Mapa gastronômico da Tailândia: um mergulho na verdadeira cozinha tailandesa; veja vídeo

Na Tailândia, a relação de sua cultura com a comida está até na fala. Um convite para comer pode ser feito com a frase “kin khao” que, na tradução literal, significa, “comer arroz”. Muito rica, diversa, regional e sazonal, a cozinha tailandesa carrega peculiaridade em cada região, com proteínas diversas, ervas e receitas que mudam de relevo em relevo, de povo em povo.

“É tudo muito gastronômico, com uma cozinha extremamente elaborada, há uma difusão enorme de ingredientes, vegetais, ervas, e usos de proteína, em que o animal é aproveitado em sua totalidade. Eu sempre costumo dizer que, no Ping Yang, a gente faz um grãozinho de areia do que é a cozinha tailandesa e visitar a Tailândia para conhecer a sua gastronomia é um paraíso. Lá há uma infinidade de possibilidades, seja para restaurantes estrelados, barraquinhas de ruas e mercados”, então Maurício Santi, chef do Ping Yang, P’Lek e Thai Food Shop, aceitou o convite de Paladar para debravar essa culinária rica, de um país que respira boa comida.

A culinária tailandesa é rica em ingredientes, texturas, sabores e vai muito além do muito conhecido pad thai
A culinária tailandesa é rica em ingredientes, texturas, sabores e vai muito além do muito conhecido pad thai

Santi afirma que essa culinária está “inserida em uma cultura extremamente rica e complexa, tem um povo extremamente gastronômico, que tem muito orgulho da sua comida e cujo paladar é muito desenvolvido. A cozinha tailandesa é, sem dúvida, uma das maiores do mundo, tão vasta que cada ingrediente e prato explicado é apenas um grãozinho de areia nessa imensidão de sabores. A Tailândia é um livro aberto para ser pesquisado para o resto da vida”.

Diante de toda essa imensidão, no Brasil, “temos uma noção muito vaga do que ela é” - e, nas linhas abaixo, Maurício Santi e Paladar buscam mudar um pouco isso.

‘Vamos comer arroz?’

O arroz é o principal ingrediente da cozinha tailandesa, não à toa, como vimos, o comer arroz - “kin khao” - é, no tailandês, um convite para comer. “Um fio condutor sempre presente na cozinha tailandesa é o arroz. Há uma grande variedade, sendo dois tipos os principais: na região central da Tailândia, onde está a capital Bankok, o arroz jasmin é muito utilizado, geralmente cozido com água, sem nenhum tempero, e muito perfumado, é gostoso e funciona muito bem com diversos pratos, como os curries - sempre acompanhados pelo grão. Já na região Norte e Nordeste, é muito mais comum o arroz glutinoso, o Khao Niao”, diz Santi.

No Ping Yang, a única sobremesa da casa é uma cocada bem caramelizada envolvida por uma massa de arroz glutinoso, o Kanom Tom do Ping Yang - o dumpling é servido com leite de coco morno
No Ping Yang, a única sobremesa da casa é uma cocada bem caramelizada envolvida por uma massa de arroz glutinoso, o Kanom Tom do Ping Yang - o dumpling é servido com leite de coco morno

À mesa, compartilhar pratos é algo muito comum, com dez, doze ou quinze preparos ao centro e, cada consensal, com seu prato de arroz para “pescar” tudo isso. O arroz acompanha, mas também é acompanhado. Por sua textura pegajosa, o Kaho Niao chega a fazer o papel de colher. “Geralmente se come com a ponta dos dedos, tira uma lasquinha desse arroz, dá uma moldada na ponta do dedo e pega com um pedacinho de algum relish, dipping ou grelhado e leva à boca. Com ele, vai-se mudando o tempo do que vai comer, limpa-se o paladar com ele após uma salada bastante cítrica para, depois, seguir para o curry potente e untuoso.”

E não se limita a ser apenas arroz, mas também é utilizado para fazer sobremesas, dumplings, noddles ou finalização de receitas, com uma farinha de de arroz tostado com aromáricos, o Khao Khua, semelhante a uma farinha de mandioca, por exemplo.

Entre fermentados e fermentações

Existem inúmeras fermentações na Tailândia, geralmente de peixe, porco e frutos do mar, principalmente porque essa era uma forma de conservar os alimentos antigamente, quando não havia refrigeração. “O Nam Pla é uma fermentação de anchova feita com sal marinho comum na região litorânea Centro e Sul. Esse líquido fermentado funciona mais ou menos como o shoyu japonês e leva, no mínimo, seis meses para ficar pronto.”

TQ SÃO PAULO 19.05.2026 PALADAR MAPA DA CULINÁRIA DA TAILANDIA Pratos preparados pelo chef Mauricio Santi do restaurante especializado em culinária tailandesa, Ping Yang. Foto Tiago Queiroz/Estadão
TQ SÃO PAULO 19.05.2026 PALADAR MAPA DA CULINÁRIA DA TAILANDIA Pratos preparados pelo chef Mauricio Santi do restaurante especializado em culinária tailandesa, Ping Yang. Foto Tiago Queiroz/Estadão

Na região Nordeste, que faz divisa com Laos e Cambodja, o Pla Ra, fermentado de peixe de rio, é o mais comum. “Pode ser feito apenas com sal marinho e o peixe, mas também com uma camada de Khao Khua ou casca de arroz. O seu teor umami e sal é muito importante para os tailandeses, sendo seu uso muito extenso na culinária local.”

Aromáticos e a construção da complexidade

Um aromático muito presente na culinária tailandesa é a folha de limão makrut, que, à direita, aparece inteira e, à esquerda, está cortada chifonade (em tirinhas finas)
Um aromático muito presente na culinária tailandesa é a folha de limão makrut, que, à direita, aparece inteira e, à esquerda, está cortada chifonade (em tirinhas finas)

Para o tailandês, as PANCs, Plantas Alimentícias Não-Convencionais, são parte do dia a dia, são bastante convencionais, na realidade. “É o que existe em abundância no país, como capim-santo, algo comum no Brasil, mas usa-0se muito pouco e, geralmente, usamos a folha, na Tailândia, usa-se o bulbo, o talo, que é muito mais rico em óleos, essência e sabor.”

“O alho, gengibre, cebola roxa, chalota, galanga - um rizoma fisicamente parecido com gengibre, mas completamente diferentes como ingrediente -, folha de limão makrut e a fruta em si, são ingredientes muito aromáticos que compõem juntos as camadas de sabor da cozinha tailandesa.”

Essas camadas dão a complexidade fantástica dos pratos típicos do país, sempre ricos em frescor e aromas. “Essa construção é a grande alquimia da culinária tailandesa, em que se tem um prato que você pode até tentar identificar o que tem ali, mas não consegue, há sempre muitos ingredientes. Essa construção é o maior desafio para um jovem cozinheiro de comida tailandesa.”

O curry tailandês

Gaeng Deng Ped, o pato no curry vermelho do Ping Yang
Gaeng Deng Ped, o pato no curry vermelho do Ping Yang

Para os brasileiros, muitas vezes, o curry é um pozinho amarelo que agrega sabor em receitas e nada mais. Para os indianos, é um preparo cremoso, que acompanha pão naan. Para os tailandeses, é uma das bases da sua culinária e, acompanhado, claro, de arroz, pode vir com pato, vegetais, tofu, cogumelos e mais. Vermelho, verde ou das cores que os sabores permitirem.

“Em tradução literal, curry seria um blend de especiarias, que, para a Tailândia especificamente, é uma mistura de aromáticos frescos, cortados e pilados até virar uma pasta, com especiarias secas, tostadas para ativar todas as essências e óleos naturais, e piladas até virar um pó. Geralmente, usamos alho, galanga, pimentas verdes - no caso do curry verde - e mesclamos com sementes de coentro, pimenta branca, semente de cominho e mais. Essa mescla resulta em uma pasta, que é o curry, há inúmeras versões.”

Curry verde é uma das receitas clássicas tailandesas que faz parte do menu do novo projeto de Maurício Santi, o Thai Food Shop
Curry verde é uma das receitas clássicas tailandesas que faz parte do menu do novo projeto de Maurício Santi, o Thai Food Shop

Feita a pasta, ela é refogada e pode ser incorporada ao leite de coco e nam pla, podendo ser retemperado com os própios ingredientes da pasta, mas agora em pedaços maiores. “Cria-se, assim, as camadas de sabor desse prato típico. extremamente complexo.”

As quatro regiões gastronômicas da Tailândia

Maurício Santi conta que é possível dividir a Tailandia em quatro regiões gastronômicas. No Norte montanhoso e com florestas, há o consumo de carne de porco, pato, carnes de caça, rã e cérebro de porco, sempre grelhados em baixa temperatura, longe da brasa, por um longo tempo e, por vezes, embrulhadas em folha de bananeira. “Lá, há muitos ingredientes selvagens e sazonais, então, em cada época do ano, tem um insumo diferente. As comidas não são muito picantes, o paladar é mais herbal, rico em vegetais e porco. Em relação ao arroz, o forte são os glutinosos, como o vermelho, marrom e preto.”

A Tailândia em uma bocada, o Miang Kham Som Goon Young é muito comum no Norte e tem tudo que o país tem a oferecer, de ingredientes a sensações
A Tailândia em uma bocada, o Miang Kham Som Goon Young é muito comum no Norte e tem tudo que o país tem a oferecer, de ingredientes a sensações

Um preparo muito comum na região e que Santi chama de “a Tailândia em uma mordida”, é o Miang Kham Som Goon Young, um wrap de folha de chaplu, com caramelo feito com açúcar de palmeira, polpa de tamarindo, pasta de camarão apimentado e molho de peixe, misturado a cebola roxa, gengibre, limão, pimenta malagueta, amendoim torrado e coco torrado. “Tem muita textura, dulçor, acidez, umami e potência.”

Na região Nordeste, que é mais árida, com muitos campos de arroz, os grelhados também são um ponto forte, como frango, pato e porco, além de saladas - como a de mamão verde. “O perfil de sabor é muito umami, com picância, frescor e toque cítrico. Sempre vem com arroz glutinoso e um molhinho para chuchar, a mesa tem sempre grelhados, sopas e, por vezes, mais de um tipo de salada.”

Na Yam Som Kho Moo Yang, os elementos da culinária do Nordeste do país se misturam na tigela, com uma salada de cítricos com porco grelhado - picante, herbal e cítrica como manda o figurino
Na Yam Som Kho Moo Yang, os elementos da culinária do Nordeste do país se misturam na tigela, com uma salada de cítricos com porco grelhado - picante, herbal e cítrica como manda o figurino

Na região central, muito mais irrigada por rios, tudo muito plano e próxima ao litoral, também é onde está a capital Bankok - justamente por isso, “é onde tem a comida mais conhecida dos marinheiros de primeira viagem”. Curry verde, Pad Thai e Tom Yum Kung (sopa de camarão) são alguns dos exemplos mais tradicionais. “É onde tem o doce, amargo, ácido e o picante mais conhecido pelos gringos, mas Bangkok também é onde tem um encontro de culturas, é onde tem gente do país inteiro e herança de diversas outras cozinhas, como a chinesa.”

Muito comum em Bangkok, o Pla Dip é um crudo de peixe banhado em molho cítrico, picante e, ao mesmo tempo, doce, o Nahm Jim Taleh
Muito comum em Bangkok, o Pla Dip é um crudo de peixe banhado em molho cítrico, picante e, ao mesmo tempo, doce, o Nahm Jim Taleh

Litorânea peninsular, ou seja, com mar dos dois lados, e com muitos rios, a região Sul não é para amadores quando o assunto é picância. “É a região mais picante do país. Em termos de comida, há receitas insanamente picantes.” No extremo sul, há uma população majoritariamente mulçumana, com heranças indianas e da Malásia - país com quem a Tailândia faz fronteira. “Tem diversas heranças gastronômicas que tornam essa região completamente diferente das demais regiões. Muito uso de pimentas e cúrcuma, por exemplo.”

E uma dica de viagem? Bom, segundo o chef, embora as pessoas gostem de ir na época que chove pouco e não é tão calor, “eu já viajo nas temporadas opostas, porque quanto mais água e umidade, mais ingrediente, um período para se conectar com a comida e com sua abundância quando está chovendo.”

Faca à mesa? Na Tailândia jamais!

Comer com as mãos e usando a colher são as principais formas de se alimentar à mesa na Tailândia
Comer com as mãos e usando a colher são as principais formas de se alimentar à mesa na Tailândia

Comer com a mão é muito comum na Tailândia, mas beliscando pequenas porções, fazendo pazinhas com o arroz glutinoso ou vegetais para comer proteínas e ervas diversas com a ponta dos dedos. Quanto ao hashi, ele é utilizado apenas quando come-se algum macarrão longo e ensopado, mais comum em barracas de rua. “Regra geral, no país todo, a colher é o utensílio para se comer, porque tem muito molho, caldo e queremos aproveitar tudo isso. O garfo é apenas uma ferramenta de auxílio para a colher, é o que usa-se para colocar em cima da colher.”

Em termos de utensílios e rituais à mesa, a faca é proibida. “Historicamente, ela é uma arma e, na hora da refeição, é um momento sagrado, então nada de armas à mesa. Por isso, todos os alimentos já estão porcionados para poder pegar com a colher ou está tão cozido que a própria colher o corta.”

Onde comer comida tailandesa em SP?

Ping Yang

TQ SÃO PAULO 19.05.2026 PALADAR MAPA DA CULINÁRIA DA TAILANDIA Pratos preparados pelo chef Mauricio Santi do restaurante especializado em culinária tailandesa, Ping Yang. Foto Tiago Queiroz/Estadão
TQ SÃO PAULO 19.05.2026 PALADAR MAPA DA CULINÁRIA DA TAILANDIA Pratos preparados pelo chef Mauricio Santi do restaurante especializado em culinária tailandesa, Ping Yang. Foto Tiago Queiroz/Estadão

No Ping Yang, o cardápio convida a provar de tudo um pouco, compartilhando e pedindo desde o Nam Dip (R$ 73) e o Miang Kham Som Goon Young (R$ 70), até as saladas, espetinhos grelhados - com destaque para o frango ao curry (R$ 38) e o de cogumelos (R$ 39) - e os curries, com fdestaque para o de curry vermelho com pato (R$ 128) e o de vegetais com tofu e cogumelo (R$ 98).

Onde: Rua Doutor Melo Alves, 767 - Jardim Paulista | @pingyangsp

Indicação do chef: Krapook Khao

No Krapook Khao, é possível provar a Tomyum Kung, uma das sopas mais famosas da Tailândia
No Krapook Khao, é possível provar a Tomyum Kung, uma das sopas mais famosas da Tailândia

Escondidinho no Paraíso, é um “restaurante que claramente demonstra carinho no ambiente e nas receitas”, segundo o chef. “A chef da casa, Woonsen, é uma querida e vira e mexe vem aqui no Ping Yang na sua folga”, conta.

Para comer, vale pedir a sopa de caldo de frango, bokchoy com wonton recheado de porco com camarão, cebolinha e alho (R$ 47,90), o arroz Jasmine tailandês salteado com ovos, cebolinha, temperos especiais da Tailândia e servido com porco grelhado temperado, alho, raiz de coentro e leite de coco (R$ 73,90) e a Tom Yum Kung (R$ 79,90 ou porção grande R$ 150,90).

Onde: R. Mário Amaral, 212 - Paraíso | @krapookkhao

P’Lek

Khao pod é um bolinho de milho frito que acompanha muito bem os drinques da casa
Khao pod é um bolinho de milho frito que acompanha muito bem os drinques da casa

Para drinques com sabores tailandeses, o P’Lek é uma ótima opção. Entre os destaques estão o cereal milk, com vodca, leite com cereal, limão siciliano e maple (R$ 52) e santanás, com cachaça branca, cassis, limão e gengibre (R$ 38). Para beliscar, a pele de frango crocante (R$ 29), o amendoim frito da casa (R$ 18) e o bolinho de milho frito (R$ 36) são ótimas pedidas.

Onde: R. Dr. Melo Alves, 762 - Cerqueira César | @p.lek.bar



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