Urubamba, um jeito de conhecer o Vale Sagrado

Não tenho nadica contra Cusco. A antiga capital inca tem seu charme, seus becos de pedra e aquela efervescência de quem acabou de desembarcar nos Andes. O problema é que, para explorar o Vale Sagrado sem o desgaste da logística ou a pressa do turismo de massa, a melhor decisão geográfica atende pelo nome de Urubamba.

A altitude é mais amena, o clima mais quentinho e o ritmo é outro. Fica a pouco mais de uma hora de carro do aeroporto de Cusco e a um pulo das salinas de Maras, onde dá para comprar o famoso sal rosa direto da fonte. E não, eu não tenho um dealer secreto para conseguir entradas de última hora para Machu Picchu. Mas o Tambo del Inka, uma grata descoberta nessa jornada, tem algo quase tão bom: uma estação de trem própria, de onde se embarca direto para a cidadela.

Tambo del Inka
Tambo del Inka

Embora seja uma base perfeita para os passeios, esse refúgio chiquetoso de cinco estrelas faz você querer adiá-los. Cercado por um bosque andino, mergulha num silêncio que, diferente de Cusco, parece fazer parte da hospedagem. Há ainda uma piscina quentinha debruçada sobre a paisagem – e motivos de sobra para ficar.

Sob o comando do chef Liner Vega, a gastronomia prolonga essa sensação de lugar. Poderia falar de um dos buffets de café da manhã mais bem-cuidados que vi nos últimos tempos, levado ao quarto para um desjejum sem pressa na varanda. Mas fico com a horta orgânica de 2 mil metros quadrados. Ali, passa-se horas colhendo ervas e vegetais antes de aprender a socar, no pilão de pedra, molhos tradicionais como a uchucuta, em que pimenta e queijo local encontram o frescor vibrante das folhas nativas.

O mercado, a terra e o prato

Saindo do hotel, em cinco minutos a pé se chega ao mercado do povoado. No galpãozão, o Peru se mostra sem filtro: bancadas transbordando de batatas, como a papa helada, marcada pelas geadas das madrugadas, e a moraya, que passa por um longo processo de lavagem e secagem ao sol até ficar branquinha. Entre elas, milhos de todas as cores e cuys (sim, o porquinho-da-índia) à espera da panela.

Ao lado de ervas usadas para temperar ou perfumar banhos de descarrego, aparecem frutas nativas em seu ápice. A chirimoya, parente da nossa atemoia, chega nos Andes a uma concentração de sabor e uma mantecosidade difícil de esquecer. A lúcuma revela polpa densa e um gosto que lembra caramelo. E a tuna, rosa intensa ou alaranjada, brota dos cactos e entrega uma doçura aquosa, interrompida pelas sementes salientes.

Portões adentro do Tambo del Inka, tampouco há marasmo. Há uma novidade: um Boulevard. Não se trata de uma galeria comercial para turista abobado. Por lá, convivem o trabalho do mestre Máximo Laura, reconhecido como Tesouro Humano Vivo do Peru por suas tapeçarias monumentais, cafés de especialidade torrados pelo Café Mayu, e a plataforma cultural AMA Sacred Valley.

Boulevard - Tambo del Inka
Boulevard - Tambo del Inka

À frente dela, o pesquisador Julio Chavez criou mais do que uma ponte entre viajantes e comunidades andinas. Criou um abrigo. Ouvir Julio falar sobre a memória do vale enquanto se afunda numa manta de baby alpaca, abraçante como o melhor dos colos, é uma das experiências mais marcantes de Urubamba.

Ele conta essa memória enquanto serve pão quente com manteiga artesanal produzida por mulheres em situações vulneráveis da região. A pausa para o lanche vira uma homenagem à própria mãe. Eu poderia tentar explicar o que acontece ali, mas não chegaria perto. Tem que escutar o moço, não tem outro jeito.

E, se fosse pouco, estar em Urubamba é ficar no epicentro de algumas das melhores experiências etílico-gastronômicas dos Andes. Você está a meia hora do Mil, o laboratório-restaurante de Virgilio Martínez e Pía León suspenso sobre as ruínas de Moray, um dos meus restaurantes prediletos da vida. Está igualmente perto do pesquisador de solos Manuel Choqque e de seus extraordinários fermentados de oca.

MIL Preservation
MIL Preservation

Para arrematar a jornada líquida, a dica é a Destilería Andina. Eles têm um bar junto ao próprio alambique, mas também um espaço novinho em folha no tal do Boulevard. Em qualquer um dos dois, dá para conhecer os destilados botânicos locais e provar o Matacuy, elixir digestivo elaborado com dezenas de ervas andinas. O melhor? Dá para formular a sua própria versão da bebida e botar na mala.

Cusco pode até ser a porta de entrada para o Vale Sagrado. Eu prefiro a mesa posta em Urubamba: entre uma batata que você nunca viu com muito queijo, um gole de Matacuy e outra história de Julio Chavez, o passeio pode esperar. A quem interessar possa: no Tambo del Inka, as diárias começam em US$ 546. Digo apenas por que alguém há de perguntar.



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