Você já tomou um vinho da Segunda Guerra?
O convite foi irrecusável: degustar seis tintos de Bordeaux, região conhecida como a que dá origem aos vinhos mais longevos, elaborados durante a Segunda Guerra Mundial. A primeira garrafa de 1937, o ano que começou a segunda guerra sino-japonesa, que historiadores consideram o início da Segunda Guerra Mundial na Ásia, e os dois últimos de 1945, quando o tratado de paz foi assinado. E, entre eles, uma garrafa de 1938 (o Château Latour, da denominação de origem Pauillac), outra de 1941 (Château Moulin des Carruades, também de Pauillac, e que nos anos 1980 tornou-se o Carruades de Lafite) e outra de 1943 (o Château Gruaud Larose, de St Julien).
A apreensão marcou os dias que antecederam a degustação organizada pelo médico Ricardo Ganc para um grupo seleto de amigos, todos apaixonados por vinho, que o Paladar teve acesso com exclusividade. A curiosidade primeira era se um vinho elaborado no mesmo ano em que a Volkswagen foi fundada (o Château Rouget 1937, de Pomerol) ou com uvas colhidas provavelmente no mesmo mês em que as bombas atómicas foram jogadas em Hiroshima e Nagasaki (os chateaux Rouget 1945 e o Chateau Durfort 1945) ainda estariam vivos.
A primeira surpresa do jantar, realizado no restaurante Gero, no bairro do Itaim (SP), foi descobrir que, sim, os seis vinhos não tinham se transformado em vinagre, mesmo com oito décadas, em média, na garrafa e com suas rolhas com muitos sinais do tempo. Aqui, claro, foi preciso um saca-rolhas especial, desenvolvido exatamente para evitar que rolhas antigas se despedacem e pedaços de cortiça caiam dentro da garrafa.
Tons e cores
A alegria começou já com a cor de cada vinho na taça. Não tinham mais os tons rubis vibrantes, que caracterizam os vinhos jovens desta região, mas se destacavam pela cor mais acobreada. E, assim como os tons granada de seu halo, que é aquela borda que se forma entre o centro e o cristal da taça, quando inclinada. A coloração era o primeiro sinal na taça do seu envelhecimento. Nas laterais de cada garrafa, se observava os pequenos sedimentos, resultado da polimerização dos taninos. São pequenas partículas que não fazem mal ao vinho nem a quem o consome, mas que são desagradáveis no paladar, o que explica a decantação das garrafas.
Em estilos diversos de evolução, todos traziam não apenas uma acidez marcante, que, junto com seus taninos, mantiveram a bebida vibrante, como também as notas do chamado buquê, que são os aromas terciários, que vão se desenvolvendo na garrafa ao longo da evolução do vinho. Aqui, as notas aromáticas variaram em cada garrafa, com nítidos toques de tabaco, tostados e chá mate no primeiro vinho, por exemplo, como as nuances de terra molhada (sous bois), chá preto, balsâmicos e até uma nota mais frutada, lembrando mirtilo, dos dois últimos vinhos.
“Os mistérios do vinho fazem com que alguns sejam incríveis, com aromas inusitados, surpreendentes”, afirma o sommelier Manoel Beato, do restaurante Fasano quando perguntado o que procurar em um tinto desta idade. E ele acrescenta: “o vinho perde tanino, acidez e matéria corante, mas se arredonda na garrafa”. Ao perder água, com a micro evaporação, eles se tornam ao mesmo tempo mais concentrados e mais delicados. É preciso lembrar que há muita variação entre cada garrafa, mesmo de um mesmo vinho nesta idade, o que explica também a ansiedade que antecedeu o evento.
Oxigênio
Por fim, o contato com o oxigênio, com as garrafas abertas, mostrou-se implacável. Os seis vinhos foram abrindo seus aromas e sabores, encantando os presentes, mas não demorou muito, cerca de pouco mais de uma hora, para começarem a perder o seu encanto. Dos seis, o que foi mais longevo, e ia abrindo camadas de aromas na taça, foi o Latour, não por acaso o que tem a maior classificação em Bordeaux entre os vinhos degustados.
Também não se conseguiu informação sobre as uvas que formam os seus blends e como cada vinho foi elaborado – uma das hipóteses é que os produtores estariam nos campos de batalha e que pessoas sem experiência poderiam ter colhido as uvas, por exemplo. Das poucas informações disponíveis sobre essas safras, só é possível inferir que as uvas cabernet sauvignon e merlot devem ser as variedades principais nestes blends. E, assim, os vinhos contaram um pouco da sua história na taça.
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