Provador: o bar de 11 lugares escondido em uma alfaiataria em Moema
Há bares que exibem suas credenciais logo na entrada. O Provador, em Moema, segue o caminho oposto. Por mais que a tentação seja manter esse esconderijo sob sigilo, a omissão seria injusta. Até porque o bar já impõe seus próprios filtros naturais para selecionar os ocupantes do balcão: a exigência de uma reserva prévia e disputada, a ausência completa de um menu impresso e a disposição para pagar pelo menos R$ 70 por coquetel.
Atravessadas as cortinas de veludo, contudo, o arrependimento é nulo. O espaço propõe um retorno ao tempo em que o bartender trabalhava de olho no cliente: observava o ritmo do gole, decifrava o humor da noite e calibrava clássicos ou criava releituras sob medida, ali na sua frente, a partir da conversa.
O bar para 11 pessoas funciona nos fundos do ateliê de Alexandre Won, nome de peso da alfaiataria bespoke no país, conhecido por moldar a ferro e tesoura os ternos estruturados da elite financeira. Das 17h às 19h, as duas operações convivem sob a mesma música de elevador – talvez o único ponto recriminável do lugar. A dinâmica é singular: você gira o gelo de um highball e, a poucos passos dali, como numa vitrine, um cliente retira um terno de dezenas de milhares de reais.

O conceito do bar foi desenhado por Ricardo Miyazaki, o homem que transformou o The Punch Bar, no Paraíso, em uma referência da coquetelaria japonesa em São Paulo. Sua casa tem regras claras, técnica apurada e hospitalidade sem excessos, características que também aparecem no Provador. Mas, ali, quem comanda o balcão no noite a noite é Ryu Komorita.
Campeão do World Class Brasil 2024, Ryu viveu no Japão, trabalhou no El Lequio, em Okinawa, e na Destilaria Mizuho. Em Moema, leva ao copo o mesmo rigor que Won aplica às linhas e agulhas. É um endereço para apreciadores de detalhes, seja no caimento de um paletó ou na diluição de um drink.

Provei alguns, bebi feliz dois coquetéis inteirinhos da caderneta do bartender. O primeiro, o Martini San (R$ 74), levava shochu Momosuke, destilado japonês à base de cevada, Dolin Dry, vermute francês de perfil levemente amendoado, o aperitivo Cocchi Americano, bitter de laranja e de salsão, azeitona e salmoura de azeitona. O resultado era um martini distante da secura tradicional, com uma inesperada nota de cacau e flor de sal no final de boca.
Para o segundo, Great Ball on Fire (R$ 74), foram quase dois minutos de preparo – sem contar os dois dias necessários para a produção do xarope de missô, mel e pimenta gochujang seca. O coquetel começa com tequila na base da coqueteleira, a tal da calda picante, recebe jerez fino, suco de limão e pedras de gelo. Passa por uma shakeada vigorosa e constante, toca o balcão em uma coupe de cristal com sal grosso na borda. Sem garnish. Como acontece do outro lado da cortina, o acabamento dispensa ornamentação.
Provador
R. Normândia, 76, Moema. Ter. a sáb., das 17h às 20h e das 20h30 às 23h. Tel.: (11) 92584-1809
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