Altis Belém, um hotel para comer Lisboa à beira do Tejo

Hotel em Belém faz da gastronomia uma das razões para se hospedar às margens do rio

Altis Belém Hotel & Spa, às margens do Tejo, em Lisboa | foto: Divulgação
Altis Belém Hotel & Spa, às margens do Tejo, em Lisboa | foto: Divulgação

 

Lisboa é o tipo de cidade em que ficar no hotel costuma parecer desperdício. Há sempre uma rua para conhecer, um restaurante para provar ou uma mesa que alguém jurou ser imperdível.

Nos três dias em que fiquei no Altis Belém Hotel & Spa, porém, aconteceu algo curioso. Passei boa parte do tempo fora, como imaginava, mas uma das melhores refeições da viagem estava justamente alguns andares abaixo do meu quarto.

Escolher Belém significa ficar um pouco distante da agitação do centro de Lisboa. Em compensação, Torre de Belém, Padrão dos Descobrimentos e Mosteiro dos Jerónimos estão a poucos minutos a pé, e o hotel praticamente faz parte do calçadão que acompanha o Tejo.

Durante o dia, tudo isso significa movimento e muitos turistas, mas à noite descobri uma Belém bem diferente. Depois de passar o dia andando por Lisboa, voltar para o hotel dava quase a sensação de sair da cidade sem efetivamente deixá-la.

O calçadão esvazia, o barulho diminui e o Tejo, que durante o dia divide atenção com tanta coisa, passa a dominar a paisagem. O Altis Belém tem apenas 50 quartos e suítes, e esse tamanho relativamente pequeno ajuda na sensação de sossego.

Há ainda piscina panorâmica no rooftop e spa, mas não foram essas instalações que definiram minha hospedagem. Foi principalmente a gastronomia, que começa cedo na Cafetaria Mensagem, onde o café da manhã é servido diante da Doca do Bom Sucesso, com o Tejo praticamente incorporado à paisagem.

O serviço pela manhã é muito cordial e, entre o que provei, ficaram especialmente na memória os pastéis de nata, sempre fresquíssimos. Daqueles que tornam bastante fácil arrumar uma justificativa para comer mais um antes de sair para andar por Lisboa.

O 38º41? Gastrobar acabou entrando naturalmente na rotina da hospedagem. Passei por lá em duas noites para tomar algumas taças de vinho e, em uma delas, pedi as famosas e imprescindíveis amêijoas à Bulhão Pato, servidas em bastante caldo, com alho, ervas e limão, um prato simples, saboroso e especialmente bom para acompanhar com um bom vinho branco.

1. O 38º41? Gastrobar, com vista privilegiada para o Tejo | foto: Divulgação
1. O 38º41? Gastrobar, com vista privilegiada para o Tejo | foto: Divulgação

 

Mas parte da graça está do lado de fora do prato. Sentar ali com uma taça de vinho, de frente para o Tejo, acompanhando a pequena agitação de barcos e veleiros no rio, foi um dos programas de que mais gostei no hotel.

A localização interfere diretamente na experiência de comer e beber por ali. E os próprios nomes dos espaços começam a revelar outra característica do Altis, já que os Descobrimentos portugueses inspiraram parte do projeto do hotel e aparecem em referências espalhadas pela decoração.

É no Feitoria, porém, que essa relação entre viagem, território e comida fica realmente interessante. O restaurante funciona no hotel desde 2009 e recebeu sua primeira estrela no Guia Michelin 2012, distinção que mantém desde então.

Hoje a cozinha está nas mãos de André Cruz, que entrou para a equipe original do Feitoria em 2009, aos 21 anos. Depois de passagens pelo Gustu, na Bolívia, e pelo Boragó, no Chile, retornou ao restaurante em 2015 e assumiu seu comando em 2022.

Essa temporada fora de Portugal parece ter provocado um efeito curioso, porque, em vez de voltar interessado em fazer uma cozinha mais internacional, André passou a olhar ainda mais para o próprio país. Isso fica claro no Semente, seu menu degustação, oferecido em diferentes extensões e do qual escolhi o Folha, a mais longa.

Não espere encontrar apenas nomes misteriosos que exigem uma explicação de vários minutos para descobrir o que está no prato. Aparecem palavras bastante portuguesas, como cozido, açorda e bacalhau, e é justamente a partir delas que André constrói uma cozinha bem mais complexa.

A noite começa com a Viagem, sequência de pequenas preparações apresentadas entre folhas, ervas e especiarias, seguida por pão, azeite e manteigas. Depois veio a Fragateira, um dos primeiros pratos que me chamaram a atenção.

Cebolas, croutons, camarões e salmonete chegam com um molho de batata, tomate e pimentos que imediatamente me fez pensar em uma caldeirada. Essa lembrança importa mais do que a apresentação, porque o interessante ali não é pegar uma receita popular e simplesmente vesti-la para um restaurante estrelado, mas preservar sabores familiares e reorganizá-los.

Na sequência veio a Grãozada de bacalhau, cujo ponto de partida é a mão de vaca com grão, prato tradicional português, mas aqui a carne desaparece e o bacalhau ocupa seu lugar. O uso de diferentes partes do peixe diz bastante sobre a cozinha de André, que não constrói o menu apenas em torno de produtos caros ou daqueles ingredientes que, quando anunciados à mesa, já parecem pedir aplausos.

Meu prato preferido talvez tenha sido o Cozido do mar. Na versão que provei havia enguia defumada, cavala, mexilhões e cherne, ligados por um caldo intenso preparado também com as aparas do próprio cherne.

A lembrança do cozido português é clara, embora desapareça justamente a carne que normalmente ajuda a defini-lo. A enguia defumada ocupa parte desse espaço, trazendo gordura, fumaça e intensidade, enquanto peixes e frutos do mar fazem o restante do trabalho.

Depois veio a Açorda, em que pão e alho aparecem com pregado, pele do próprio peixe e croutons, além de um molho também preparado a partir dele. É um bom exemplo de como uma receita de origem simples pode passar por uma cozinha tecnicamente complexa sem deixar de ser reconhecível.

Gosto especialmente quando um menu degustação não transforma tudo em enigma. Aqui você come a açorda sabendo que é açorda, reconhece o pão, sente o alho e entende de onde aquilo veio.

Na última etapa salgada havia escolha de proteína entre porco e entrecôte, ambos servidos bem rosados. Os dois vinham acompanhados de cuscos de Vinhais e folhas aciduladas, uma mudança de registro que funcionou bem depois de uma sequência tão ligada ao mar.

A harmonização também merece destaque, e Portugal aparece bastante, como seria natural, mas a seleção não fica presa às fronteiras do país. Passaram pela mesa Génese Altitude Alvarinho 2025, Monte Branco 2021, Insula Arinto dos Açores 2018 e Salino, da Cortes de Cima.

A seleção portuguesa conviveu com garrafas internacionais importantes, entre elas o Chassagne-Montrachet Vieilles Vignes 2021, de Pierre-Yves Colin-Morey, da Borgonha, e o Columella 2020, da Sadie Family, uma estrela da África do Sul. Gostei dessa liberdade, já que a cozinha pode estar profundamente interessada em Portugal sem obrigar o vinho a apresentar passaporte português.

O serviço acompanha bem a proposta do restaurante, sempre muito cordial e, principalmente, detalhado nas explicações. Isso é particularmente importante em um menu construído sobre referências portuguesas que nem sempre são familiares para quem vem de fora, e ajuda a entender os pratos sem transformar cada etapa em uma palestra.

Ao final do jantar tive ainda a oportunidade de conhecer André Cruz e conversar um pouco sobre sua trajetória e o conceito do trabalho no Feitoria. Entre as coisas que ele me contou, uma confirmou uma sensação que eu já vinha tendo ao longo da noite, a preocupação com a leveza do menu.

André Cruz, chef do estrelado Feitoria | foto: Divulgação
André Cruz, chef do estrelado Feitoria | foto: Divulgação

É uma qualidade que valorizo cada vez mais, especialmente em uma época em que tenho a impressão de que muita gente já se cansou daqueles menus degustação longos e pesados, dos quais você sai praticamente derrotado pela quantidade de comida. O Folha percorre muitas etapas sem provocar essa sensação.

Há pão, molhos, peixes, frutos do mar, carne e uma sequência considerável de preparações, mas cheguei às sobremesas ainda com vontade de continuar comendo. Hoje, talvez seja um dos melhores elogios que se possa fazer a um menu degustação dessa extensão.

As sobremesas levam o jantar para um terreno mais afetivo, primeiro com um arroz-doce com crocante de leite e depois com uma sericaia com caramelo de mel e vinagre e folhas encontradas em Portugal. O último doce, porém, foi o que mais me interessou pela história.

O bolo de amêndoas parte de uma referência de Escalhão, terra da mãe de André Cruz, trabalha a amêndoa em diferentes texturas, leva Amarguinha e só começa a ser assado quando é servida a primeira das sobremesas, por isso chega quente à mesa. Depois de tanta técnica, terminar com uma sobremesa ligada à mãe do chef e ao lugar de onde ela veio me pareceu uma maneira bastante coerente de encerrar o jantar.

No fundo, boa parte do menu havia feito exatamente esse movimento, partir de alguma memória portuguesa para chegar a outra coisa sem apagar a origem. Para acompanhar o final, ainda veio um Kopke Colheita Porto 1999.

Até o salão ajuda a entender onde estamos, já que um de seus elementos mais marcantes é uma reprodução autorizada de partes de um biombo Namban, referência às representações japonesas da chegada dos portugueses à ilha de Kyushu nos séculos XVI e XVII. O nome Feitoria também não é gratuito, pois as feitorias foram pontos comerciais importantes nas antigas rotas marítimas portuguesas.

Existe, portanto, uma ligação entre o restaurante, o hotel e a própria Belém, mas que poderia facilmente escorregar para algo temático demais. Não acontece porque, no Feitoria, Portugal aparece muito mais claramente no prato do que na decoração.

Depois de três dias andando e comendo bastante por Lisboa (do que ainda falarei neste coluna), uma das refeições que mais ficaram na memória aconteceu justamente onde eu estava hospedado. E houve ainda um último prazer bastante simples, terminar o jantar com um Porto de 1999 e, em vez de procurar um táxi ou chamar um Uber, andar alguns passos e subir para o quarto.

Talvez essa seja a melhor maneira de explicar por que o Altis Belém cabe em uma coluna de gastronomia. Não é apenas um hotel interessante que por acaso tem um bom restaurante, comer e beber bem fazem parte da própria razão para ficar.

 

Serviço

Altis Belém Hotel & Spa Doca do Bom Sucesso, 1400-038 Lisboa, Portugal Telefone: +351 210 400 200 Instagram: @altisbelem.hotel

 Feitoria Restaurante & Wine Bar Altis Belém Hotel & Spa Doca do Bom Sucesso, 1400-038 Lisboa, Portugal Telefone: +351 210 400 208 Instagram: @restaurantefeitoria Funcionamento: terça a sábado, das 18h30 às 23h



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