revela a lógica que guia boa parte desse movimento.

Gabriel Abrão, sócio do Attivo Group, responsável pelo Su, que recentemente abriu uma unidade no Morumbi Shopping, fala em ambientes com janelas e maior relação com o exterior. “A pessoa aproveita a segurança e a conveniência do shopping, mas vive uma experiência que vai muito além disso”, explica.

Ambiente do Su, no shopping Morumbi, aposta em janelões e uma arquitetura que não segue o padrão de centros comerciais
Ambiente do Su, no shopping Morumbi, aposta em janelões e uma arquitetura que não segue o padrão de centros comerciais

Não é só uma questão estética. Para Coelho, do Vila Medí, o projeto arquitetônico e o projeto gastronômico precisam nascer juntos — e foi exatamente assim que a casa foi concebida. “Os chefs foram envolvidos desde a concepção arquitetônica, até a construção das cozinhas, para poderem criar seus pratos alinhados não só com a experiência gastronômica, como também com a experiência sensorial de estar em um local icônico”, diz.

Na casa, há pratos orientais, mediterrâneos e italianos, com a arquitetura ao redor acompanhando cada possibilidade do menu.

Virginia Jancso aponta na mesma direção quando fala das unidades do Due Cuochi. “Muitos dos nossos espaços foram pensados para que o cliente nem sinta que está dentro de um shopping.”, diz. A ideia, nesses casos, não é negar o endereço, mas sim torná-lo irrelevante.

Tagliolini com camarão do Due Cuochi
Tagliolini com camarão do Due Cuochi

Esse cuidado com o ambiente responde também a uma transformação mais ampla no comportamento do consumidor paulistano. Os shoppings deixaram de ser apenas centros de compras e passaram a disputar tempo de lazer, encontros sociais, programas de fim de semana. Nesse contexto, a gastronomia ocupa um papel cada vez mais central na estratégia dos empreendimentos. “A gastronomia deixou de ser um complemento da visita ao shopping e passou a ser, muitas vezes, um dos principais motivos para ela acontecer”, diz Adas.

O desafio de todos os dias

Se o ambiente é o cartão de entrada, é a operação cotidiana que coloca a proposta à prova. Funcionar todos os dias, com horários estendidos, picos de fluxo intensos e uma equipe que precisa entregar a mesma experiência na terça à tarde e no sábado à noite exige uma engenharia de processos que vai além do talento culinário. “Uma operação de sucesso não é construída em um único grande dia”, diz Fogaça. “Ela é construída na repetição diária de processos bem executados, por uma equipe alinhada”.

Abrão, do Su, é mais específico. “Esses processos passam por treinamento, execução culinária, padronização, checklists e acompanhamento constante do time de atendimento”, diz.

Renata Paraíso, sócia do Pão de Queijo Haddock Lobo, resume o dilema de forma direta. “Não adianta entregar excelência em alguns momentos e falhar em outros. Trabalhamos para que cada fornada, cada café servido e cada atendimento reflitam o padrão da marca”, afirma.

O Vila Medí, com quase 300 lugares e um cardápio que transita entre tapas e jantares de celebração, precisa manter uma oferta que atenda perfis muito distintos de consumo. “Não podemos, com uma operação de quase 300 lugares, esperar que todos queiram pratos de R$ 500”, ele diz. “Mas temos que ter um cardápio que atenda aqueles que querem tomar um drinque e comer umas tapas, e também aqueles que querem celebrar em altíssimo estilo”. É uma equação que exige tanto criatividade culinária quanto pragmatismo de gestão e que, segundo os operadores ouvidos, define cada vez mais o perfil dos restaurantes que conseguem prosperar dentro dos shoppings.

Um dos restaurantes do complexo Vila Medí, no Shopping Cidade Jardim
Um dos restaurantes do complexo Vila Medí, no Shopping Cidade Jardim

O que esses restaurantes estão, em conjunto, redesenhando é o papel da gastronomia dentro do shopping e, por extensão, o próprio conceito do que um shopping pode ser.

Adas, da Cia Tradicional, acredita que os empreendimentos mais bem-sucedidos serão aqueles “capazes de atrair públicos diversos e qualificados ao longo de toda a semana, criando diferentes ocasiões de encontro, convivência e consumo”. A gastronomia, nesse cenário, deixa de ser um serviço e passa a ser um argumento. Virginia Jancso observa que os shoppings já começam a olhar para os bons restaurantes “com olhar de lojas âncoras”. “Antes, os magazines e redes poderosas entravam na estratégia”, ela diz. “Sinal que a boa mesa também encanta além das compras”.



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