Maquiadoras de comidas: conheça quem embeleza o que desejamos comer

Por trás de cada foto suculenta de comida ou bebida que você vê nas redes sociais, na embalagem de um produto ou no outdoor da rua tem uma pessoa que passou dias produzindo os ingredientes mais lindos, fazendo muita pesquisa e decifrando desejos de grandes marcas do setor de alimentos, restaurantes, cafés e sorveterias que estarão, enfim, revelados na foto ou no video de um sanduíche, de uma carne, de um picolé ou de uma barra de chocolate.

A profissão de food stylist, ou produção culinária, ainda é desconhecida de grande parte do público que consome um produto influenciado pela promessa de um sabor tão gostoso quando a aparência que ele entrega na embalagem, na páginas de um livro ou em mais uma campanha publicitária que nos impacta.

A missão desses profissionais da beleza culinária pode ser comparada a de um beauty stylist, vulgo maquiador ou maquiadora, em português claríssimo. Um time de especialistas que defende com unhas, dentes e uma maleta de produção bem fornida a boa imagem da comida ou da bebida que consumimos.

A produtora culinária Tatu Damberg, 20 anos maquiando comidas
A produtora culinária Tatu Damberg, 20 anos maquiando comidas

A produtora culinária Tatu Damberg acumula mais de 20 anos entre um estúdio e outro com a missão de deixar a comida mais bela. Um prazer para ela, apaixonada por comida desde sempre, autora de dois livros de receitas e uma das pioneiras na blogueiragem gastronômica com o “Mixirica”, lançado em 2002, 10 anos no ar.

Tatu começou a se interessar pelo assunto na faculdade de psicologia — que não concluiu e trocou pela primeira turma do curso de gastronomia da Anhembi Morumbi: “A partir desse momento, comecei a misturar os dois assuntos na minha cabeça porque percebi que haviam muitos aspectos psicológicos na gastronomia”. Combinação que, de muitas maneiras, apoia sua pesquisa e garante jogo de cintura com a multidão de pessoas envolvidas no mesmo trabalho: cliente, fotógrafo, assistentes, modelos e todo o elenco que costuma participar de uma grande produção de publicidade.

O food stylist Juliano Albano, autor do livro
O food stylist Juliano Albano, autor do livro "Food Styling", publicado em 2024 pelo Senac

Maquiadoras e maquiadores de comida tratam itens alimentícios como modelos. Juliano Albano usa o termo casting para se referir à escolha dos chocolates mais bonitos dentro de uma produção. Ele trabalha desde 2012 na área. Começou na profissão com o mesmo entusiasmo com que encara o expediente quase 15 anos depois de ter largado o curso de artes visuais, e concluído outro de gastronomia, antes de assumir oficialmente o posto de produtor culinário. Em 2024, lançou a primeira publicação nacional sobre o assunto: “Food Styling - Manual prátIco de produção gastronômica para foto e vídeo (Senac), em parceria com o marido e fotógrafo João M. Portelinha Neto.

“COMIDA PARA FOTOGRAFIA NÃO TEM QUE SER GOSTOSA, ELA TEM QUE PARECER GOSTOSA”

Juliano Albano no livro “Food Styling", Senac)

Descobriu que gostava de ser um maquiador de comidas, entre tantas mulheres que atuam na área, quando resolveu acompanhar a foto de um prato criado por ele para o restaurante de um cliente. “Era um cuscuz feito com quinoa e pepinos, servido com uma posta de salmão, finalizado com salsa de abacate e uma chuva de chocolate branco por cima; um prato bonito que ficou horroroso na foto”, lembra. “Entendi ali que nem toda comida é fotogênica e pedi uma semana para refazer a foto; corri atrás da ajuda de um professor que já trabalhava com food styling e consegui maquiar o prato para que ele ficasse bonito, e deu certo”. A partir dali, não parou mais. Juliano brinca que hoje trabalha com a comida só pra ver, pra comer só em casa.

Sofrências e perrengues da profissão

A produtora culinária Celisa Beraldo está acostumada a fazer campanhas para marcas gigantes do mercado e explica que o trabalho é bem técnico, especialmente quando a ideia é fotografar para a embalagem de um produto: “A imagem tem que caber em espaço limitado, focado no produto, sem adereços, é um desafio, mas amo“.

Tatu Damberg lembra que toda diária tem BO. “Já recebi produto destruído que tive que fazer plástica porque a maquiagem só não dava conta”, lembra. “Também já tive que criar um produto fake do zero na hora, na cara e na coragem”.

Panquecas prontas para a foto no livro Food Styling, os palitos saem de cena nas pós-produção
Panquecas prontas para a foto no livro Food Styling, os palitos saem de cena nas pós-produção

Juliano Albano lista como seu maior perrengue o dia em que teve de transformar um camarim de 2mX1m em uma câmara fria para a produção culinária de uma foto que tinha sorvete e chocolate. “Fazia 38 graus no dia, ar-condicionado quebrado no estúdio e o jeito foi improvisar com um ar portátil no talo e muito gelo seco para dar conta do recado”, lembra.

O produtor relata que outra grande dificuldade é o fato de as pessoas não entenderem a natureza do trabalho: “Fiz o livro justamente por conta das dificuldades que passei no inicio da carreira, para ser o guia para os próximos profissionais”.

Comeu, morreu!

É pra ver ou para comer? A piadinha infame vale como salva-vidas em uma diária de gravação. Isso porque muita gente desavisada ataca sem pestanejar a comida já “maquiada” no estúdio. A food stylist Aline Novais lembra de um caso traumático. O cliente estava acompanhando a sessão de fotos de um sanduíche lotado de alfinetes. Quando o fotógrafo anunciou “temos!” (termo comum quando o material já é considerado satisfatório), o cliente foi direto pra cima do sanduíche, com alfinete e tudo. “Mas ele sobreviveu e deu tudo certo”, conta. “Pior é que ele já estava acostumado aos bastidores da produção, só posso crer que o sanduíche devia estar muito apetitoso”.

Um dos truques mais aclamados do meio e desconhecido do público em geral: frango cru pintado para a foto
Um dos truques mais aclamados do meio e desconhecido do público em geral: frango cru pintado para a foto

O áudiovisual é um território realmente peculiar... São famosas as plaquinhas de “comeu, morreu”, espalhadas pelo set de gravação quando Tatu Damberg está trabalhando: “Precisamos lembrar o tempo todo que as pessoas não podem comer as produções sob o risco de se darem mal”, brinca.

Juliano Albano não esquece o dia em que um assistente perguntou no meio da sessão de fotos se o panetone tinha algo crocante na receita. O produtor, que costuma colar fatias de presunto, frutas cristalizadas e uvas passas com Super Bonder durante a produção, “para que tudo fique paradinho no lugar”, ainda tentou alertar mais um degustador de comidas de estúdio, mas já era tarde. “Ele comeu um pouco de cola, mas deu tudo certo no final”, conta bem-humorado.

Mala de produção tem de cotonete a ferramentas de dentista

Linha de costura, alfinete, utensílios para fazer unhas decoradas, palitos de churrasco… A imaginação dos produtores é infinita na hora de criar soluções para dramas práticos na hora da foto. Juliano é fã de Corega em pó, a famosa cola para dentaduras, misturada com um pouco de água, para manter a comida no lugar na hora de uma filmagem que pede movimento. Água termal para umedecer fatias de presunto ou dar a impressão de garrafa suada de tão gelada também entram na lista de recursos ilusionistas de Juliano — que também mantém uma coleção de ferramentas de dentista na maleta de produção.

Alguns dos itens de primeira necessidades pinçados da maleta de produção da food stylist Tatu Damberg
Alguns dos itens de primeira necessidades pinçados da maleta de produção da food stylist Tatu Damberg

Aline Novais aponta como itens preciosos na sua malinha um kit de pinças e pincéis, maçarico, glucose de milho, para um brilho natural na comida, além de muitos potinhos de corantes: “Uso para pintar aves, que são sempre fotografas cruas para manter a forma original”. Celina Beraldo não vivem sem: pinça, cotonete, borrifador, papel toalha, álcool e um kit para unha de gel: “Consigo modelar molho, limpar coisa que escorreu…" Enquanto Tatu Damberg destaca como seus ítens mais valiosos: soprador térmico, lupa, massinha de modelar para fazer brigadeiro fake e absorvente interno: “Ajuda muito na hora de criar a fumacinha da comida na foto”.

A beleza da imperfeição

Com tanta técnica para atingir a desejada perfeição e, do nada, surge a IA. E aí, como lidar? O time de especialistas é unânime ao apontar uma divisão clara neste momento: clientes que pedem a perfeição quase impossível da Inteligência Artificial e outros que desejam o oposto: comidas que pareçam reais.

“Nos últimos dois anos, com as fotos de IA, tenho me encantado ainda mais com as “imperfeições” da comidas", conta Aline Novais. “Já passei por momentos em que o critério dos clientes era a perfeição, hoje vejo que alguns deles prezam pelo oposto, de valorizar a realidade.”

A produtora Aline Novais em ação:
A produtora Aline Novais em ação: "Sempre me encantei muito pela parte da parte estética, a composição da foto, de passar uma mensagem especifica através da comida"

Realismos e surrealismos à parte, há ainda o desafio de topar com comidas pouco fotogênicas, que pedem esforços redobrados na hora do make. Entre os alimentos destacados como os “piores modelos” entram: estrogonofe, risoto e feijoada. Enquanto na lista dos “apenas desafiadores” estão sorvete, marshmallow, lasanha e chocolate em dias de calor.

Quero ser food stylist

A profissão, via de regra, é aprendida na raça. “Quando comecei a trabalhar não tinha curso, fiz aula por email com uma food stilyst americana, depois viagem para um curso presencial em Nova York e nunca parei de estudar o assunto”, lembra Tatu Damberg. Por conta da escassez de material para aprender o ofício, ela criou um curso online de produção culinária na Hotmart, além de realizar mentorias. Uma leitura que ela considera obrigatória? O livro-bíblia da área: “Food Styling”, da americana Delores Custer.

Celisa Beraldo maquiando uma de suas especialidades: sanduíches
Celisa Beraldo maquiando uma de suas especialidades: sanduíches

Celisa Beraldo fez Artes Plásticas na Faap, pós-graduação em fotografia no Senac, trabalhou no MAM como coordenadora dos cursos de arte até cansar dessa vida e fazer um curso profissionalizante na Academia Gastronômica. De lá foi para a Itália fazer especialização em culinária italiana. Um aprendizado na base do acúmulo de estudos e muita “ralação” em estúdios até ficar craque no assunto.

Ouso colocar aqui adicionar um predicado extra no currículo desse time: o espírito de aventura aliado a altas doses de “se vira nos trinta”. Todos eles, sem excessão, têm apenas uma certeza ao sair de casa antes do expediente: uma descoberta nova a cada diária de trabalho.



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