Talheres, luminárias e até lixeiras: chefs relatam furtos de objetos dentro de seus restaurantes
O desabafo veio em vídeo, direto do Instagram. A chef Renata Vanzetto, conhecida por seus restaurantes em São Paulo e pelo posto de jurada no reality Chef de Alto Nível, da TV Globo, descreveu uma cena que seus colegas de profissão reconheceram imediatamente: clientes que chegam de carro importado, pedem vinho caro e, na hora de ir embora, levam na bolsa quatro talheres de prata que não lhes pertencem. Ou uma luminária de R$ 1,5 mil. Ou um pote com vela.

“Vocês sabiam que quanto mais restaurante eu tenho, quanto mais clientes eu atendo, mais roubo a gente tem? Mais talher some, mais prato some. É uma coisa muito absurda, assustadora, triste”, disse a chef. Os vídeos rapidamente viralizaram e abriram espaço para um debate que o setor de gastronomia de São Paulo carrega há anos em silêncio.
O relato de Vanzetto funcionou como gatilho para que outros empresários do ramo viessem a público com histórias semelhantes. O padrão se repete: os furtos não são praticados por necessidade, mas por oportunismo, muitas vezes por clientes de alto poder aquisitivo. “Não importa quanto custa, não é dela, é um furto”, afirmou a chef.
Do copo de chope ao quadro na mochila
Júlia Tricate e Gabriel Coelho, à frente dos restaurantes De Segunda, De Primeira Botequim, Quintal De Primeira e Santokki, confirmam que o problema é corriqueiro em seus estabelecimentos. “A gente tem muitos furtos nos nossos restaurantes. Na maioria das vezes são copos, pratos e colheres, mas já aconteceu de levarem decoração, como porta-retratos e um quadro do Santokki que nem cabia na mochila”, conta Tricate. “Levaram até uma lixeira média, que ficava no salão e, como estava na correria de fim de semana, só fomos perceber no fim da noite que ela não estava mais lá”.
A experiência os levou a repensar até a identidade visual de seus utensílios. Quando o De Primeira Botequim inaugurou, os copos de chope traziam o logo da casa e sumiam em quantidade. Ao retirar a marca, os furtos reduziram. A lógica, perceberam eles, era a do souvenir: o cliente queria levar para casa um objeto que representasse a experiência vivida.

“Também aprendemos que em dias de muito movimento, como nos sambas, é melhor usar descartáveis, porque se forem os de vidro, as pessoas levam embora”, dizem. Não raro, funcionários encontram os copos da casa abandonados nas estações de metrô próximas.
‘Acabou virando parte do custo de funcionamento’
Rafaella Wallner, sócia do Expedito Bar — casa com duas décadas de história num bairro de classe alta de São Paulo —, resume o problema com a resignação de quem já tentou de tudo. “Eu e meu marido tocamos o Expedito há duas décadas e essa mania de levarem as coisas daqui já virou rotina”, diz ela. “O bar fica num bairro de classe alta, mas isso não muda em nada o comportamento das pessoas”.
Na casa, some desde o copinho de shot ao saleiro da mesa. E a frequência, diz Wallner, é o que transforma o que pareceria um incidente isolado em problema financeiro real. “Quem faz isso pensa que um item só não faz falta, o que até seria verdade se fosse um caso isolado. O problema real é a frequência. Quando você soma tudo, ter que gastar dinheiro comprando lotes de copos e utensílios novos todo mês quebra totalmente o nosso planejamento financeiro”, conta.
A situação se agrava quando o bar investe em novidades. “Pouco tempo atrás, resolvemos trocar o design dos saleiros e eles começaram a sumir um atrás do outro. O mesmo rola quando chegam copos personalizados de alguma marca ou taças diferentes para lançamentos de chope. É batata: se o design é bonito e chama a atenção, o objeto desaparece”, conta.

Diante da impossibilidade de abordar clientes — “jamais mandaria revistar alguém ali dentro do estabelecimento, causaria um mal-estar horrível no ambiente”, afirma Rafaella—, a saída encontrada foi monitorar o estoque e absorver a perda. “Esse gasto extra acabou virando parte do custo de funcionamento do bar”, diz.
Aliás, um dos dilemas mais delicados descritos pelos proprietários é exatamente esse: mesmo quando a equipe flagra o furto em tempo real, a intervenção raramente acontece. As câmeras registram, o prejuízo é contabilizado, mas confrontar o cliente é uma linha que a maioria prefere não cruzar. “Quando dá, olhamos nas câmeras e tentamos ‘resgatar’, perguntando se por um acaso não caiu na bolsa ou algo assim”, diz Coelho. “Mas na maioria das vezes só vemos depois mesmo”.
Renata Vanzetto descreveu a mesma impotência. “Vocês não têm noção da quantidade de vídeos que a gente tem de clientes enfiando coisas na bolsa. Muitas vezes a gente só percebe quando dá falta do objeto”, afirma.
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